Animalia e Natureza na Coleção do CAM
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Data
- Encerra Segunda
Local
Centro de Arte Moderna Rua Dr. Nicolau de Bettencourt, LisboaContemplar a natureza, envolver-se no seu mistério, entre bichos, caminhos e elementos naturais é o que o CAM – Centro de Arte Moderna Gulbenkian propõe nesta mostra que tem um enfoque temporal a partir da década de 60 do século passado até à atualidade.
A exposição foi concebida a partir do universo iconográfico dos animais e dos quatro elementos naturais, terra, água, fogo e ar presentes na obra de António Dacosta (Angra do Heroísmo, 1914 – Paris, 1990); e que encontra também na natureza uma forte ligação à memória e aos monstros que a ocupam, tal como se poderá ver simultaneamente na retrospetiva do pintor.
A exposição inicia-se no hall, com a obra Amazônia (1992), de Julião Sarmento (Lisboa, 1948), uma escultura em madeira com a forma de uma casa rudimentar, sem janelas nem teto, e com uma porta fechada que induz a que se espreite por entre as ranhuras das tábuas toscas.
A sexualidade e o corpo feminino são centrais na obra de Sarmento. A questão do exótico, e claramente ligado à animalidade, encontra-se na obra de 1982, África – I – II – Saca Rabos (Bicho Empalhado), de Leonel Moura (Lisboa, 1948), em que um “sacarrabos” empalhado é colocado sobre o canto inferior direito de uma tela, como se a fosse percorrer, e uma outra tela, mais pequena, junto a esta, representa uma máscara africana com evocações picassianas.
Podemos ainda recuar mais na história da arte e no tempo e encontrar o romantismo nas florestas densas e misteriosas de Rui Vasconcelos (Lisboa, 1967), por exemplo, nos cavalos oitocentistas de George Stubbs, referência maior da história da arte internacional nas fotografias de Miguel Branco (Castelo Branco, 1963), que faz um trabalho de desconstrução sucessiva no próprio modus faciendi; estes cavalos de Branco resultam de várias formas.
A partir não da história da arte mas da história de um mito, o do monstro do Lago de Loch Ness, as fotografias e o filme de Gerard Byrne (Dublin, 1969) instalam uma estranheza e um mistério a partir não do que se vê mas do que é sugerido. Também monstros ou metamorfoses do corpo humano estão presentes no universo de Paula Rego (Lisboa, 1935) em The Vivian Girls as Windmills e nos dez painéis que compõem Proles Wall (ambas as obras de 1984).
Os quatro elementos naturais, nesta relação com António Dacosta, surgem como uma evidência: veja-se em torno do fogo as fotografias de Gabriela Albergaria (Vale de Cambra, 1965), imagens da série To Turn Around inspiradas no vaguear da artista pelas florestas nos arredores da cidade de Berlim, ou a escultura de Carlos Nogueira (Moçambique, 1947), Entre duas águas (1992), e o curto filme de dois minutos de António Palolo (1946-2000) datado de 1976.
O fascínio dos homens e, consequentemente, da arte pela natureza acontece desde sempre, desde os animais gravados nas grutas de Lascaux, passando pelo bestiário medieval, até ao coelho de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol que Dacosta fez seu, mas também Graça Morais (Vieiro, Trás-os-Montes, 1948) em A Magia na Caça (1978). Júlio Pomar (Lisboa, 1926) relaciona a representação animal comum com um retrato de Dacosta em Briança – Festa do Espírito Santo (com retrato de Dacosta), 1991-1992. Veja-se a representação do mar, tão distinta, em Fernando Calhau (Lisboa, 1948 – 2002), Thomas Joshua Cooper (San Francisco, Califórnia, 1946) e John Beard (País de Gales, 1943), apesar dos três usarem suportes que é suposto reproduzirem a realidade: a serigrafia, o filme e a fotografia. Ou a representação da própria natureza na obra de Hamish Fulton (Londres, 1946), Eyes Flames herbs Chang heart hands feet (1985), odisseia de um nómada como refere Michael Auping , com um espírito de sentido de lugar.
Ficha técnica
Curadoria
Isabel Carlos
Patrícia Rosas
Produção
Rita Lopes Ferreira
Projeto museográfico e coordenação técnica
Cristina Sena da Fonseca