Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas]  

Ciclo «Conversas»

No âmbito do ciclo «Conversas», a exposição propôs um diálogo entre um conjunto de pinturas criadas por Helmut Federle nas últimas três décadas de carreira – uma série de obras em cerâmica marroquina e japonesa do século XVII colecionadas pelo artista – e as peças safávidas do século XIV, pertencentes à Coleção do Fundador.
Part of the “Conversations” cycle, the exhibition initiated a dialogue between a series of paintings created by Helmut Federle in the final three decades of his career, a series of 17th century Moroccan and Japanese ceramics collected by the artist, and the 14th century Safavid pieces belonging to the Founder’s Collection.

Helmut Federle (1944) nasceu em Solothurn, na Suíça. Atualmente, vive e trabalha entre Viena, Áustria e Camaiore (Itália), tendo passado também por Nova Iorque, Tailândia e Novo México. Reconhecido no meio artístico como autor de uma obra coesa e maturada, expõe com regularidade, participando em exposições coletivas e individuais. Em 1997, representou a Suíça na 47.ª Bienal de Veneza. A sua obra encontra-se representada em inúmeras coleções públicas e privadas, sobretudo nos continentes europeu e americano.

Nómada de corpo e de espírito, desde os anos 70 que Helmut Federle desenvolve um trabalho que parte da abstração geométrica para explorar a relação entre forma e fundo, ordem e desordem, movimento e quietude (Peter Blum Gallery \ «Helmut Federle», s.d.). A observação da paisagem e dos hábitos das culturas americana, japonesa e magrebina são outras das principais vias de influência para o artista, que declara: «As culturas alheias assumem um grande papel na busca da minha identidade, o que conduz irremediavelmente a uma incompreensão dentro da minha própria cultura, através de uma rejeição consciente da homogeneização dos valores.» (Federle; Suss, Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas], 2017, p. 12)

Acolhendo estes temas, canalizados sobretudo através da pintura, mas também do desenho, a obra de Helmut Federle oscila entre uma vertente pictórica associada à ação gestual da pintura e da caligrafia, que olha os caracteres japoneses e os ideogramas do budismo zen, e uma vertente mais puramente geométrica, devolvendo-nos uma imagética que tem origem na espiritualidade, no simbolismo e na proximidade com a natureza. Quanto aos objetos que lhe servem de referência, o artista diz terem sido encontrados «por acaso», acrescentando: «Trata-se apenas de uma acumulação dos mais diversos tipos de coisas, que se relacionam mais com a minha vida e menos com uma coleção.» (Ibid.)

A exposição da obra do artista, intitulada «Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas]», foi a segunda do ciclo «Conversas», um formato expositivo que pretendia dialogar com a Coleção do Fundador através de três exposições por ano, criando oportunidade para repensar a apresentação de núcleos dessa coleção e estabelecer pontes entre os espaços do Museu e a Galeria do Piso Inferior.

Partindo prioritariamente da justaposição do território de um artista contemporâneo com obras da Coleção do Fundador, que incluem exemplares desde a «Antiguidade até ao princípio do século XX», a iniciativa «Conversas», vinha potenciar o «cruzamento entre diferentes tempos históricos, geografias, culturas, disciplinas e coleções», e abrir espaço a releituras artísticas (Museu Calouste Gulbenkian. «O Colecionador»). Assim, depois da exposição inaugural «Manuela Marques e Versailles. A Face Escondida do Sol», que explorou a relação entre a arte contemporânea e as artes decorativas francesas do século XVIII, a mostra de Helmut Federle veio consolidar o estatuto deste ciclo, reforçando esta nova linha de programação e a sua capacidade de promover a articulação entre projetos expositivos de cariz temporário e a Coleção do Fundador, incidindo, para o efeito, sobre a cerâmica do núcleo de Arte Islâmica do Museu (Curtis, Relatório Final de Exposição Temporária, 13 out. 2017, Arquivos Gulbenkian, ID:422113]. Seguir-se-iam os projetos de Ana Hatherly (1929-2015), ainda em 2017, e de Praneet Soi (1971), já no ano seguinte.

Juntamente com a celebração do Noruz e do Eid al-Fitr, eventos marcados pela Fundação Calouste Gulbenkian a partir desse ano, expor a obra de Helmut Federle significava estabelecer mais uma ponte entre o Ocidente e o Oriente. Em meados de setembro de 2016, ocorreu uma reunião entre a então diretora do Museu Calouste Gulbenkian, Penelope Curtis, Deniz Pekerman, vice-diretor da Galerie nächst St. Stephan Rosemarie Schwarzwälder (a galeria representante de Helmut Federle em Viena) e o próprio artista. Dessa reunião resultaria uma parceria entre as duas instituições, com o fim de levar a cabo uma exposição da obra do artista suíço em Portugal que permitisse explorar não só a relação entre as suas pinturas e a cerâmica oriental – japonesa, marroquina e islâmica –, da qual se tornou um ávido colecionador, mas também «o sentido geral de abstração», que se verificava transversal a todas essas obras (Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas], 2017). A galeria vienense serviu de mediadora do projeto, facilitando o contacto entre Helmut Federle, os vários emprestadores e a Fundação Calouste Gulbenkian, e trabalhando para a realização do projeto expositivo pensado pelo artista.

