Nikias Skapinakis

Autodidata nas artes visuais, filho de pai grego e mãe portuguesa nascido em Lisboa, Nikias Skapinakis passou pela Escola de Belas-Artes de Lisboa para estudar arquitetura, formação que não chega a concluir mas que lhe permite uma afirmação decisiva da sua vocação de artista plástico.

Estreia-se em 1948 na IIIª Exposição Geral de Artes Plásticas, ao lado de figuras como Júlio Pomar, Fernando Lanhas, Nuno de Sampayo, entre outros. Embora estivesse na origem destas Exposições Gerais uma intenção clara de rutura e independência perante a cultura oficial portuguesa ou o que sobrava da ação do SPN/SNI, terminada a 2ª Guerra Mundial, a obra de Nikias apresenta-se logo na sua matriz de independência, quer no tratamento das formas humanas ou das paisagens, quer na preferência logo afirmada pelo universo das formas coloridas a que sempre manterá a sua afeição. As suas primeiras obras são paisagens com casas devolvidas numa paleta contrastante, nas quais as formas são simplificadas a pequenos cubos e quadrículas (vestígios de uma atenção pós-cubista). A matriz cromática afirma-se desde logo como o cerne do interesse e da investigação do pintor sobre a imagem visual. Nos anos de 1950 uma liberdade crescente de interpretar a cor a partir dos efeitos da luz sobre as paisagens e as cenas com figuras, leva Nikias a afastar-se de modelos cubizantes anteriores e, ao contacto com a pintura do Renascimento, a privilegiar a linha curva no desenho e na circunscrição das formas, bem como um conceito cenográfico de pintura projetado como ecrã imaginário para lá da realidade observada ou registada de memória. Depuradas, filtradas pela imaginação cromática e por um raciocínio que procede por síntese, eis as imagens que Nikias Skapinakis privilegia.

 

A pintura é assim para o artista uma produção inscrita numa sensibilidade mediada pela razão. Significa isto que no conjunto da sua obra – pintura sobretudo, também colagem e desenho, ilustração por vezes – raramente a expressão deriva para o informalismo ou para uma manifestação espontânea (expressionista como na arte bruta ou na pintura de ação, por exemplo), mesmo quando em ciclos dos anos de 1960, 1980 e seguintes chegará a uma conceção «pseudo-abstracionista» da imagem que aliás ainda designa por referência a uma matriz figurativa como Parafiguração (1966-1976; 1979-1987). Assim, mesmo quando as imagens oferecem ao olhar signos ou arranjos aparentemente fortuitos de sinais e cores, a génese destes é antes de mais mediada por um trabalho compositivo forte que impõe as suas regras internas ao desabrochar das formas, mantendo-as ainda ligadas por fios mais ou menos visíveis à tradição da figuração. Outro aspeto que sobressai da arte de Nikias Skapinakis é a sua independência perante os grandes debates estéticos dos tempos que atravessou – por exemplo, afirmando em contraciclo a vitalidade da representação figurativa frente à emergência de uma moda abstracionista, evidente em meados finais dos anos de 1950 –, uma permanente atenção às fontes (literárias, históricas, gráficas e iconográficas) e ao estudo comparatista que efetua sobre determinados aspetos da história da arte ocidental e médio – ou extremo-oriental (nas séries Paisagens do Vale dos Reis, 1987–; e mais tarde, nos Quartos Imaginários, 2001-). Já nos anos de 1960, esse estudo convergira na definição iconográfica de uma burguesia citadina lisboeta, intelectual e efeminada que retratará em diversas ocasiões, num ciclo celebrado sob o título Para o Estudo da Melancolia em Portugal (1967-1974), como nos últimos anos voltaria a manifestar-se na série Tag (2002-), uma surpreendente visitação à arte das ruas e ao graffiti. Todas essas qualidades acabarão sempre mais ou menos por reverter-se na sua obra, consequentes a uma ampla meditação sobre o destino da imagem visual na cultura europeia e ocidental, mais ou menos alheia – mas não insensível – a modas, tirando do seu acontecer a sua própria lógica e continuidade. Nos anos mais recentes aliás, a ideia de um devir interno à própria fabricação de imagens ficaria bem plasmada na intenção de trabalhar sobre suportes cilíndricos, extensíveis e alongáveis como o papel de cenário, o vulgar papel de embrulho ou os rolos de papel higiénico – espacialização do tempo. A obra de Nikias Skapinakis tem sido várias vezes apresentada em exposições antológicas (Museu do Chiado, 1996; Museu de Serralves, 2000; Fundação Arpad Szenes, 2006…), a última das quais, em 2012, no Museu Coleção Berardo.

 

Ana Filipa Candeias

 

Maio de 2013