Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção da Biblioteca de Arte

Em articulação com «da desigualdade constante dos dias de leonor*», apresentada no CAM, Leonor Antunes reuniu na sala de leitura da Biblioteca de Arte uma seleção de livros de artistas mulheres da Coleção da Biblioteca de Arte e dos Arquivos Gulbenkian. A exposição prolongou algumas das questões centrais desse projeto, explorando o livro de artista como espaço de experimentação, memória e visibilidade feminina.

Entre 20 de setembro e 28 de outubro de 2024, teve lugar, na Sala de Leitura da Biblioteca de Arte (BA), uma pequena mostra intitulada «Um olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção da Biblioteca de Arte». Programada pela BA, em articulação com a exposição «da desigualdade constante dos dias de leonor*» – concebida para a reabertura do edifício renovado do CAM –, esta pequena mostra, com igual curadoria de Leonor Antunes, constitui uma proposta autonomizada, com natureza própria e independente de qualquer derivação secundária daquela outra exposição.

Num distinto gesto curatorial, Leonor Antunes selecionou um conjunto de livros de artistas mulheres pertencentes à Coleção da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e à documentação de bolseiras dos Arquivos Gulbenkian que estiveram expostos e consultáveis nas mesas da Sala de Leitura da Biblioteca de Arte. A seleção inclui obras de Dayana Lucas, Isabel Carvalho, Leonor Antunes, Lúcia Prancha e Maria José Oliveira, assim como o recém-adquirido The Flat Book (Londres, 1939), de Leslie Martin e Sadie Speight, autores do edifício histórico do Centro de Arte Moderna.

A exposição concretizou noutro plano material e epistemológico aquelas que são proposições estruturantes do pensamento e da prática escultórica da artista explicitadas em «da desigualdade constante dos dias de leonor*»: reinscrever a visibilidade de mulheres artistas que participaram com relevo na construção histórica da modernidade e da contemporaneidade, mas cuja presença na narrativa institucional esteve sistematicamente diminuída, descontinuada e periférica na sequência das convenções hegemónicas de legitimação do sistema.

Na proposta curatorial, que é também ética e na qual é inegável ainda uma perspetiva política, a artista preconizou a ampliação da lógica crítica que orientou a exposição principal no CAM relativamente à hierarquia e à invisibilização das mulheres na história da produção artística. Prolongando o questionamento ativo das narrativas de género na arte para o campo editorial e bibliográfico, Leonor Antunes evidencia o protagonismo das criadoras no território dos livros-obra e da edição artística, um lugar de processo e materialidade onde se gera a sinestesia de imagens e texto e se convocam o saber, o arquivo e a memória.

Assim, correspondendo a uma modalidade de criação que começou a afirmar-se durante as segundas vanguardas dos anos de 1960 e 1970 do século XX, o livro de artista torna-se, em «Um olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção da Biblioteca de Arte», palco de interrogação a partir do qual se pode assumir a recondução das práticas femininas, sublinhando o próprio regime de singularidade das criadoras.

Se na exposição no CAM a artista operou sobretudo na escala do espaço construído, na escultura, no objeto suspenso, na trama, na corda, na verticalidade e na relação corporal e física site-specific, na Biblioteca de Arte realizou uma operação em que a prática e o objeto «livro de artista» se revelam na condição de representação e autorrepresentação das artistas-autoras, reatualizadas na sua presença.

Por outro lado, trazendo os livros de artista para a Sala de Leitura, Leonor Antunes desloca o centro da receção e da experiência estética. O paradigma do «observador» é transfigurado no paradigma do «experienciador», uma vez que o olhar é substituído pela proximidade e pelo contacto manual e tátil implicado na modalidade íntima da leitura, da consulta, do virar de páginas, do toque do corpo com o papel. Nessa medida, o restituir das obras das mulheres artistas pressupõe também uma dimensão de concreto agir intencional e subjetivo dos espectadores.

No espaço da Biblioteca transformado em espaço expositivo informal, foram organizados dois tipos de dispositivos-visibilidades. Por um lado, numa mesa com a superfície protegida por faixas de papel – faixas que são tanto suporte como delimitação –, encontravam-se dispostos, numa espécie de corredor visual, vários livros que podiam ser observados, manuseados, abertos, consultados. Aqui, explicitando o espaço de consulta e estudo, eram centrais a materialidade e o gesto lento da leitura. Por outro lado, caixas transparentes de acrílico, num desenho cúbico, albergavam outros livros de artista. Neste caso, a estrutura geométrica fechada, que só não isolava o olhar, reforçava a ideia de preservação e reserva face à obra de arte.

Numa duplicidade que explicita as possibilidades de questionar a condição e o estatuto da obra de arte, a natureza híbrida dos livros-de-artista problematiza as premissas associadas ao objeto artístico ao oscilar entre objeto editorial e prática plástica autónoma, fundindo-os. Face a este caráter de hibridez, problematização e questionamento, é pertinente engendrar paralelismos com os processos de exploração e experimentação que muitas mulheres artistas foram empreendendo nas margens do sistema artístico convencional. Simultaneamente, é comum encontrar entre muitos livros-de-artista um tipo de atenção, processo e fazer que recupera práticas manuais e artesanais, valorizando substantivamente os materiais pobres e os gestos do seu manuseamento, incluídos como constituintes do significado da obra. Também nesta dimensão se pode afirmar uma analogia com o trabalho de várias mulheres artistas, que historicamente encontraram no fazer manual um espaço de resistência e afirmação. Pela liberdade de invenção formal e conceptual que comportam, abrindo ruturas nas convenções editoriais e artísticas, os livros de artista feitos por mulheres acabam por ser indissociáveis de um campo estético-político, uma outra forma de organizar a experiência sensível, tal como enuncia Jacques Rancière, onde são situáveis o labor e a sensorialidade ancestralmente tidos como femininos.

