Jorge Martins. Pintura, 1958 – 1993

Exposição individual retrospetiva de Jorge Martins (1940), organizada pelo Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão e comissariada por José Sommer Ribeiro. Bem recebida pelo público e pela crítica, a exposição apresentou 35 anos de produção pictórica heterógena, num percurso museográfico que acompanhou todas as fases do trabalho de Jorge Martins.
Solo retrospective exhibition on Jorge Martins (1940) organised by the José de Azeredo Perdigão Modern Art Centre and curated by José Sommer Ribeiro. Well-received by the public and critics alike, the show presented a variety of Martins’s pictorial works, produced over a 35-year period, in a museographic journey that passed through all the phases of the artist’s work.

Exposição retrospetiva da pintura de Jorge Martins (1940), compreendida entre 1958 e 1993, organizada pelo Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP) e inaugurada a 26 de novembro de 1993 na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian (piso 0).

A exposição foi comissariada por José Sommer Ribeiro, diretor do CAMJAP, e coordenada por Maria José Moniz Pereira. O artista foi o responsável pela seleção de obras, em colaboração com Maria José Moniz Pereira, e pela montagem da exposição, com o apoio da equipa de montagem do CAMJAP, chefiada por Manuel Piçarra.

Enquanto responsável tanto pela seleção das obras como pelo discurso museográfico, o pintor propôs uma leitura do seu trabalho, começando no final dos anos 50 e acabando nos anos 90, e apresentou uma exposição que funcionou como um autorretrato e uma «demonstração […] da consciência que o pintor tem do seu trabalho» (Porfírio, Expresso, 4 dez. 1993, p. 62-R).

Parafraseando José Sommer Ribeiro, esta exposição inseriu-se no programa de exposições retrospetivas e antológicas dos artistas portugueses com maior distinção do século XX, organizado pelo CAMJAP desde 1983, ano da sua inauguração. Ainda nas palavras do diretor do CAMJAP: «Desde há muito que se impunha a apresentação da obra de Jorge Martins, mas um dos factores que mais contribuiu para o seu adiamento foi a dispersão dos seus trabalhos, devida essencialmente à sua longa permanência no estrangeiro, o que sem dúvida dificultou a selecção de trinta e cinco anos de intensa actividade.» (Jorge Martins. Pintura, 1958-1993, 1993, p. 7)

Em 1988, fora apresentada no CAM a exposição retrospetiva «Jorge Martins. Desenhos, 1957-1987», que, comissariada pelo artista, por José Sommer Ribeiro e por Manuel Castro Caldas, reunira 286 desenhos, selecionados de entre mais de três mil obras, apresentando a evolução do trabalho de Jorge Martins ao longo de trinta anos. Foi a partir desta iniciativa que surgiu o convite para realizar, nas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, uma grande exposição de pintura, para a qual viriam trabalhos da Suécia, dos Estados Unidos da América e de França.

Através desta exposição, o público teve a possibilidade de ver reunida grande parte da obra do artista, caracterizada por um conjunto de fases que se sucedem sem continuidade estilística ou formal imediata, cada uma delas demarcada por um modo diferente de pintar, com formas, cores e ritmos diferentes. Segundo José Gil, apesar de existirem contaminações entre as diferentes fases, com o surgimento, em determinada fase, de elementos que caracterizam a fase seguinte, é possível delimitar cronologicamente cada uma delas. Assim, encontramos, entre 1958 e 1965, um período de paisagens abstratas; entre 1965 e 1974, uma pintura recheada de caixas, compartimentos, volumes, objetos voadores e encenações do quotidiano; entre 1974 e 1977, um trabalho caracterizado por uma análise da luz como objeto; entre 1978 e 1984, bandas de cor sobre tela crua, composições arquitetónicas e labirintos; e, entre 1984 e 1993, o regresso da cor à tela e o surgimento de formas geométricas côncavas e convexas em relevo sobre superfícies lisas.

Neste sentido, e ao contrário do que é comum, esta retrospetiva não pretendeu apresentar uma linha evolutiva do trabalho de Jorge Martins. Apesar de se organizar cronologicamente, visou antes alguns dos temas e denominadores comuns do conjunto pictórico da sua obra. A estes temas, fases ou pequenos conjuntos de obras com características semelhantes, dá Isabel Carlos o nome de «mónadas», ajudando a explicar a razão pela qual não se poderá aplicar a esta exposição retrospetiva uma teoria evolutiva que permita perceber «um caminho progressivo do figurativo para o abstracto, ou da tridimensionalidade para a superfície, da temática "x" para a temática "y". Deste ponto de vista a obra de Jorge Martins é ela mesma, enquanto todo, imbuída do grande paradigma da nossa contemporaneidade: o de que não existem paradigmas, absolutos e intemporais. No seu nomadismo e monadismo, na sua fragmentação de referências, estamos perante uma obra que nos confronta com a ausência de um sistema válido para todo o sempre» (Ibid., p. 21).

