Mily Possoz

Irónica e aventureira, Mily Possoz estudou e expôs em vários países da Europa. A sua pintura de cores fortes e pincelada vigorosa contrasta com um desenho despojado e de linhas isoladas, que caracterizam também o seu trabalho de gravura. Entre o modernismo inspirado em Paul Cézanne (1839-1906) mas também nos mestres flamengos do século XV, o surrealismo com ecos de Marc Chagall (1887-1985), e as influências orientais tomadas do pintor e gravador japonês Tsugouharu Foujita (1886-1968), o mundo de Mily Possoz criou uma portugalidade adequada ao tempo, mas livre.

Desenhadora, pintora e gravadora (xilogravura, ponta-seca e litogravura), filha de cidadãos belgas radicados em Portugal, inicia estudos no Colégio Alemão e tem aulas particulares de pintura com Emília dos Santos Braga (1867-1950) e Enrique Casanova (1850-1913). Em Paris, a partir de 1905, estuda na Académie de La Grande Chaumière, com Emile-René Ménard (1861-1930) e Lucien Simon (1861-1945). Prossegue estudos na Bélgica, Alemanha – em Düsseldorf tem aulas particulares com o gravador Willy Spatz (1861-1931) – e Holanda.

 

Regressada a Portugal, em 1909, integra o movimento modernista. Na década de 20 retoma a experiência como ilustradora, colaborando com revistas como a ABC, a Contemporânea e a Athena, e com diversos escritores. Em 1922 muda-se de novo para Paris, aí permanecendo até ao final de 1937. Trabalha sobretudo em gravura, integrando a associação de gravadores Jeune Gravure Contemporaine, criada em Paris em 1929. Frequentadora assídua de museus e exposições, foi amiga do artista japonês Tsugouharu Foujita, gravador de referência para a sua geração que viveu em Paris de 1913 a 1931. A sua influência torna-se visível em algumas obras de Mily, que a conjuga com a inspiração compositiva e o gosto do detalhe da pintura flamenga quinhentista.

 

Regressa a Portugal em 1938. Trabalha activamente e participa em diversas exposições colectivas em França e na Bélgica. Mantém também actividade como ilustradora, mas abandona a gravura, recuperando o seu trabalho de Paris apenas após 1956, com a criação da Sociedade Cooperativa de Gravadores – Gravura. Dedica-se sobretudo ao desenho e à pintura a aguarela, para a qual existia mais mercado. Artista convidada para a Exposição do Mundo Português de 1940, colabora com a Companhia de bailados Verde-Gaio, criada por António Ferro (1895- 1956) nesta década, nomeadamente nos figurinos para o bailado D. Sebastião (1943). Tem também algumas raras incursões na tapeçaria.

 

 

EF

 

Maio de 2010