Pinturas para o Céu. Papagaios

Exposição itinerante que nasceu de um projeto internacional coordenado por Paul Eubel. Obedecendo à preocupação de conjugar a tradição milenar da construção de papagaios de papel japoneses com as práticas artísticas ocidentais e contemporâneas, a exposição deu lugar, no final, a um leilão solidário a favor das vítimas das catástrofes naturais no Japão.
Travelling exhibition originating from an international project coordinated by Paul Eubel, director of the Goethe-Institut in Osaka, closing with a solidarity auction to raise funds for natural disaster relief in Japan. The show merged the ancient craft of Japanese paper kite construction with contemporary western artistic practice.

Em 1987, foi iniciado um projeto internacional, desenvolvido pelo Goethe-Institut de Osaka com o apoio mecenático da Lufthansa e de várias instituições locais, que tinha como objetivo aliar a tradição milenar da construção de papagaios de papel japoneses às práticas artísticas ocidentais e contemporâneas.

O projeto dos «papagaios artísticos», coordenado por Paul Eubel (diretor do Goethe-Institut de Osaka), consistia no seguinte: vários mestres da arte da construção de papagaios contribuiriam com a sua experiência técnica e artesanal, produzindo diversas peças que seriam posteriormente pintadas por artistas de renome internacional. De acordo com um dos impulsionadores deste projeto, Heinz Ruhnau (presidente do conselho de administração da Lufthansa), «a expressão inconfundível que daí resultou foi a síntese entre a precisão tradicional e as formas artísticas do moderno, uma síntese entre o pensamento simbolista do Extremo Oriente e o prazer da experimentação ocidental» (Pinturas para o Céu. Papagaios, 1990).

Klaus von Bismarck, presidente do Goethe-Institut de Lisboa, viria a comentar: «O contributo dos artistas para este acontecimento cultural nasce do seu talento em criar mundos alternativos, abrindo-nos possibilidades de vivência na esfera do irreal. Através dos seus símbolos, imagens e sensibilidade, apreendemos e presenciamos o estético. A sua intuição desabrocha no que é aparentemente improdutivo. E nós, ao perscrutarmos as suas criações, libertamos as nossas próprias forças artísticas e empaticamente activas. A nossa capacidade emotiva torna-se mais sensível em contacto com a arte, e necessitamos dela como alternativa ao quotidiano.» (Ibid.)

O projeto foi apresentado publicamente em abril de 1989, no Festival de Osaka, com uma largada de papagaios onde puderam ser vistos mais de uma centena de trabalhos. Depois deste evento, foram organizadas várias exposições destes «papagaios artísticos», apresentadas entre 1989 e 1992 em instituições japonesas, europeias e norte-americanas, entre as quais, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG). Previamente, foi ainda acordado que, quando a exposição concluísse a sua itinerância mundial, seria realizado um leilão dos papagaios, cuja receita se destinaria a apoiar vítimas de catástrofes (naturais e humanas) no Japão. Este aspeto solidário do projeto terá motivado muitos artistas a participarem.

Em finais de 1988, Paul Eubel veio a Lisboa para propor à FCG a apresentação deste projeto e o apoio na seleção de um artista português que viesse a intervencionar um dos papagaios. O artista escolhido seria José de Guimarães, que em 1989 se instalou no Japão para acompanhar a manufatura e pintar o «seu» papagaio. A obra daí resultante, produzida por construtores de papagaios de Quioto, intitulou-se D. Sebastião, e tinha cerca de 4,5 metros de altura.

Em Portugal, a produção da exposição contou com uma comparticipação financeira excecional concedida pelo Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa e pelo Banco Nacional Ultramarino. Durante a montagem, foi comprado ao realizador e artista alemão Markus Zöllner o seu vídeo da vernissage do certame no Japão em 1988, Paintings for the Sky. Este registo, entretanto editado em português pela FCG, viria a integrar a exposição apresentada no CAM, constituindo um importante apoio ao evento, uma vez que explicava a essência do projeto e os seus objetivos de intercâmbio cultural com o público.

Esta exposição despertou, de modos diversos, a curiosidade da crítica. Paula Ferreirinha destacou a «combinação harmoniosa entre o tradicional e o moderno, tendo como ponto de partida a união entre a técnica milenar japonesa de fazer papagaios e as vertentes artísticas da actualidade» (Ferreirinha, Diário de Notícias, 6 jan. 1991).

Alexandre Pomar sublinhou o sucesso da exposição: «Esta exposição é um dos maiores êxitos de público dos últimos tempos e é também uma das mostras que apresentaram em Portugal um maior número de grandes artistas internacionais. Não parece, no entanto, que seja o segundo facto a justificar aquela audiência: o que decerto explica a atracção do público é simplesmente o exotismo dos papagaios japoneses e uma esperada adequação das obras ao estatuto mais acessível do “objecto de arte”, em que a utilidade serve de mediação e de facilitação de um contacto que surgiria como problemático se se estivesse na presença de “quadros”.» (Pomar, Expresso, 19 jan. 1991)

João Pinharanda mostrou-se mais crítico relativamente à qualidade artística das intervenções, observando que «a maioria das obras não reflecte qualquer proposta de investigação: são meras reproduções dos trabalhos habituais de cada autor para um novo suporte, dimensão e forma; elementos que, por vezes, nem são tomados em consideração na sua revelação com a imagem inscrita ou são aproveitados sem inovação ou ironia» (Pinharanda, Público, 11 jan. 1991).

