Artes Tradicionais Japonesas na Actualidade
1974
Esta exposição, dedicada às artes tradicionais japonesas, realizou-se por iniciativa da Fundação do Japão (Tóquio), contando com a organização da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e da Embaixada do Japão em Portugal.
A Fundação do Japão (Japan Foundation) foi criada no ano de 1972 com a missão de promover o intercâmbio cultural, e esta exposição, que data de 1974, foi a sua primeira iniciativa no domínio expositivo. Esta circunstância, que coexiste com um desejo de estreitar laços de cooperação num período inicial de atividade daquela instituição, certifica igualmente o reconhecimento internacional da FCG.
A mostra procurou apresentar ao público português referências da arte decorativa japonesa do período compreendido entre meados do século XIX e a década de 1970, expondo um conjunto de 181 peças de cerâmica, porcelana, ornamentos, biombos, peças lacadas, objetos em metal, objetos em bambu e têxteis, pertencendo grande parte destas obras à Agência de Assuntos Culturais, responsável, no Japão, pela salvaguarda do património cultural.
O prefácio do catálogo apresenta uma introdução à forma como o Japão e o seu governo entendiam o valor do saber artesanal e do artesão, legislado desde 1955, no âmbito da sua proteção e salvaguarda. Neste sentido, e no quadro da sua Lei da Proteção do Património Cultural, os proprietários destes bens tornavam-se também eles «propriedades culturais», designados «Retentores de Propriedades Importantes Intangíveis». As obras apresentadas foram selecionadas a partir do conjunto de bens deste restrito número de «Retentores», à época apenas 53 indivíduos, 21 dos quais já haviam falecido (Artes Tradicionais Japonesas na Actualidade, 1974).
Desta forma, esta exposição não apenas promoveu o contacto com a diversidade cultural das artes nipónicas, como ainda possibilitou o confronto com entendimentos distintos sobre o valor patrimonial e os conceitos de «arte» e de «artesanato».
Meses antes da inauguração em Lisboa, a exposição fora mostrada ao público parisiense, no Musée National des Arts et Traditions Populaires, tendo seguido para Colónia (Alemanha), após a sua realização em Portugal.
Numa carta enviada pelo diretor do Serviço de Exposições e Museografia da FCG, José Sommer Ribeiro, ao ministro da Embaixada do Japão em Portugal, Tamotsu Nakaya, é referido o período político que se atravessava como justificação para o diminuto número de visitantes da exposição, uma vez que a Revolução de 25 de Abril tinha acontecido apenas alguns dias antes da inauguração, no ano de 1974. Contudo, a exposição foi visitada por cerca de 4000 pessoas (Carta de José Sommer Ribeiro para Tamotsu Nakaya, 24 jun. 1974, Arquivos Gulbenkian, SEM 00055).
O contexto histórico e os aspetos técnicos das artes tradicionais japonesas foram ainda abordados numa conferência dedicada ao tema da exposição, proferida por Joh Okada, presidente do Museu de Arte Moderna de Tóquio, que refletiu igualmente sobre alguns aspetos da presença portuguesa no Oriente durante os séculos XVI e XVII.
Filipa Coimbra, 2016