Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção do CAM

Programa «Portugal-Espanha: 50 anos de Democracia» / Projeto «Artists Join the Embassy» (3.ª edição)

A antecipar a exposição inaugural do novo edifício do CAM, a Embaixada de Portugal em Madrid e o CAM apresentam uma seleção de obras de artistas mulheres com curadoria de Leonor Antunes, na Residência Oficial do Embaixador Português em Madrid. A proposta da artista-curadora introduz novas leituras da coleção através de uma intervenção escultórica site-specific e de obras do acervo, convidando a repensar formas de exposição e narrativas curatoriais.

Com curadoria de Leonor Antunes, «Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção do CAM» foi a exposição inaugurada em março de 2024 na Residência Oficial do Embaixador de Portugal em Madrid, reunindo obras de artistas mulheres da Coleção do CAM, algumas mostradas pela primeira vez.

A mostra resultou de um programa conjunto entre a Embaixada de Portugal em Madrid e o CAM e integrou a Programação Cultural Conjunta entre Portugal e Espanha, iniciativa com diversas atividades que assinalaram os 50 anos do 25 de Abril de 1974 e os processos de transição democrática na história conjunta e partilhada entre os dois países, assente na premissa de aprofundar a cooperação e o intercâmbio em matéria de cultura e arte, enquanto elementos constitutivos da cidadania. Ao mesmo tempo, a mostra incluiu-se na 3.ª edição do «Artists Join the Embassy», no contexto da ARCOmadrid, projeto de diplomacia cultural em que diferentes embaixadas promovem o diálogo intercultural através das artes visuais, acolhendo exposições, residências ou colaborações entre artistas.

O ciclo Artists Join the Embassy foi lançado pela Embaixada de Portugal em Espanha, em parceria com a feira ARCOmadrid e com as galerias Cristina Guerra e NF/Nieves Fernández em 2022, tendo a artista Ângela Ferreira inaugurado a primeira edição. Na 3.ª edição, o convite feito a Leonor Antunes inseriu-se no programa de reabertura do Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian, após cerca de quatro anos de renovação e ampliação, prevista para setembro de 2024. A artista foi escolhida para inaugurar uma exposição alinhada com a nova lógica expositiva artist centered, que concede a cada convidado «carta branca» para conceber uma obra site-specific na galeria da Nave central do edifício.

Em certa medida, configurando uma etapa prévia de consolidação da mostra prevista para setembro no CAM, «Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção do CAM» apresentou-se como um projeto de reflexão curatorial coerente com a linguagem singular da artista, que tem realizado um questionamento persistente e multifacetado sobre componentes centrais do seu trabalho, como o espaço, as obras, as obras no espaço e as múltiplas convocações, remissões e alusões a criadores anteriores ou contemporâneos — essencialmente mulheres representativas da modernidade artística —, num interesse cada vez mais sedimentado.

Reconhecida como um dos nomes mais internacionais da arte portuguesa, com presença consolidada no circuito internacional sobretudo após se radicar em Berlim em 2005, e sendo uma das quatro artistas a representar Portugal em 2019 na Bienal de Veneza com a exposição comissariada por João Ribas «Uma costura, uma superfície, uma dobradiça e um nó», Leonor Antunes concretizou nesta mostra uma faceta do seu trabalho que assume a relevância do gesto curatorial. Já anteriormente, em 2013, propusera um exercício curatorial no projeto «Apartés» do Musée d’Art Moderne (MAM) de Paris, relacionando a instalação The Space of the Window (2007) com um conjunto de obras de artistas, na sua maioria mulheres.

Ao reunir 22 obras de 14 artistas — Ana Hatherly, Ana Vieira, Helena Almeida, Isabel Carvalho, Isabel Laginhas, Leonor Antunes, Lourdes Castro, Lúcia Nogueira, Luísa Cunha, Maria Antónia Siza, Maria Helena Vieira da Silva, Maria José Oliveira, Salette Tavares, Túlia Saldanha —, o gesto curatorial de Leonor Antunes enquadrou-se de forma explícita na intenção de repensar as condições de visibilidade e legitimidade artísticas. Assim, a afirmação do protagonismo feminino na criação contemporânea contribuiu para contrariar narrativas hegemónicas marcadas pela predominância masculina e pela desigualdade de género nos mecanismos institucionais de consagração, propondo outras histórias da arte e criando condições de revalorização e revalidação das artistas e das obras.

