Xilografias de Maria Bonomi

Exposição individual da artista italiana, nacionalizada brasileira, Maria Bonomi (1935), que apresentou xilografias e um vídeo, pertencentes a um conjunto que se distingue por combinar a tradição e a contemporaneidade. Esta foi a última exposição organizada por José Sommer Ribeiro enquanto diretor do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão.
Solo exhibition by Italian-born Brazilian artist Maria Bonomi (1935) featuring woodcuts and a video, belonging to a series notable for its blend of tradition and contemporaneity. The exhibition was the last to be organised by José Sommer Ribeiro in his position as director of the José de Azeredo Perdigão Modern Art Centre.

Exposição individual de Maria Bonomi (1935), artista italiana nacionalizada brasileira, patente na Galeria do piso 1 do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (CAMJAP), entre 9 de junho e 17 de julho de 1994.

O conceito para a exposição surgiu com a visita de José Sommer Ribeiro ao Brasil, em 1973, por ocasião da Bienal de São Paulo, altura em que o diretor do CAMJAP tomou conhecimento do trabalho de Maria Bonomi, por intermédio de Oscar Landmann, presidente da Bienal, e de José Mindlin, empresário e bibliófilo.

A exposição apresentou um conjunto de 14 xilografias, datadas de 1988 a 1994, incluindo algumas peças da obra mais recente de Maria Bonomi, que, nas palavras de Sommer Ribeiro, permitiram dar «uma nova dimensão à arte da gravura» (Xilografias de Maria Bonomi, 1994).

Além deste conjunto, foi ainda mostrado um trabalho de vídeo, constituído por uma projeção dupla em que se podiam ver os trabalhos escultóricos e murais criados pela artista paralelamente a um pente a ser passado por cabelos femininos. Os sulcos criados por esta ação estabeleciam uma ponte visual entre o gesto privado de pentear e o lado público dos murais. Nas palavras de João Pinharanda, estes vídeos «revelam a dimensão orgânica do trabalho e dos materiais, e acentuam a ideia de sulco como ideia-forma de toda a investigação» (Pinharanda, Público, 17 jun. 1994, p. 18).

Tal como explica Jacob Klintowitz, crítico de arte, escritor e jornalista, a importância do papel da artista na valorização da xilogravura e na sua divulgação no Brasil contemporâneo passa pela conjugação da tradição com a sua transgressão, algo que caracteriza o trabalho de Maria Bonomi, que alia técnicas antigas a novas pesquisas e a tentativas de estender o método convencional de impressão a outras funções e práticas sociais. Assim, apesar de permanecer xilógrafa, dedicando-se à madeira, a artista inclui outros materiais no seu trabalho, como o betão, sobre o qual cria murais em espaços públicos como igrejas, clubes e hotéis. Neste sentido, trata-se de xilografia e não de xilogravura, já que a artista adapta a linguagem da xilogravura, aplicando-a a outros materiais e contextos e imprimindo manualmente, sem recorrer à prensa.

Além de trazer a técnica da gravura para novos campos de experimentalismo, ao introduzir materiais como o betão, o trabalho de Bonomi reflete sobre questões que são caras à arte contemporânea, como a do papel do público em relação à obra de arte: «Ela transformou a gravura de imagem de leitura em imagem de parede, capaz de envolver o público no impacto da linguagem visual absoluta. O que modificou fundamentalmente a relação do público com a gravura e a do artista com o ato de gravar.» (Xilografias de Maria Bonomi, 1994)

Esta modificação é possível graças à transposição do conceito de «sulco» de uma dimensão quase íntima e de contemplação individual, a do livro, para o espaço público, apelando à sua admiração coletiva e conferindo à gravura um valor político e social, reforçado pela representação de temas como o Muro de Berlim e a Guerra Fria.

Ao trabalhar num registo de grandes dimensões, e sem descurar a qualidade exigida aos pequenos formatos, Bonomi atribui aos motivos representados uma maior expressão e impacto estético, algo que é visível em Ilha (1988), representação da imensidão do território polinésio, Plenilúnio (1987), «largo como o vasto céu», e Sappho I (1987), «que sintetiza tão bem a veemência e paixão extraordinárias da mítica poetisa lírica da Grécia antiga» (Ibid.).

A cor é também um elemento na obra de Maria Bonomi, instrumento de criação de vida e dinamismo, contida num grande rigor estilístico e formal. Através da combinação de diferentes tons, a artista confere emotividade e expressão à síntese formal dos seus trabalhos.

Numa carta dirigida à artista, José Sommer Ribeiro referia que a exposição estava a ter bastantes visitantes, algo que decerto o deixaria muito satisfeito, já que se tratou da última exposição que realizou enquanto diretor do CAMJAP.

A exposição foi bem recebida pela imprensa portuguesa, que destacou a originalidade dos trabalhos e a importância da obra de Maria Bonomi, artista que entendeu a técnica da gravura «de um modo não ilustrativo mas criativo», na mudança do paradigma da gravura brasileira e internacional» («Maria Bonomi», Público, 1 jul. 1994).

Carolina Gouveia Matias, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00345

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência interna e externa, convite, certificados de autenticidade, material fotográfico da artista no seu ateliê, recortes de imprensa e material para o catálogo. 1993 – 1997


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