À visão de Isabel Carlos opõe-se, no entanto, a de João Rocha de Sousa, que, entendendo que a exposição «é clara quanto à evolução do autor», afirma que, «apesar de pequenos desvios em que a luz ou a estrutura do plano se isolam um pouco, o eixo deste percurso através da pintura tem continuidade substancial e mostra um amadurecimento técnico cada vez maior desde o início da década de setenta» (Sousa, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 24 dez. 1993, p. 24).

Na passagem das várias fases formais do trabalho de Jorge Martins, há, contudo, um elemento ou preocupação que se mantém constante nas pesquisas realizadas pelo artista: o tratamento da luz. Tal como lembra Manuel Villaverde Cabral: «A ninguém escapam os efeitos do invulgar labor do pintor sobre e com a luz, do mesmo modo que ninguém escapa ao seu fascínio. Não é certamente por acaso que […] o poeta Eugénio de Andrade terá glosado o tema por sete vezes: "luz, ácida, amassada, de rastos, à deriva, doente, trôpega a desmaiar no escuro"… E que Maria Filomena Molder terá escrito quase de entrada, na sua monografia de 1984, que "Jorge Martins coleciona raios de luz".» (Ibid., p. 18)

O tratamento da luz é muitas vezes inserido numa cena teatral, surgindo dramaticamente através de uma porta que se entreabre, de uma janela que introduz outra dimensão, de uma lanterna que revela algo ou sugere dobras e rasgões. Esta fase melancólica e misteriosa, em que o preto-e-branco predominam, deu depois lugar à exploração da cor e à criação de um vocabulário pessoal, constituído por figuras que se assemelham a recortes de papel com formas geométricas, convexas e côncavas, de hélices, volutas, espirais, trapézios, triângulos e paralelepípedos.

Segundo José Sommer Ribeiro, na carta de agradecimento que dirigiu aos emprestadores, a receção da exposição pelo público e pela crítica foi muito positiva. De facto, críticos como Rocha de Sousa consideraram a exposição «um bom exemplo de qualidade, sentido de pesquisa e coerência, a par da noção de época que tais artistas tinham em face dos novos problemas» (Sousa, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, 14 dez. 1993, p. 249).

A museografia da exposição foi um dos aspetos mais elogiados pela imprensa, nomeadamente por Luísa Soares de Oliveira, que considera ter havido uma «montagem surpreendente», pois «conseguiu-se estabelecer um percurso cronológico que se segue sem que a isso nos sintamos obrigados» (Oliveira, Público, 10 dez. 1993).

O elogio foi partilhado por João Pinharanda: «Organizada em sete núcleos distintos mas encadeados, a retrospetiva de Jorge Martins sugere uma das mais interessantes montagens realizadas na sala principal da Gulbenkian.» (Pinharanda, Público, 26 nov. 1993, p. 16)

Na sequência da exposição, os colecionadores Herbert e Virginia Lust, responsáveis pela Virginia Lust Gallery, em Nova Iorque, ofereceram à Fundação Calouste Gulbenkian a pintura de Jorge Martins intitulada Precious Stones (Inv. 94P338).

Carolina Gouveia Matias, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Instalação

Jorge Martins (1940-)

Instalação, 1993 / Inv. 94P339

Look Look

Jorge Martins (1940-)

Look Look, 1976 / Inv. 03DP1845

Precious Stones

Jorge Martins (1940-)

Precious Stones, 1965 / Inv. 94P338

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1983 / Inv. 84P517

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1961 / Inv. 62P255

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1984 / Inv. 84P519

Instalação

Jorge Martins (1940-)

Instalação, 1993 / Inv. 94P339

Look Look

Jorge Martins (1940-)

Look Look, 1976 / Inv. 03DP1845

Precious Stones

Jorge Martins (1940-)

Precious Stones, 1965 / Inv. 94P338

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1983 / Inv. 84P517

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1961 / Inv. 62P255

S/Título

Jorge Martins (1940-)

S/Título, 1984 / Inv. 84P519


Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00305

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém convite, lista de obras, seguros, correspondência externa e interna, recortes de imprensa e material para o catálogo. 1993 – 1994

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00306

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência externa, formulários de empréstimo de obras. 1993 – 1994

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 116103

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 1993 – 1994


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