A diligência de Leonor Antunes relativamente ao conhecimento das modalidades condicionantes de género na produção e divulgação artística traduziu-se na decisão de chamar a si a responsabilidade de selecionar obras de artistas da Coleção do CAM nunca exibidas ou pouco mostradas até à data.

Lúcia Nogueira (1950–1998) teve nesta exposição «Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção do CAM» a sua primeira exibição. Isabel Laginhas (1942–2018), uma das três artistas-bolseiras que durante as décadas de 1960 e 1970 usufruiu de uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian (as outras duas foram Maria Gabriel e Marina Mesquita), foi apresentada apenas em 2019, na mostra «Artistas Mulheres na Coleção Moderna».

Maria José Oliveira (1943), com um trabalho repartido entre cerâmica, desenho, colagem, joalharia, escultura e instalação no qual explora materiais naturais e orgânicos (café, resíduos vegetais, terra, leite, folhas e caules secos, ovos, resina vegetal, pedras, massa de pão, cinza de forno de padeiro), teve visibilidade só em 2021 na exposição «Tudo o que eu quero».

Igualmente incluída em 2021 na mostra «Tudo o que eu quero» e, um ano depois, com uma pintura na exposição «50 Anos Depois», realizada na Fundação de Serralves, Maria Antónia Siza (1940–1973), com uma produção centrada em desenhos a tinta-da-china, aguarelas, guaches e gravuras, mas também bordados e algumas pinturas, permanece quase uma artista desconhecida, embora a Coleção CAM possua um núcleo de mais de 100 obras suas.

Para além de desvelar condicionamentos que até há pouco tempo dificultavam o reconhecimento das artistas, a proposta curatorial foi marcada por dois outros desdobramentos. Evidenciou, por um lado, a intenção de atender tanto às afinidades possíveis entre as criadoras como às especificidades de cada percurso, estabelecendo ligações heurísticas entre diferentes experiências e tempos históricos da criação, entre 1934 e 2021. Em simultâneo, conferiu relevo, por outro lado, a obras cujos materiais, elementos, suportes, processos e técnicas estiveram tradicionalmente afastados dos parâmetros do que se entendia ser a «nobreza» da materialidade da arte. Embora sejam hoje reconhecidos como fundamentais nos caminhos inovadores da criação moderna, tais materiais, elementos, suportes, processos e técnicas foram longamente desvalorizados como artesanais, decorativos, utilitários, «menores» ou «femininos».

Neste sentido, é pertinente recordar o conceito de «femmage» de Miriam Schapiro (1923–2015), que valorizou o gesto manual, o património de saberes transmitido entre mulheres e a memória feminina, legitimando práticas de criação frequentemente associadas ao quotidiano doméstico, ao cuidado e ao fazer despojado.

Leonor Antunes privilegiou na escolha práticas situadas num campo expandido da arte, orientadas por princípios experimentais e «indisciplinares» que fazem convergir e contaminar pintura, escultura, desenho, escrita, corpo, têxtil, linha e chão. Materiais naturais e orgânicos como papel, tecido, crina, couro, madeira, metal ou pedra compõem algumas das propostas. Noutras surgem objetos comuns, domésticos, descontinuados, recuperados e transformados em composições híbridas e assemblages, associados a gestos de fazer e desfazer, costurar, desmontar, escrever e desenhar.

Do conjunto irradiam evocações e vínculos simbólicos ao espaço doméstico e ao espaço ampliado do trabalho e do território. Linguagens plásticas, estéticas e políticas sugerem vivências, aspirações, utopias e reivindicações de género. São ilustrativas destas dimensões a obra Porta das Maravilhas (1979), de Salette Tavares, com as frases «as maravilhas ficaram», «as maravilhas morreram», «as maravilhas fecharam», ou a obra L’esthétique du chant. La transfiguration de Sainte Cécile. Les foulards sont comme des pièces de vêtements ornementaux contenant la promesse d’une expression collective plus adaptée (2021), de Isabel Carvalho, composta por seis lenços-tela em tecidos branco e vermelho, escritos e desenhados.