A exposição apresentou um conjunto de 14 pinturas e cerca de 30 peças de cerâmica. As peças de cerâmica japonesa e marroquina, datadas do século XVII, pertenciam à coleção de Helmut Federle, as peças de cerâmica safávida, do século XIV, pertenciam à Coleção do Fundador. A seleção de obras resultou, num primeiro momento, de um projeto esboçado por Deniz Pekerman e pelo artista, e foi posteriormente trabalhada em estreita colaboração com Jorge Rodrigues, curador da exposição e, coincidentemente, curador das coleções de Arte Islâmica, Arménia e do Extremo Oriente da Fundação Calouste Gulbenkian.

Além da vontade de olhar de perto esse traço comum a todos estes artefactos – o da abstração –, a exposição abordou ainda um tema não antes explorado em relação a Federle: o da sua dupla condição de artista e colecionador. Um tema, aliás, que fazia todo o sentido trazer para um diálogo com a Coleção do Museu e o seu fundador, Calouste Sarkis Gulbenkian.

Um estudo dos títulos propostos para a exposição – «Helmut Federle e a Cerâmica», «Helmut Federle e a Cerâmica Islâmica Abstrata» e «Helmut Federle: the Artist, the Collector» – torna evidente o facto de que o tema artista-colecionador esteve presente desde o início, podendo sugerir-se que terá sido, juntamente com o elemento de pesquisa em torno da abstração, o pretexto que levou à eleição do artista como participante das «Conversas». Acresce ainda o facto de ser esta uma oportunidade de expor pela primeira vez em Portugal a obra de Helmut Federle, um artista suíço verdadeiramente «histórico» e «uma referência para muitas gerações de artistas europeus» (Curtis, Relatório Final de Exposição Temporária, 13 out. 2017, Arquivo Gulbenkian, ID: 422113.

A exposição ocupou a Galeria de Exposições Temporárias, localizada no piso inferior do Museu, em frente à Biblioteca de Arte, e a Galeria da Exposição Permanente da Coleção do Fundador, dedicada à arte islâmica.

Na Galeria de Exposições Temporárias, que marcava o início do percurso, foi exposta grande parte das obras do artista. À entrada, num texto de sala resumido a umas breves linhas, Federle confidenciava a importância das culturas magrebina, japonesa e americana para o seu exercício artístico. Em redor da sala, eram dispostas as pinturas de pequena escala em óleo e acrílico sobre tela e, ao centro, duas grandes vitrinas, em torno das quais se podia circular, para melhor se apreciar os vários exemplares de cerâmica pertencentes a ambas as coleções.

Num dado momento, taças marroquinas «que se elevam a partir de um estreito suporte anular, formando um gracioso volume aberto», ricas em padrões de arabescos e pétalas, dialogam com The Background Chronical VI (Asymmetrical Crossing B) (2014), um óleo sobre tela de 60 × 60 que marca um «xis» negro sobre o fundo branco (De Waal, Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas], 2017, p. 4). Noutro, obras menos contidas, como Die verregneten Kirschen (2009), ou Ferner F (2012), na qual se pode identificar o enso (??), o círculo que, no pensamento do budismo zen, simboliza a «expressão do momento», em que os sentidos e a mente estão livres para criar, comunicam com pequenas e porosas chawan da coleção de Federle, taças japonesas confecionadas segundo a técnica raku, dispostas sobre um quadrado de tecido que as acompanha durante a cerimónia do chá.

Relembrando as palavras do artista numa entrevista citada no caderno da exposição – «Faço parte de uma história, não sou uma afirmação do momento» –, Edmund de Waal declara que a cerâmica oferece o «calor, […] a repetição [e] um sentido de energia […] que vem e que vai», que se encontra na pintura de Helmut Federle (Ibid.).

