João Queiroz

Começou a expor pintura e desenho na primeira metade dos anos 80, enquanto estudava Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa. Ambos os interesses convergiram na sua obra, levando a cabo uma informada reflexão sobre o papel da imagem na contemporaneidade, em abordagens experimentais a problemas antigos da linguagem da arte, tanto ao explorar o potencial das palavras escritas em composições, como, a partir de 1998, ao procurar dar a ver representações sensoriais e não-descritivas da natureza. Foi docente de Desenho, Pintura e Teoria de Arte no Ar.Co (1989-2001). Vive e trabalha em Lisboa.

A pesquisa visual de João Queiroz não pode ser dissociada de um precoce interesse filosófico pelo pensamento estético e pela forma como a linguagem opera ao nível artístico e intelectual, algo que o interessou sobremaneira durante o curso superior de Filosofia na Universidade de Lisboa (1984). O seu percurso inicial foi no entanto bastante errático, revelando um longo processo de auto-descoberta que se prolongou até meados dos anos 90, com grande disparidade de motivos formais que variavam entre a investigação do diálogo entre a superfície e as formas nela esboçadas – fossem figuras humanas, silhuetas, elementos naturais ou objectos dinâmicos – e o recurso à escrita para explorar os modos de construção da imagem e para provocar reacções no observador ao nível da percepção – colocando frases em português ou inglês para criar uma tensão entre palavra e imagem, ou então, criando uma contradição óbvia entre aquilo que escrevia e aquilo que representava.

 

Comum a todas estas obras, é a vontade de explorar todo o tipo de possibilidades da linguagem artística – e não por distanciamento conceptual, mas pelo uso omnipresente e quotidiano do desenho, como exercício que ajuda a clarificar o seu próprio trabalho visual. Queiroz considera centrais na sua formação as tardes que passou no Museu do Prado a copiar obras clássicas, mas também outras práticas experimentais que lhe permitiam sentir a distância entre o “olho” e a “mão”, quando esquissava imagens da televisão com duas mãos em simultâneo, ou quando ia para o campo desenhar com um capacete na cabeça para limitar o campo de visão. Acredita na arte como algo que pode ir além das capacidades da linguagem, criando “novas sensibilidades” que ultrapassam a ideia de categorias ou a redução dos objectos a nomes – foi por isso que depois de uma residência artística na paisagem inóspita do Feital, na Beira Alta, em 1997, escolhe trabalhar um dos géneros artísticos mais saturados de códigos e convenções na história da arte ocidental: o problema da paisagem e sua representação. Queiroz libertou-se da carga mais conceptual dos seus exercícios, abandonando por completo o mundo das palavras para se dedicar exclusivamente ao mundo dos fenómenos visuais.

 

A nova direcção da sua obra exigia um método de trabalho peculiar, com três práticas distintas: antes de mais, o desenho feito directamente na natureza, como registo experimental daquilo que o corpo sentia na sua deambulação; a pintura a aguarela que, na sua própria aquosidade, afastava logo a presença do motivo inicial; e por fim, aproveitando as duas formas anteriores de pensar a imagem, a pintura a óleo que cria no atelier, com um desprendimento ainda maior em relação aos referentes. Queiroz não procura uma simulação da natureza vista, mas antes a sinestesia da sua experiência vivida, recriando certos movimentos a partir das anotações desenhadas e da memória física.

 

Porque nunca se afasta completamente do meio natural, João Queiroz leva a representação anti-naturalista à fronteira da abstracção, mas sem a transpor. Quase sempre, nas suas imagens da última década, surgem elementos que são de imediato reconhecíveis, como riachos, árvores ou caminhos, apesar dos arabescos, torvelinhos e manchas indistintas que dominam as composições, evitando qualquer tipo de exegese ou tradução verbal que as tornariam num mero sistema de códigos. Na verdade, o seu acto criativo depende fortemente do movimento do corpo e da aplicação intuitiva da cor, imprimindo tal ritmo e intensidade às suas experiências visuais nostálgicas e melancólicas, que as suas paisagens parecem incensar um neo-romantismo.

 

 

Afonso Ramos

Fevereiro de 2011