Também na montagem se revelaram escolhas que devolvem uma atmosfera de proximidade, enquanto a distribuição das obras pelas diferentes divisões da Residência da Embaixada induzia nos visitantes percursos marcados pela alternância entre continuidade e contraste.

Quer na entrada, quer no grande salão, quer ainda na sala de jantar, a relação entre as peças e o espaço criava um diálogo subtil entre o domínio privado-doméstico e as práticas das artistas, muitas vezes evocando o lugar da casa historicamente associado ao feminino. Integradas no quotidiano dos ambientes, as obras adquiriram novas camadas visuais e de sentido, remetendo para o pensamento vanguardista das décadas de 1960 e 1970 sobre a aproximação entre arte e vida, sugerindo a «dessacralização» da arte e insinuando estratégias atuais de expansão dos espaços institucionais para territórios alternativos.

Desde logo, a marcar o início do percurso expositivo, a obra de Luísa Cunha, Senhora! (2010), colocada na entrada, estabelece em certa medida o tom da proposta curatorial de Leonor Antunes: uma voz emerge de uma coluna de som revestida com tecido de tule vermelho, repetindo: «Senhora!... Toda a gente sabe!». A voz de mulher, ao enunciar de modo firme a interpelação «Senhora!», insinua algo da privacidade escondida e do segredo das vivências femininas, ao mesmo tempo que alude à tensão entre aquilo que é mostrado e aquilo que permanece resguardado.

Decorre da montagem outro sentido. Diante dos traços do estilo clássico, apalaçado, da arquitetura dos interiores e da mobília ornamentada da Residência, formou-se um entrelaçamento entre o passado e o presente patente na linguagem contemporânea das artistas. Numa composição contrastante que juntava a estilização da figura pintada (Ana Vieira, Toucador, 1973) com pesadas cortinas em tecido, encontrava-se um quadro de grandes dimensões pousado sobre uma cómoda antiga de madeira trabalhada. Uma escultura cor-de-barro de um fragmento de torso (Maria José Oliveira, Auto-retrato, 1980) ocupava uma mesa de mármore verde, enquanto uma pintura abstrata (Maria Helena Vieira da Silva, Composition ou Pim! Pam! Poum!, 1934) se dispunha no mesmo espaço.

Presenciava-se ainda a ironia subtil das propostas de algumas artistas que quase se confundiam com o mobiliário e a decoração: um bordado (Maria Antónia Siza, Sem título, 1960s); uma caixa com objetos colados (Lourdes Castro, Caixa Azul, 1963); uma caixa-mala preta aberta no chão (Túlia Saldanha, Do Nordeste a Coimbra, 1978); fragmentos de vidro espalhados sobre um tapete oriental (Lúcia Nogueira, Step, 1995); e um painel de madeira de freixo com corda de nylon (Leonor Antunes, avoiding the mistral wind II, 2013).

A afluência expressiva na inauguração de figuras da política, cultura e arte portuguesas sublinhou a importância do projeto para a valorização da arte moderna portuguesa e da obra de artistas mulheres.

Compareceram à inauguração, para além de Leonor Antunes, Rita Fabiana, Pedro Adão e Silva, António Filipe Pimentel, Graça Fonseca, Miguel Honrado e Luís Silveira, entre outros.

Pode assinalar-se um impacto significativo da exposição na comunicação social espanhola e portuguesa, com cobertura em jornais, meios digitais e rádios, num total de 24 notícias. Entre os meios destacados encontram-se Público, Expresso, Observador, RTP Notícias, Correio da Manhã, O Jornal Económico e outros.

Para assegurar cobertura ampla, foi realizado um pequeno-almoço de imprensa na Embaixada, que reuniu 15 jornalistas.

Três aspetos centrais marcaram a receção mediática: a dimensão política da cooperação Portugal–Espanha no âmbito da Programação Cultural Conjunta; a relevância da ARCOmadrid; e a singularidade da leitura de Leonor Antunes sobre a coleção do CAM.

