Vítor Pomar

Frequentou o curso de Pintura na Escola de Belas Artes do Porto (1966-67) e de Lisboa (1967-69). Teve a primeira exposição individual de gravura em Lisboa (1970), no mesmo ano em que decidiu emigrar para a Holanda, continuando os estudos na Academia de Roterdão e na Academia Livre em Haia, onde estabeleceu o seu primeiro atelier. Foi durante este período que Vítor Pomar consolidou um processo criativo muito próprio, combinando experimentalismo e espiritualidade na sua abordagem exploratória da pintura, e sobretudo no modo como esta se entrecruza com outras técnicas artísticas a que recorre sistematicamente, como a fotografia, o vídeo, o filme, o desenho ou a escultura. Vítor Pomar vive e trabalha em Assentiz, Rio Maior.

Nascido numa família de artistas, filho do pintor Júlio Pomar, o impulso criativo de Vítor Pomar manifestou-se cedo, a partir de «uma avalancha de desenhos abstractos, tramas e grelhas, que irromperam em mim quando tinha dezasseis anos.»* Perseguiu essa ambição ao estudar nas Escolas de Belas-Artes do Porto e de Lisboa, iniciando-se simultaneamente em pintura e fotografia a preto e branco, um binómio criativo comum aos artistas dessa geração. Ainda estudou gravura – objecto da sua primeira mostra individual** – e trabalhou como assistente de João Hogan, antes de emigrar para Amesterdão para escapar ao serviço militar (1970). O choque desta transição cultural definiu a sua formação artística, trocando a ditadura esgotada pelas liberdades criativas da Holanda, cujo ambiente alternativo de contracultura e de novas espiritualidades atraía artistas de todo o mundo, tornando-se então o principal centro europeu das pesquisas conceptuais e pós-minimalistas, e do ensino artístico experimental, como o da Psychopolis em Haia. Foi nesta academia livre que Vítor Pomar começou por estudar – e onde mais tarde ensinou serigrafia –, antes de se transferir para a Academia de Roterdão e de ter trabalhado em Amesterdão (1976-85), usufruindo de um programa estatal de apoio a artistas plásticos (BKR)***.

 

Comungando do entusiasmo holandês pelo cinema underground e pela media art dos anos 1970, Pomar começou nesta altura a realizar vídeos em diálogo com a fotografia e a pintura, dentro duma estética conceptual tributária de Stan Brakhage, Jonas Mekas ou Chris Marker. Os vídeos experimentais de Pomar, em formato de Super 8 ou 16 mm, eram como registos diarísticos da sua ocupação do estúdio, da cidade que o envolvia e da evolução dos seus trabalhos pictóricos, revelando a sua absoluta indistinção entre o viver e o fazer artístico. No entanto, para Pomar, a pintura foi sempre o centro das suas operações artísticas, a partir da qual estrutura conceptualmente muitas outras experiências criativas, da serialidade dos desenhos à fragmentação das fotografias. E com efeito, no ano seguinte ao seu vídeo de estreia, Crush Proof Box (1974), dá início a um ciclo de acrílicos a preto e branco sobre telas de grandes formatos (1975-83). O gestualismo destas pinturas trabalhadas no chão decorria da sua preocupação enfática com o processo criativo, informado tanto pela meditação budista como pelo Expressionismo Abstracto norte-americano, em particular no modo como procurava usar o improviso para tentar libertar a psique profunda e lutava por conceber cada tela como união entre o mundo material e o espiritual.

 

Apesar do estatuto de exilado e das temporadas passadas no México (1974) e em Nova Iorque (1982), a obra de Pomar foi ganhando visibilidade em Portugal, sobretudo com a importante mostra de pintura na Fundação Calouste Gulbenkian (1980), após ter participado na Alternativa Zero (1977) e em representações nacionais de jovens artistas (em Amesterdão, Paris, etc.). Ao fim de nove anos, abandona as telas bi-cromáticas e enceta um novo ciclo de acrílicos com cores estridentes e vigorosas manchas neo-informais de tinta (1983-85), embora sem abandonar o carácter iniciático da pintura que considerava ser parte da sua vida espiritual. O ciclo multicolor foi todavia abreviado por duas decisões dramáticas em 1985: o regresso a Portugal e a suspensão voluntária de toda a actividade artística. Durante este hiato que acabou por se prolongar uma década, para além de ter criado e gerido a Casa-Museu Álvaro de Campos (Tavira, 1987), Pomar entregou-se ao estudo de diversas práticas espirituais não-ocidentais, deslocando-se a encontros e retiros com mestres budistas ou lamas tibetanos na Índia – apesar de continuar a expor regularmente.

 

Quando Pomar decidiu retomar a criação artística (1995), recuperou de imediato um sem-número de materiais e linguagens, dos objectos-esculturas às suas fotografias de vocação documental, mas carregando-as duma forte elaboração filosófica sobre temas existenciais, embora alheios à gravidade visual dos trabalhos iniciais. Com o mesmo ponto de partida imediatista e multidisciplinar, e continuando a encontrar a sua unidade no conceptualismo, as suas obras vêm apresentando no entanto uma dimensão espiritualista mais vincada que, se anteriormente era trabalhada a um nível subterrâneo e não-discursivo, ganhou entretanto o valor de uma explicitação verbal, algo doutrinária. Tornou-se frequente nas suas obras de pintura, de desenho e mesmo de fotografia, a inscrição de frases que falam de omnipresença, dissolução, nirvana, dharma, experiência sensorial, ilusão humana, vacuidade da visão e da mente – um vocabulário esotérico que se tornou chave necessária para o seu trabalho corrente. O conjunto da obra pictórica de Vítor Pomar valeu-lhe o Prémio de Pintura EDP (2002) e, mais recentemente, a sua obra fílmica e videográfica foi reunida numa retrospectiva organizada pelo CAM (2011).

 

* Entrevista a Vítor Pomar por Hans Ulrich Obrist in Vitor Pomar. Nothing to do nowhere to go. Lisboa: CAM/FCG, 2011, p. 29.

 

** Galeria Quadrante, Lisboa, 1970.

 

*** BKR - Beeldende-Kunstenaarsregeling ou Esquema de Artes Visuais, programa do governo holandês que financiava artistas plásticos recebendo em retorno obras de arte.

 

AR

 

Junho de 2011

 

 

 

Atualização em 05 Julho 2018