Após a apresentação em Lisboa, a exposição esteve em Bruxelas, Berlim e Copenhaga, de onde seguiu para o Canadá, encerrando o seu ciclo nos Estados Unidos da América, no Guggenheim Museum.

Joana Brito, 2016

In 1987, an international project was embarked upon by the Goethe Institut in Osaka with support from Lufthansa and several local institutions, the aim of which was to bring together the ancient tradition of Japanese paper kite-making and contemporary western artistic practices.

The “art kites” project, coordinated by Paul Eubel (director of the Osaka Goethe Institut), consisted of the following: several masters of the art of kite-building contributed their technical and craft experience to produce several pieces that would later be painted by internationally renowned artists. According to one of the project’s promoters, Heinz Ruhnau (Chairman of the Lufthansa Board of Directors): “The unmistakeable expression that came out of it was a synthesis of traditional precision and modern art forms, a synthesis between the symbolist thought of the Far East and the pleasure of western experimentation” (Pinturas para o céu. Papagaios, 1990).

And Klaus von Bismarck, president of the Lisbon Goethe Institut commented that: “The artists’ contribution to this cultural event comes from their talent in creating alternative worlds, providing us with opportunities for experiences in the realm of the unreal. Through their symbols, images and sensitivity, we learn and witness the aesthetic. Their intuition blossoms in something apparently unproductive. And, when we explore their creations, we free our own artistic and empathically active forces. Our emotional ability becomes more sensitive when we are in contact with art, and we need it as an alternative to the day-to-day” (Pinturas para o céu. Papagaios, 1990).

The project was publicly presented at the Osaka Festival in April 1989 with the release of the kites, where more than a hundred pieces could be seen. After this event, several exhibitions of these “art kites” were organised between 1989 and 1992 at Japanese, European and North American institutions, including the Calouste Gulbenkian Foundation. It had been agreed beforehand that when the exhibition completed its journey around the world, the kites would be auctioned and the income would go to victims of (natural and human) disasters in Japan. This charitable side to the project motivated many artists to take part.

Towards the end of 1988, Paul Eubel came to Lisbon to suggest that the FCG present the project and provide support in selecting a Portuguese artist to work on one of the kites. The chosen artist was José de Guimarães, who in 1989 settled in Japan to follow the production and to paint “his” kite. The resulting piece, produced by kite-makers from Kyoto, was named D. Sebastião and measured roughly 4.5 metres in height.

In Portugal, the exhibition production included exceptional financial contributions from the banks, Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa and Banco Ultramarino.

While the exhibition was being installed, the video of the vernissage of the event in Japan in 1988 shot by German artist and director Markus Zöllner, “Paintings for the sky”, was bought. This record, since released in Portuguese by the FCG, was included in the exhibition at the CAM, and provided important support for the event since it explained the essence of the project and its aims for cultural exchange with the public.

The exhibition aroused critics’ curiosity in several ways. Paula Ferreirinha highlighted the “harmonious combination of the traditional and the modern, based on joining the ancient Japanese technique of making kites and today’s art practices” (Ferreirinha, Diário de Notícias, 6 Jan 1991). 

Alexandre Pomar underlined the exhibition’s success: “This exhibition is one of the greatest successes for visitor numbers in recent times and it is also one of the shows with the largest numbers of great international artists in Portugal. It does not seem, however, that the latter is the reason for that large audience: what certainly explains the public attraction is simply the exoticism of Japanese kites and an expected adaptation of the pieces to the more accessible ‘work of art’, in which usefulness serves to mediate and facilitate contact that would be problematic if one were in the presence of ‘paintings’” (Pomar, Expresso, 19 Jan 1991).

And João Pinharanda reflected on the quality of the artists’ interventions on the kites, observing that: “(...) most of the pieces do not reflect a research proposal: they are simply reproductions of each artist’s usual work for a new medium, size and shape; factors that, at times, are not even taken into consideration in their revelation in the image incorporated or are exploited without innovation or irony (Pinharanda, Público, 11 Jan 1991).

After Lisbon, the exhibition went to Brussels, Berlin and Copenhagen, from where it left for Canada, completing its journey in the USA at the Guggenheim Museum.


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00227

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém informações referentes à edição de dépliants e cartazes da exposição, à realização da versão portuguesa do vídeo «Paintings for the Sky», do artista alemão Markus Zöllner, e à tradução do alemão para português do texto do catálogo da exposição. 1990 – 1991


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