Takako Iguchi. Saudade Portugal
1988
Inaugurada a 16 de março de 1988, a exposição «Takako Iguchi. Saudade Portugal» esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) até 10 de abril, seguindo depois para o Porto, onde foi apresentada de 15 a 30 de abril no Museu Nacional de Soares dos Reis.
Na FCG, decorreu em simultâneo com a mostra do artista brasileiro Alex Flemming, com a qual partilhou o espaço da Galeria de Exposições Temporárias da Sede (piso 01). A epistolografia consultada revela que a iniciativa teve contornos diplomáticos, tendo sido promovida pela Embaixada do Japão em Portugal (Ofício do 2.º secretário Jiro Maruashi para José Sommer Ribeiro, 4 jun. 1987, Arquivos Gulbenkian, SEM 00382).
A produção teve igualmente o apoio da Toyota Motor Corporation (representação do Porto), na itinerância da exposição para o Museu Nacional de Soares dos Reis (Carta de T. Tanaka para José Sommer Ribeiro, 2 mar. 1988, Arquivos Gulbenkian, SEM 00382).
Tanto em Lisboa como no Porto, Takako Iguchi (1953) apresentou as mesmas 37 peças, realizadas na sua maioria com guache, aguarela e tinta-da-china. Uma tapeçaria em lã, mais geométrica e planificada, fechava o total de 38 peças expostas, todas centradas na paisagem e nas cenas de exterior em ambientes citadinos e rurais. Exclusivamente dedicadas a locais portugueses, traziam vistas de Lisboa, Sintra, Porto, Évora, Estremoz, Coimbra, Óbidos, como que homenageando a tipicidade de cada região (Takako Iguchi, 1988).
Apesar de oriunda do Extremo Oriente, Iguchi apresentou obras cuja linguagem expressiva parece citar voluntariamente o legado cultural da arte europeia de finais de 1800. A cultura artística nipónica, de matriz fortemente gráfica, é apenas sugerida, como que sub-repticiamente, nas manchas aguareladas de tons cheios e vivos e na assertividade da linha preta que se faz sentir em algumas peças. As suas abordagens do campo e do casario transportam laivos de naturalismo, realismo e impressionismo, denunciando um olhar geográfico e cronologicamente distante desse Ocidente onde quis viajar e estudar. Trata-se do mesmo Ocidente que, no final do século XIX, se fascinara com as estampas de Hokusai ou Hiroshighe, mestres na técnica japonesa de gravura ukiyo-e. Cem anos depois, a linguagem pictórica de Iguchi parece inverter esse fascínio. Envereda conscientemente por anacronismos expressivos, bem estudados e medidos por uma pintora japonesa fascinada com Jean-Baptiste Corot (1796-1875), Edouard Manet (1832-1883) ou Auguste Renoir (1841-1919).
Daniel Peres, 2018