FCG Secção: Museu

Lourdes Castro

Lourdes Castro nasceu a 9 de Dezembro de 1930, no Funchal, ilha da Madeira. A paisagem natural da ilha que a rodeou desde pequena, e para a qual escolheu retornar desde 1983, é uma paixão que acompanhará a sua vida e por consequência também o seu trabalho, veja-se, por exemplo, a série O grande herbário de sombras (1972).

Lourdes Castro deu início aos seus estudos no Colégio Alemão, mas logo com 20 anos abandona a Madeira em direção a Lisboa onde irá frequentar na ESBAL o curso especial de pintura terminado em 1956. Iniciou o seu percurso com uma exposição colectiva ao lado de José Escada e Carvalho e Rêgo no Centro Nacional de Cultura, em Lisboa, em 1954. Casa com René Bertholo em 1957 e depois de uma estada em Munique, partem ambos para Paris no final do inverno de 1957/58 fixando aí residência. Ainda em 1958 foi-lhe atribuída uma bolsa da FCG, o que coincidiu e ajudou, em parte, o início de um projecto em comum – a publicação de uma revista, impressa à mão, em serigrafia, a que chamaram KWY. As três letras, que não existiam no alfabeto português, expressavam com ironia a necessidade de exploração artística fora desse ambiente cultural originário. Em torno da revista, que se materializou em 12 números, formara-se o grupo homónimo de artistas que incluía também Jan Voss, Christo Javacheff, Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, José Escada e João Vieira. O coletivo apresentou-se em quatro exposições, sendo a  primeira vez em Lisboa na SNBA (1960).

 

A obra de Lourdes Castro ficaria inicialmente associada à abstração, corrente a que todos os artistas desse grupo estariam ligados, nos primeiros anos em Paris. No dealbar da década de 60 o seu trabalho será já contextualizado pelo Nouveau Réalisme, produzindo colagens e assemblages de objectos obsoletos do quotidiano, pintados com tinta de alumínio. Descobre nessa mesma década, e a partir da serigrafia, um tema de eleição – a Sombra. Desde 1965 reúne todas as referências imagéticas e literárias sobre o tema, em dezenas de volumes a que denomina “Álbum de Família”. O seu processo de experimentação sobre o tema desenrolar-se-á em outros suportes não tradicionais, nomeadamente o plexiglas que utiliza desde 1964, ou lençóis de linho translúcido, onde bordará os contornos das suas sombras deitadas, desde 1968. Lourdes Castro experimentará também o poder performativo da sombra em movimento, no seu “Teatro de Sombras”, já ensaiado em 1966 (no espetáculo de Graziela Martinez, em Paris), continuando nos anos seguintes a desenvolver esses espectáculos em estreita colaboração com Manuel Zimbro que conhece em 1972. Essa parceria na vida e na arte, que duraria mais de três décadas, é evocada e celebrada na exposição de caráter antológico: Lourdes de Castro e Manuel Zimbro: a Luz da Sombra, realizada no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, em 2010.

 

Cria espetáculos como “As Cinco Estações” (1976) ou “Linha do Horizonte (1981) apresentados em várias cidades da Europa e da América Latina. Em 1984, o desenho estará presente numa série intitulada Sombras à volta de um centro, realizada em dois períodos, em Paris (1980) e na Madeira 1984/87 e apresentada na exposição de 2003 em Serralves. No início dos anos 90 produz também em tapeçaria e azulejo.

 

A Fundação Calouste Gulbenkian dedicara-lhe, em 1992, uma retrospetiva – Além da Sombra. É também de destacar a instalação que a artista realizou com Francisco Tropa, no âmbito da representação portuguesa na Bienal de São Paulo de 1998: intitulada Peça. Em 2004 Lourdes Castro foi reconhecida com o Prémio CELPA / Vieira da Silva – Artes Plásticas Consagração. Com Francisco Castro Rodrigues foi distinguida na edição de 2010 dos prémios da Secção Portuguesa (SP) da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA).

 

 

 

Catarina Crua

Junho 2013