Várias notícias destacaram que «Um Olhar de Leonor Antunes sobre a Coleção do CAM» constituía uma prévia da exposição de Lisboa, sublinhando o gesto curatorial e a visibilidade de artistas historicamente pouco mostradas.

Igualmente no âmbito da Programação Cultural Conjunta teve lugar a exposição «O poder com que saltamos juntas. Mulheres artistas em Espanha e Portugal, entre a ditadura e a democracia», organizada pelo CAM e pelo IVAM, apresentada entre 30 de maio e 29 de setembro de 2024.

Esta mostra reuniu 59 artistas de ambos os países e explorou práticas de criação de mulheres sob contextos políticos e culturais diversos.

Situada fora do circuito tradicional dos museus, a Residência Oficial do Embaixador de Portugal em Madrid foi visitada por públicos diversificados. Não houve contagem de visitantes.

Na medida em que esta mostra se configurou como etapa prévia da exposição maior de Leonor Antunes «da desigualdade constante dos dias de Leonor*», não existiu publicação própria, servindo como documento a publicação posterior do catálogo da exposição, editado em versões portuguesa e inglesa, com textos de Guilherme d’Oliveira Martins, Benjamin Weil, Rita Fabiana, Connie Butler, Julia Bryan-Wilson e Taisa Palhares.

 

 

 

 

 

 

 

 

Vanda Gorjão, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Da cor da trama

Amélia Toledo

Da cor da trama, (1989) / Inv. PE30

Título desconhecido

Ana Hatherly (1929-2015)

Título desconhecido, Inv. DP253

Objecto - Porta

Ana Vieira (1940-2016)

Objecto - Porta, Inv. 89E609

Toucador

Ana Vieira (1940-2016)

Toucador, Inv. 83E565

Sem título

Helena Almeida (1934-2018)

Sem título, Inv. DP142

Sem título

Helena Almeida (1934-2018)

Sem título, Inv. DP143

Isabel Laginhas (1942-2018)

Objecto, 1983 / Inv. 83E1176

avoiding the mistral wind II

Leonor Antunes (1972-)

avoiding the mistral wind II, Inv. 14E1766

Caixa Azul

Lourdes Castro (1930-2022)

Caixa Azul, Inv. 99E808

In the Café

Lourdes Castro (1930-2022)

In the Café, Inv. 92P300

Letras e Pente

Lourdes Castro (1930-2022)

Letras e Pente, Inv. 10P1623

Step

Lucia Nogueira (1950-1998)

Step, 1995 / Inv. 16EE83

Senhora!

Luísa Cunha (1949-)

Senhora!, Inv. 13E1746

S/ Título

Maria Antónia Siza (1940-1973)

S/ Título, s.d. / Inv. 18TXP9

S/ Título

Maria Antónia Siza (1940-1973)

S/ Título, s.d. / Inv. 18TXP7

S/ Título

Maria Antónia Siza (1940-1973)

S/ Título, s.d. / Inv. 18TXP8

Composition ou Pim! Pam! Poum!

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992)

Composition ou Pim! Pam! Poum!, Inv. 78PE104

Auto-retrato

Maria José Oliveira (1943-)

Auto-retrato, 1980 / Inv. 17E1845

Porta das Maravilhas

Salette Tavares (1922-1994)

Porta das Maravilhas, 1979 / Inv. 15E1777

Cremilde

Sara Bichão (1986-)

Cremilde, Inv. 17E1834

Do Nordeste a Coimbra

Túlia Saldanha (1930-1988)

Do Nordeste a Coimbra, 1978 / Inv. 15E1780


Publicações


Fotografias

Pedro Adão e Silva
Guilherme d´Oliveira Martins (à dir.)
Guilherme d´Oliveira Martins (à dir.)
Pedro Adão e Silva (à esq.) e Guilherme d´Oliveira Martins (à dir.)
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Ana Botella, Leonor Antunes e Benjamin Weil (da dir. para a esq.)
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Elisabete Caramelo e João Mira Gomes
João Mira Gomes
Pedro Adão e Silva (ao centro) e Guilherme d´Oliveira Martins (à dir.)
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Ana Fernandes (à dir.)
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Benjamin Weil
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