À entrada do percurso que inicia a Coleção do Fundador, foi exposta a tela Sem título (1990) que, devido às grandes dimensões (280 × 420 cm), teve de ser montada numa estrutura especialmente concebida para a ocasião. A exposição prolongava-se depois pela Galeria de Arte Islâmica, ocupando três vitrinas e um pano de parede. Nas vitrinas, jarros iznik do século XVI, correspondentes ao período otomano na Turquia, dialogavam com obras da Pérsia do século XIII, ou de Marrocos, com pintura policroma e pertencentes à coleção do artista. Junto aos tapetes persas do século XVI, instalados ao comprido sobre o chão, obras permanentes nessa galeria, foi colocada Letter from a Region of my Mind II (1988), um óleo sobre tela de grandes dimensões.

Para identificar este conjunto de obras e distingui-lo da parte integrante da exposição permanente, o projeto museográfico usou painéis de MDF pintados a azul, nos locais exteriores às próprias salas de exposição, e tinta cinza-metálica, nos interiores. Desta sinalética, faziam parte as legendas e outras informações importantes, como pequenos textos introdutórios a assinalar os núcleos.

É de notar que, por questões logísticas relacionadas com a seleção original de obras, mais concretamente com a indisponibilidade de uma série de colecionadores austríacos em cederem as peças para empréstimo, o orçamento inicial acautelado para a exposição sofreu um agravamento. Para colmatar essa indisponibilidade, houve necessidade de recorrer a outras obras, o que veio a ditar exigências inesperadas no que diz respeito ao seu embalamento, transporte e movimentação interna (Curtis, Relatório Final de Exposição Temporária, 13 out. 2017, Arquivo Gulbenkian, ID: 422113).

Apesar do impacto e da boa receção junto da comunidade artística nacional, a exposição recebeu uma atenção moderada por parte dos meios de comunicação. Destacam-se duas reportagens televisivas na SIC Notícias (Edição da Manhã, 9 jun. 2017; Jornal das Duas, 8 jun. 2017). Além das referências online a partir do take da Lusa, como por exemplo no Guia da Cidade (16 set. 2017) e no Diário de Notícias online (8 jun. 2017), são de notar a menção especial na rubrica do jornal Público «Sugestão do Dia» (9 jun. 2017), e os destaques de agenda no Jornal de Negócios («Weekend») e na Elle (1 jul. 2017).

Na imprensa especializada, salienta-se o artigo de Julián Hernandez «El Museo Gulbenkian apuesta por una nueva lectura del arte» (Hernandez, Ars Magazine, 18 jul. 2017), bem como uma notícia sobre a exposição no Wall Street International, datada de 14 de julho de 2017.

Madalena Dornellas Galvão, 2022


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Desconhecido

Final do século XVI / Inv. 841

Desconhecido

c.1550 / Inv. 809

Desconhecido

Inv. 933

Desconhecido

Inv. 911

Desconhecido

Século XIV / Inv. 885

Desconhecido

Século XIV / Inv. 886

Desconhecido

Século XIV / Inv. 889

Desconhecido

Século XIV / Inv. 890

Desconhecido

Século XIV / Inv. 895

Desconhecido

Século XIV / Inv. 899

Desconhecido

Século XIV / Inv. 905

Desconhecido

Século XIV / Inv. 904

Desconhecido

Século XIV / Inv. 907

Desconhecido

Século XIV / Inv. 908

Desconhecido

Século XIV / Inv. 930

Desconhecido

Século XIV / Inv. 928

Desconhecido

Século XIV / Inv. 940

Desconhecido

Século XIV / Inv. 942

Desconhecido

Século XIV / Inv. 948

Desconhecido

Século XIV / Inv. 2199

Desconhecido

Século XIV / Inv. 918

Desconhecido

Século XIV / Inv. 949

Desconhecido

Século XIV / Inv. 900

Desconhecido

Século XIV / Inv. 882


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

À Conversa com a Curador e o Artista

9 jun 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Calouste Gulbenkian – Galerias da Exposição Permanente
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Helmut Federle. Matéria Abstrata [Pinturas e Cerâmicas]

24 jun 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Calouste Gulbenkian
Lisboa, Portugal
13 set 2017
Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Calouste Gulbenkian
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Helmut Federle (à dir.)
Rita Fabiana (à esq.) e Teresa Patrício Gouveia (ao centro)
Teresa Patrício Gouveia e Helmut Federle
Helmut Federle e Penelope Curtis (ao centro)
Helmut Federle, Isabel Mota (ao centro) e Teresa Patrício Gouveia (à dir.)

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, caderno de exposição e pressbook. 2017

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 04707

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém troca de emails de produção. 2016 – 2017

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 04822

Pasta com documentação referente à programação das atividades da FCG para os anos de 2017 a 2019. Contém correspondência interna e externa. 2016 – 2017

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 3401

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG, Lisboa) 2017

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 3155

Coleção fotográfica, cor: montagem (FCG, Lisboa) 2017

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 6213

Coleção fotográfica, cor: aspetos de sala (FCG, Lisboa) 2017


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