Celebrando a Vida

Reabertura do Museu Calouste Gulbenkian e da exposição «René Lalique e a Idade do Vidro»
Aspeto do Museu com «Diana» de Jean-Antoine Houdon. Fotografia: Ricardo Oliveira Alves

Como um bálsamo, ao termo de uma penosa caminhada ­— assim se afigura este novo despertar do Museu Calouste Gulbenkian, após quase três meses de duro encerramento ao público, imposto pelas restrições sanitárias com que todos, Fundação e País, buscámos controlar a Pandemia que, sobre todos, dramaticamente se abateu.

Agora, porém (cientes da necessidade de manter ativas todas as cautelas), encetamos um caminho que, todos esperamos, possa devolver, nos limites possíveis, a vida abruptamente interrompida. Que tal ocorra em coincidência com o ciclo vital da primavera — onde o paulatino despertar das energias se mescla ainda da recordação do longo inverno de que emerge —, parece um signo a um tempo simbólico e auspicioso.

E que a reabertura do Museu, com a renovada oferta da sua refinada coleção, chegue ainda a tempo de colher, em rápida fruição, um dos grandes projetos que ultimamente realizou: a importante exposição René Lalique e a Idade do Vidro, que se tornou possível disponibilizar numa última semana, não podendo ser mais oportuna – com o brinde suplementar da efeméride natalícia do genial artista, de que a Coleção Calouste Gulbenkian reconhecidamente representa um dos mais extensos e qualificados acervos.

Entre Art Nouveau e Art Déco, a sua obra ilustra, toda ela, um eloquente hino à vida, onde a energia criativa se apoia, porém, no rigor do conhecimento técnico e científico, que lhe permitiria rasgar, em segurança, novos caminhos criativos, numa insólita fusão de matérias e materiais que haveria de marcar o futuro da própria criação artística. Volvido um século, fornece-nos, assim, uma lição eloquente sobre a importância da prudência em cada passo dado: virtude que (sem contradição) deverá iluminar e proteger a justa celebração da vida.

 

 

António Filipe Pimentel
Diretor do Museu Calouste Gulbenkian