Considerando a lógica implicada na seleção das artistas de gerações e proveniências distintas e das respetivas obras, é possível encontrar um pensamento relacional que se distancia de qualquer vontade de induzir classificações ou construir equivalências e que sustenta sobretudo o interesse em entrecruzar diversas linguagens e regimes estéticos, plásticos e criativos, complementados pelas dinâmicas múltiplas de experimentação evidenciadas. Os livros de artista que Leonor Antunes reuniu revelam a amplitude de abordagens que este género pode assumir dentro da produção artística contemporânea, oscilando entre a experimentação gráfica, a incorporação de texto e imagem, o uso do livro como objeto escultórico e a construção de narrativas visuais expandidas.

É na experimentação da edição como campo expandido que se podem situar as linguagens contemporâneas das obras de Dayana Lucas, Isabel Carvalho e Lúcia Prancha. Em Boomori (2018), Dayana Lucas convoca a atenção para o processo serigráfico artesanal da impressão, apresentando um livro com edição limitada de 50 exemplares que valoriza a repetição e a variação. Isabel Carvalho situa-se no âmbito da prática editorial ao propor a obra Sol (2009), livro publicado pela editora Braço de Ferro, no qual desenvolve uma investigação sobre texto, materialidade e ecologia das imagens também presente nos seus outros dois livros de artista, Mostruário de horas tecidas em ambientes pesados resultando em diferentes padrões estéticos (2009) e Orla (2012), publicado no âmbito de um projeto iniciado em 2011 com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. O livro-objeto de Lúcia Prancha, VI, conduz igualmente uma investigação material reforçada pelo modo como surge na caixa de acrílico que contém um lençol (200 x 225 cm) bordado com fio de algodão vermelho, dobrado e disposto no centro da caixa, a envolver duas sobrecapas em papel fotográfico brilhante com texto (inglês e português) retirado do livro de Hilda Hilst Cartas de um Sedutor. A obra de Maria José Oliveira revela uma semântica de autobiografia e de corpo. Protótipo da máquina de escrever e de pensar cartas de amor e desamor (2021) é um livro-objeto construído em cartão, papel-manteiga envelhecido, cordão e intervenções por eletrólise, próximo da ideia de um registo ou vestígio de emoções ou escultura narrativa. O livro de Leslie Martin e Sadie Speight, The Flat Book (Londres, 1939), mostra-se enquanto um catálogo modernista de mobiliário e equipamento que pressupõe um design editorial, organização visual e clareza gráfica, no qual se acentua o caráter de mediação entre o dispositivo visual e os leitores. Da mesma maneira, este livro aponta para a nuance silenciosa entre a mostra na Biblioteca e o edifício histórico do CAM que ambos projetaram.

Ao selecionar os livros-obra e colocá-los em situação consultável, Leonor Antunes instala um dispositivo que devolve às artistas uma centralidade situada na divisão absolutamente fulcral, em grande medida mesmo em termos simbólicos, que a Biblioteca de Arte ocupa na Fundação Calouste Gulbenkian. Em paralelo, por via do seu gesto curatorial, a própria Biblioteca de Arte adquire outro papel, outra função, tendo em conta que o espaço físico de conhecimento e arquivo, onde normalmente os livros são consultados e lidos numa disciplina de estudo académica, passa a ser, de modo equivalente, o espaço físico em que as obras das artistas são recontextualizadas enquanto exemplos da necessária reinscrição de genealogias femininas na história da criação moderna e contemporânea.

Tem igual relevância na exposição a particularidade de nela se projetar ainda um sentido autorreferencial decorrente do facto de Leonor Antunes incluir livros da sua autoria na constelação das mulheres artistas apresentadas. Por intermédio de tal autorreferencialidade, a artista adquire uma dupla autoria – a de curadora e a de artista – e desdobra-se na figura de quem «fala de fora» e «fala de dentro». Coloca-se, portanto, num plano idêntico de perceção crítica acerca do trabalho artístico em que se encontram as outras artistas, participando no igual projeto de inscrição histórica das mulheres na arte. Identificam-se nos seus livros princípios do que é a sua prática comum de atenção aos materiais, atenção à arquitetura e atenção às genealogias históricas da produção manual. Em The tiny pliable plane: bom dia kinder (2016), livro de artista publicado no âmbito da exposição The pliable plane, sete folhas serigrafadas em diferentes papéis surgem como uma espécie de pequeno arquivo de superfícies, dobras e planos. 1975/87/90–2010 (2010) propõe-se quase como espaço tridimensional que cruza a ideia da escultura com a pesquisa histórica, um livro-escultura em que um conjunto de páginas se liga por um fino cordão verde que se desdobra formando um painel. Estava ainda disponível para consulta o livro-catálogo da exposição da desigualdade constante dos dias de leonor*.

A necessidade afirmada pela curadora Rita Fabiana no texto do catálogo da exposição da «desigualdade constante dos dias de leonor*» de olhar para as coleções de arte institucionais e públicas segundo um prisma de questionamento crítico aplica-se também a «Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção da Biblioteca de Arte». Aqui o acervo da Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian é sujeito à avaliação problematizadora dos seus fundos num entendimento que o abre a diálogos e projetos, concebido como domínio que, sendo de conservação, em coincidência deve ser dinâmico e promover a reelaboração constante.

Vanda Gorjão, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Fotografias


Documentação


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. 2024


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