René Bertholo

René Bertholo, filho do pintor Augusto Bértholo, inicia a sua formação artística oficial em 1947 na Escola de Artes Decorativas António Arroio. Terminado o ensino liceal em 1951, inscreve-se na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, que frequenta até 1957. É enquanto aluno da ESBAL que René Bertholo começa a expor em coletivas, participando na VII Exposição Geral de Artes Plásticas, em 1953, e no ano seguinte no I Salão de Arte Abstracta, organizado pela Galeria de Março.

Entre 1953 e 1955 edita a revista Ver, iniciativa de um conjunto de colegas da ESBAL. Em 1956 partilha um ateliê com José Escada, Gonçalo Duarte e João Vieira, por cima do Café Gelo, ao Rossio, onde se reunia o Grupo do Gelo, tertúlia informal onde Bertholo priva, entre outros, com Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Herberto Hélder ou Mário-Henrique Leiria. Ainda em 1956 expõe individualmente pela primeira vez, na Galeria Pórtico, espaço que dinamiza entre 1955 e 1957 com José Escada, Costa Pinheiro, Teresa de Sousa e Lourdes Castro, com quem casa em 1957.

 

Neste ano parte para Munique, onde reside durante sensivelmente um ano, expondo com Lourdes Castro, Costa Pinheiro e Gonçalo Duarte. Regressa temporariamente a Portugal, fixando residência em Paris a partir do final do inverno de 1958. Aqui, desenvolve um dispositivo de impressão serigráfica que permite a publicação da revista KWY, iniciada por Bertholo e Lourdes Castro. A revista vai dinamizar a ação do grupo KWY (acrónimo de Ká Wamos Yndo e referência às três letras que faltam ao alfabeto português), constituído pelos portugueses René Bertholo, Lourdes Castro, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, José Escada e João Vieira, pelo alemão Jan Voss e pelo búlgaro Christo. Com o grupo expõe entre 1960 e 1962 em Saarbrücken, Lisboa, Paris e Bolonha. É já em Paris que consegue uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe é concedida entre 1959 e 1960. Em 1963 expõe individualmente no estrangeiro pela primeira vez, em Paris, na Galerie Dragon. Durante a década de 1960 participa em diversas exposição coletivas que o vão ligar ao desenvolvimento da Nouvelle Figuration.

 

Todavia, logo a partir de 1966 começa a realizar os modelos reduzidos, pequenos objetos movidos eletronicamente. Desde meados de 1950 até praticamente abandonar a pintura em finais da década de 1960, a prática pictórica de Bertholo vinha evoluindo de um abstracionismo, que encontra como referências Kandinsky, Klee, Rothko e Pollock, para uma influência informalista por via de Dubuffet que vai cruzar com o trabalho dos affichistes. Em meados da década de 1960, a sua pintura poder-se-ia definir a partir de três eixos fundamentais: aproxima-se do sentido serial da Pop Art; reverbera a acumulação de objectos do Nouveau Réalisme; e alude à sequencialidade de movimentos do cinetismo de Tanguy. As experiências que desenvolve com os modelos reduzidos, que repescam a noção de acaso já presente na noção de automatismo exposta pela pintura que realiza ainda nos anos 1950, acabam por sintetizar todo um percurso que vem problematizando o caráter estático e inalterável do objeto artístico, conseguindo-o, sem redundar na sua amputação ou destruição. Na sequência desta atenção às possibilidades da eletrónica aplicada à arte, Bertholo é convidado a frequentar a Deutscher Akademischer Austauschdienst, em Berlim, onde se fixa durante um ano, entre 1972 e 1973.

 

A partir de inícios da década de 1970, René Bertholo vai retomando a pintura, quer pela intervenção em espaço público – destacando-se as pinturas murais que executa na rue Dussoubs, em Paris, em 1972, e no Hospital do Barreiro, em 1983 – quer pelas séries retratos de Mulheres Imaginárias e Quartos de Dormir que executa a partir de meados da mesma década. Entretanto, participa em projetos de intervenção no espaço urbano, com a execução de mosaicos e esculturas em cerâmica e betão armado colorido.

 

Em 1982, muda-se definitivamente para o Algarve onde, a par de uma pintura que aprofunda as noções de narratividade e de repetição, vai desenvolver a makina. Conhecendo diversas versões até aos anos 2000, a makina é um aparelho que consiste num sintetizador e sequenciador digital programável, capaz de gravar e reproduzir sons, que vem dar continuidade, embora noutro campo, ao trabalho já realizado com os modelos reduzidos. Em 2000, o Museu de Serralves, dedica-lhe uma grande retrospetiva e, no mesmo ano, integra a exposição Making Choices, no MoMA.

 

André Silveira

 

Maio de 2013

 

Atualização em 05 Julho 2018