António Dacosta

Angra do Heroísmo, Terceira, Açores, 3 de novembro de 1914 – 1990

António Dacosta nasceu na ilha Terceira nos Açores, vinha de uma família de artífices habituada ao trabalho e ao engenho da mão com um pai marceneiro e professor de marcenaria na escola Comercial e Industrial de Angra e um avô entalhador que trabalhava nas múltiplas igrejas da Ilha. Ainda adolescente começa a pintar a óleo paisagens da sua terra assinalando uma vocação artística que o leva a abandonar as Ilhas, em 1935, instalando-se em Lisboa onde frequenta a Escola de Belas-Artes, mantendo a matrícula até 1941 mas sem nunca acabar o curso.
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Um rosto numa pintura de 1936/37, O Passarinheiro é um dos mais antigos sinais de uma inquietação criadora que se vai acentuar com o correr dos anos e dos encontros, com especial relevo para a amizade e cumplicidade que, a partir de 1938, vai forjar com António Pedro (1909-1966) parceiro mais velho de aventura modernista e surrealista; aliás a exposição que ambos fazem, conjuntamente com a escultora Pamela Boden (1905-1981), em 1940, na Casa Repe, é considerada a primeira exposição surrealista em Portugal em contraste absoluto com a Exposição do Mundo Português e as comemorações centenárias oficiais desse mesmo ano. A incerteza trazida pelas guerras que cercam o seu país, a Guerra Civil de Espanha primeiro, e a 2ª Guerra Mundial logo a seguir, tem fortíssima tradução na pintura, no desenho e na ilustração de António Dacosta no início dos anos de 1940, num surrealismo que é um teatro da inquietação, uma “Antítese da Calma” portuguesa onde a consciência e o inconsciente trabalham de mãos dadas. É também na primeira metade de 1940 que Dacosta inicia uma outra faceta do seu trabalho: a crítica de arte e a crónica que vão perdurar até 1980.

Paris é o seu destino em 1947 graças a uma bolsa do Governo Francês; António Dacosta vai permanecer nessa cidade até ao fim da sua vida gozando “a exaltante capacidade de admirar” que a distingue. Paris requer ser vivida, mesmo que para tal a pintura esmoreça por décadas; foi o que aconteceu, não só porque viver a vida se impôs, como pela consciência aguda de uma crise das artes que o leva a perguntar, já em 1948, “será que se interrompeu o ritmo criador?”

Ao abandono progressivo da pintura que marca o final dos anos de 1940, e dura cerca de 25 anos, não corresponde uma quebra de interesse pelas artes, mais pelo gosto de ver intensamente o que o cerca, do que pela obrigação de escrever as crónicas que vai enviando para o “Estado de S. Paulo”. A pintura e o desenho continuaram como prática residual na relação com amigos e parentes; mas para a crítica e para a história em Portugal, Dacosta permaneceu como uma figura de ausência «perdido talvez para a pintura» (J.-A. França, 1965).

Tal ausência só veio dar maior relevo ao seu público aparecimento com a exposição de 1983 (Galeria 111, Lisboa); o seu regresso, paulatino, privado e intímo à pintura, começara mais cedo, nos anos de 1970, ajudado provavelmente “por aquilo que os meninos sabem e os adultos precisam aprender”, com presença de Carlos e Lisa, nascidos em 1969 e 1972, os filhos que tivera de Miriam Rewald com quem casara em 1967.

Dacosta reaparece com uma pintura nova de um olhar cristalino sobre as mais simples coisas, organizada ora em séries temáticas, ora em singularidades exaltadas, e vai afirma-se durante uma década que foi também de consagração crítica (Prémio Nacional das Artes AICA, 1984; retrospetiva na Fundação Calouste Gulbenkian, em 1988), de encomendas públicas (Parlamento Regional do Açores, 1988; Metro de Lisboa, 1989), e consagração oficial (Grã-Cruz da Ordem de Mérito, 1990). Nessa década, a última da sua vida, é intensa a sua produção artística e literária também (A Cal dos Muros, poesia publicada na Assírio & Alvim, 1994), numa obra que não pára e não deixa de evoluir para uma renovada gravidade que o sentimento do tempo que passa e do efémero da vida e da arte vão progressivamente marcando, numa evolução onde uma serena inquietação final se vem encontrar com a inquietação inaugural do jovem surrealista dos anos de 1940.

O CAM está a preparar para 2014 e exposição do centenário bem como a edição do Catalogue Raisonné da sua obra.

 

José Luís Porfírio

Maio de 2013

 

Atualização em 01 julho 2022

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