«Eu sou mulher, certo?»

As Escolhas das Curadoras: Patrícia Rosas destaca a obra «S. Vomiting the Pátria» de Paula Rego.
Paula Rego, «S. Vomiting the Pátria», 1960. Óleo sobre tela. Inv. 83P417

Subi ao 2.º andar da sala de exposições do National Museum of Women in the Arts (Museu Nacional das Mulheres nas Artes), em Washington, para assistir à desembalagem e montagem da pintura que acompanhei desde as reservas do CAM até aqui.

A obra de Paula Rego datada de 1960, S. Vomiting the Pátria – título inscrito no verso da tela pela artista, durante muito tempo designada por «Salazar a vomitar a Pátria» – foi mostrada pela primeira vez em Portugal em 1972, na Galeria São Mamede. Na altura, a artista não conseguiu expô-la em Inglaterra, porque foi, de facto, uma pintura que incomodou o poder instituído.

 

Paula Rego no ateliê de Albert Street, Camden Town, Londres, 1965 (com a pintura «S. Vomiting the Pátria»)

 

Passadas quatro décadas, no ano passado, acabou por marcar presença numa exposição sobre a artista na MK Gallery, em Milton Keynes, no Reino Unido. Desejavelmente, em 2021, será vista na grande retrospetiva da artista na Tate Britain, incluída próxima do surrealismo, que Paula Rego praticou no início da sua carreira, e de uma arte informal oriunda da década de 1950.

Citando Miró, ou mesmo indo beber a Dubuffet, que Paula Rego teria apreciado em Londres, em 1958, S. Vomiting the Pátria instigava, alertava e criticava vorazmente uma ditadura que resistia numa Europa já um passo à frente do imobilismo português.

Quando, no dia 24 de janeiro de 2008, entrei no Museu Nacional das Mulheres nas Artes, em Washington, museu único no mundo exclusivamente dedicado à mostra de obras de artistas mulheres, inaugurado em 1987, percebi que o encontro com as obras e com Paula Rego seria sublime.

Ao fundo da sala de exposições destacava-se a sua incontornável obra The Policeman’s Daughter, a jovem que limpa a bota do pai, polindo-a incansavelmente; aí, saudada pela própria artista, que não escondeu o seu entusiasmo e a sua empatia às primeiras palavras trocadas em português, constatei a sua felicidade por aquele acontecimento. Era um statement, uma afirmação da artista mulher ao ver acontecer a sua primeira retrospetiva na América, num museu dedicado somente às mulheres: «Eu sou mulher, certo?».

 

Fotografia Paula Rego, «The Policeman’s Daughter», 1987. Coleção Saatchi, Londres

 

No catálogo da exposição, o curador Marco Livingstone afirmava com clareza: Paula Rego é uma artista que sobrevive no século XXI, porque a forma como representa o comportamento humano é intemporal. As suas personagens são atemorizadas nas suas atitudes cénicas, agem perante um tempo e um espaço atípicos.

 

Vista da exposição de Paula Rego no NMWA, 2008. Foto: Lee Stalsworth. Cortesia: National Museum of Women in the Arts
Vista da exposição de Paula Rego no NMWA, 2008. Foto: Lee Stalsworth. Cortesia: National Museum of Women in the Arts

 

São de facto raros os artistas que têm essa visibilidade internacional, de contar histórias através da pintura. Isso sempre foi pertença dos livros e, mais tarde, também da fotografia ou do cinema.

 

Patrícia Rosas
Curadora do Centro de Arte Moderna


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As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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