Ana Hatherly

Ana Hatherly inicia em meados da década de 60 um percurso singular pela interioridade da escrita para concluir que esta «nunca foi senão representação: imagem». A artista empreende uma arqueologia da língua que a levará às origens dos signos e à herança da caligrafia oriental arcaica, que copia, disciplinadamente, até a mão se tornar «inteligente». O instrumento já não é a caneta, a mão, mas todo o corpo que se move e se inscreve na indizibilidade da escrita-imagem.

Nascida no Porto em 1929, Ana Hatherly cedo se interessa pela estética barroca, aplicando-se ao canto lírico. É, no entanto, na poesia que inicia um percurso multifacetado voltado para a «conceptualização do processo criador» e para a interioridade da escrita.

 

Licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e doutorada em Literaturas Hispânicas pela Universidade da Califórnia, em Berkley, a sua ligação às letras levam-na a traçar um horizonte onde confluem imagem, som e ritmo, estimulando a «escuta da matéria». Um ano depois da sua primeira incursão pela poesia publica, no Diário de Notícias de 17 de Setembro de 1959, o primeiro poema concreto em Portugal, poeta arca seta. Durante os anos 60 persegue os valores plásticos da escrita em «poemas-visuais» e «poemas-figurativos», afastando-se do concretismo e descobrindo as raízes remotas da visualidade da língua. Num percurso que vai da vanguarda – no poema Un Coup de Dès (1897) de Stéphane Mallarmé (1842-1898) ou nos caligramas de Guillaume Apollinaire (1880-1918) – até às experiências caligráficas orientais e aos labirintos anagramáticos do barroco, Ana Hatherly assinala os rastos da evolução e reinvenção da escrita. Ernesto Melo e Castro chamou-lhe «barroco intuitivo», mas o programa iniciado nos Mapas da imaginação e da memória (1973) evidencia a cientificidade das suas pesquisas, que culminam na edição de vários ensaios sobre a arte dos séculos XVII e XVIII.

 

Ao mesmo tempo, começa uma longa série de poemas em prosa, ardilosas construções narrativas que mesclam diferentes estruturas discursivas, como a fábula ou a alegoria, e a que dá o nome de Tisanas. Estes textos curtos e desconcertantes são marcados por uma alquimia da escrita que põe à prova todas as certezas, assemelhando-se aos enigmas veiculados pelo Budismo Zen, mais conhecidos por koans.

 

A situação política em Portugal e o desgaste da censura – porque «a poesia exige liberdade» – incitam-na a partir para Londres, em 1971, onde irá frequentar nos anos seguintes o curso técnico de cinema na London Film School. Com o advento do 25 de Abril, regressa e fixa-se definitivamente em Lisboa. Celebra a revolução em intervenções políticas, com a captação cinematográfica da euforia popular. O entusiasmo pela liberdade traduz-se no empunhar da mão que ganha uma dupla dimensão: na cidade, ela antecede o acto enquanto sinal de ordem; na escrita, é já o início da acção.

 

O seu espírito livre, vincado por um forte empenhamento cívico e político, leva-a a nunca se fechar em correntes artísticas e intelectuais, integrando porém o Grupo Experimentalista Português e participando em numerosas exposições, com destaque para Alternativa Zero, em 1977, que marca o despertar do país para a vanguarda artística. Ao ingressar na carreira académica, em 1981, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Ana Hatherly vai deter-se na pesquisa sobre os processos da escrita e sua decifração, a variabilidade do jogo na construção do sagrado, e os mistérios da visibilidade.

 

Depois da grande exposição da sua obra visual produzida no período entre 1960 e 1990, no CAM, em 1992, Ana Hatherly expôs em pequenas mostras individuais onde apresentou pinturas evocativas da sua viagem à India, séries inéditas de trabalhos feitos em Londres, neo-graffitis, ou ainda pinturas onde a inquirição da reciprocidade entre a escrita e a visualidade dão lugar a uma pintura despojada, onde o pincel toca ao de leve a tela deixando as suas marcas tacteantes.

 

 

Joana Batel

Maio de 2010