Canto da Maya

Ponta Delgada, Açores, 1890 – Ponta Delgada, Açores, 1981

Ernesto do Canto Faria e Maia nasceu em Ponta Delgada. Com formação artística em Lisboa, Paris, Genebra e Madrid, e a carreira mais consagrada e internacional de um escultor português na primeira metade do século, Canto da Maya destaca-se entre os percursores do modernismo figurativo com uma original estética decorativista. Entre Paris e Lisboa, cria esculturas – grandes conjuntos, figurinhas de terracota ou gesso, bustos, baixos-relevos, figuras metafóricas dos ciclos da vida ou da feminidade – cuja expressividade anatómica e idealidade poética foi muito premiada, e escolhida para representar a arte francesa (Tóquio e Osaka, 1926), e Portugal, em várias exposições universais (Paris, 1937; Nova Iorque, S.Francisco, 1939) e na Bienal de S. Paulo (1957). Desempenhou também um papel central na exploração da art déco, colaborando em projetos com célebres arquitetos. Uma viragem a meio da carreira leva-o da pioneira reinvenção da escultura figurativa ao academismo nacionalista, em longa campanha oficial de esculturas monumentais destinadas a enaltecer a propaganda patriótica do Estado Novo, que lhe atribui o Grau de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada (1941). Apesar de diferentes fases e faces, a obra de Canto da Maya continua a atrair sucessivas homenagens e retrospetivas desde a década de 30, em Portugal e França. Canto da Maya morreu em Ponta Delgada.

Incentivado pela família, Canto da Maya embarcou desde cedo num percurso inteiramente devotado às artes. Quando acabou o Liceu de Ponta Delgada (1907), foi para a Escola de Superior de Belas-Artes de Lisboa onde, após concluir o Curso Geral, se inscreve em Arquitetura (1911). Inicia o seu trabalho com pequenas esculturas satíricas, sob o nome Ernesto do Canto, na histórica I Exposição dos Humoristas Portugueses (1912), ao lado de Cristiano Cruz, Jorge Barradas e Almada, alinhando-se pela renovação modernista. No mesmo ano muda-se para Paris. Estuda com Antonin Mercié na École de beaux-arts e com Bourdelle na Académie de la Grande Chaumière. Participa então no Salão de Humoristas no Palais de Glace (1913) e na II Exposição de Humoristas Portugueses (1913), com obras de um vincado realismo neo-romântico. Conheceu em Genebra (1914) e Madrid (1916) quem considera os seus verdadeiros mestres: o simbolista James Vibert, com quem estagia enquanto estuda na Escola de Belas-Artes de Genebra e o introduz à art nouveau, levando à criação de figuras em terracota e gesso; e Julio Antonio, com quem trabalha um ano, herdando o gosto por figuras–tipo da maternidade, inocência e sensualidade. No fim de 1916, depois dum interregno em São Miguel durante a I Guerra Mundial, regressa para Paris, fixando-se em Boulogne-sur-Seine, para iniciar uma carreira artística com a sua escultura que envereda então por maiores dimensões e maior dinamismo expressivo, à maneira de Rodin. Obteve uma medalha de 2ª Classe da SNBA ex-aequo com Maximiliano Alves (1916), e logra depois a primeira mostra individual no Salão Bobone, Lisboa (1919).

 

Os anos 20 revelam as obras mais icónicas de Maya, e a plena maturação da sua linguagem plástica no quadro de um “retorno às origens” da escultura figurativa europeia, captando a crítica internacional pelo modo como salienta a geometria das formas e busca ideias de pureza, referenciado na escultura grega arcaica, esoterismo oriental e um “exotismo” que associa aos Açores. O seu universo temático hedonista privilegia símbolos de sedução e pecado, e a íntima expressividade de nus femininos, como no seu primeiro sucesso, Bendito seja o fruto do teu ventre, exposto no Salon de l’automne, 1922 (onde participa regularmente até 1932). Ao mesmo tempo, recebe ainda a Medalha de Ouro da Exposição Internacional das Artes Decorativas de Paris (1925), e conclui a premiada decoração do Pavillon Pomone (Paris) e do Bristol Club (Lisboa), exemplos do continuado trabalho de inovação na área das artes decorativas ao longo da década, em colaborações com arquitetos importantes como Mallet-Stevens, Paul Follot, Pierre Forrestier, Raul Lino, desenvolvendo a mesma estética art déco que o destaca nos salões de Paris, e o leva a integrar a Exposição de Arte Francesa Contemporânea, em Tóquio e Osaka (1926).

 

Após 1930, vieram os anos da consagração em Paris e crescente participação em mostras oficiais, começando pela Exposição Colonial de Paris (1931). O Governo francês compra então O Hino do Amor de Maya para o Jeu de Paume (1936), e ganha o Grand Prix de Sculpture na Exposição Universal de Paris (1937) pelos baixos-relevos do Infante D. Henrique, Afonso de Albuquerque e de Fernão de Magalhães. Dada a iminência da II Guerra Mundial, no pico da carreira, trocou Paris por Lisboa (1938), e direciona a partir de então quase toda a produção para esculturas monumentais de heróis da nação, adaptando um idioma plástico modernizante ao oficial academismo nacionalista. O baixo-relevo A Família em Portugal, glosando uma frase de Salazar, foi peça central no Pavilhão Português da Exposição Universal de Nova Iorque e São Francisco (1939) e as gigantescas figuras escultóricas de D. Manuel, Vasco da Gama e Álvares Cabral, entram na Exposição do Mundo Português (1940). O reconhecimento oficial atribui-lhe o Grau de Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1941), o SPN dedica-lhe uma grande retrospetiva (Lisboa, 1943) e o SNI o Prémio de Escultura Manuel Pereira (1944). Mal acaba a guerra volta para Paris, embora venha e exponha com frequência em Lisboa, exibindo mais esculturas encomendadas pelo Ministério do Ultramar na Exposição dos Trabalhos Públicos, no Instituto Superior Técnico (1948).

 

Apesar da produção irregular na década de 50, Canto da Maya participa ainda na representação portuguesa na II Bienal de São Paulo (1954), ano em que se fixaria definitivamente em Ponta Delgada. Foi eleito vogal honorário da Academia Nacional de Belas Artes de Lisboa (1966), e o Museu Carlos Machado dedicou-lhe uma ampla retrospetiva (1976), e reservou-lhe uma sala permanente para a obra. Canto da Maya morreu em Ponta Delgada (1981). O nome entrou de imediato para a toponímia de Ponta Delgada e de Lisboa, e a sua obra, nalguns dos principais museus de Portugal e França, continua a atrair retrospetivas e antológicas, com destaque para as mostras na FCG (1990), no Centre culturel Gulbenkian de Paris (1995), na Bermuda National Gallery (1999) ou na Maison Grand Place, Bruxelas, e no Palácio Galveias, Lisboa (2010).

 

 

Afonso Ramos

Março de 2013

Atualização em 10 março 2016

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