13 Dezembro 2019

2019, um ano para celebrar o nosso fundador: Calouste Sarkis Gulbenkian

Um relato de fim de ano por Razmik Panossian, diretor do departamento das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian

Calouste: a life, not an exhibition
Calouste: a life, not an exhibition© Monica Sousa

2019 Foi um ano de celebrações de diversos centésimos quinquagésimos aniversários pelo mundo arménio: o nascimento de Gomidas Vartabed (Komitas), Hovhannes Toumanian, Levon Shant, Yervant Odian e Calouste Sarkis Gulbenkian. Ao longo do ano, a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma série de eventos para celebrar a vida do seu fundador. As comemorações decorreram maioritariamente em Portugal, uma vez que o maior legado de Gulbenkian é a sua Fundação, criada em 1956 por sua vontade e cuja sede é em Lisboa. À data da sua morte, em 1955, Gulbenkian era o homem mais rico do mundo.

As comemorações começaram em janeiro de 2019 com o lançamento, em português e inglês, da primeira biografia académica sobre o Fundador- “O Homem Mais Rico do Mundo: As muitas vidas de Calouste Gulbenkian” do Professor Jonathan Conlin. Fundamentado em arquivos de vários países e línguas, incluindo o arménio, o livro retrata um homem excecional e, por vezes, bastante difícil. Abordando temas como os seus negócios, coleção de arte, vida privada e trabalho filantrópico, a biografia obriga a repensar Gulbenkian e o seu legado, acabando com alguns mitos e estimulando o debate em Portugal e em outros países. O Presidente da República esteve presente na sessão de lançamento da biografia, em Lisboa, e discursou antes de uma mesa-redonda com o autor. Em outubro, o livro foi publicado na Arménia com traduções em Arménio e Russo por uma editora local.

Calouste Sarkis Gulbenkian nasceu a 23 de março de 1869 em Uskudar, um subúrbio de Istambul. O dia do seu nascimento foi celebrado com um conjunto de eventos, entre eles a atribuição de doze prémios aos vencedores do concurso nacional “Quem é Calouste?”. O concurso era dirigido aos jovens com idades entre os 15 e os 25 anos, residentes em Portugal, que eram convidados através das várias expressões artísticas (música, texto, filme e artes visuais) a apresentar o que significava para eles o Sr. Gulbenkian. Os seus trabalhos estiveram em exposição na Fundação. No total, a adesão foi bastante significativa por parte dos estudantes traduzindo-se em 457 candidaturas individuais e de grupo.

Durante a cerimónia, o Grande Auditório, com capacidade para 1200 pessoas, esteve repleto de jovens que comemoraram a vida de Calouste Gulbenkian (antes disso, as nossas salas de reunião encheram-se para debater a cidadania global, usando Gulbenkian como exemplo). A banda Collectif Medz Bazar encerrou a cerimónia de entrega de prémios, pondo toda a plateia rendida e a dançar. Vi algo que nunca tinha visto antes: uma sourchbar arménia no formal ambiente do Grande Auditório! Centenas de jovens de todo o país trouxeram uma emoção especial à Fundação. Mas, este foi apenas um dos momentos das comemorações no dia 23 de março.

Num evento mais formal no mesmo dia, a memória e legado de Calouste Gulbenkian foi honrado na presença de ilustres convidados, do Conselho de Administração da Fundação e de mais de mil convidados. O Arcebispo Khajag Barsamian, o Legado Papal para a Europa Ocidental e Vaticano acompanhou-nos ao longo do dia.

O bisneto do Fundador, Martin Essayan, destacou os valores de Gulbenkian no seu discurso, a presidente da Fundação, Dra. Isabel Mota, falou sobre a Fundação e a Orquestra Gulbenkian brindou-nos com Beethoven. Antes da cerimónia principal, foi lançado um selo comemorativo dedicado a Gulbenkian, uma iniciativa conjunta dos CTT de Portugal e Correio Arménio numa comemoração única.

No final do dia foi inaugurada uma exposição sobre a vida de Gulbenkian intitulada “ Calouste: uma vida, não uma exposição”, patente durante nove meses. Criada pelo conhecido curador português Paulo Pires do Vale, a exposição interroga conceptualmente a prática de mostrar a vida através do ato de fazer uma exposição. Mais de 32 mil pessoas já visitaram a exposição, que mostra alguns dos mais importantes momentos da vida de Calouste Gulbenkian. É importante salientar que, tanto quanto sabemos, esta é a primeira exposição na Fundação legendada em três línguas, incluindo o arménio, a par do português e do inglês.

No âmbito das celebrações dos 150 anos, foi organizada outra exposição pelo Museu Calouste Gulbenkian, bem como conferências e seminários, que tinham por base a vasta coleção de arte do Fundador. “O Gosto pela Arte Islâmica” (1869-1939) destacou-se pela beleza das suas peças e pela abordagem original na interpretação. Tendo Jessica Hallet como curadora, a exposição focou-se no fascínio europeu e pelo orientalismo de Gulbenkian, analisando a sua rede de negociantes de arte e antiguidades através dos quais adquiriu peças para a sua coleção, sendo que um quarto deles eram arménios. A exposição questionava-se também sobre o que significa “Arte islâmica” e incluía peças arménias e cristãs provenientes do mundo islâmico.

Uma série de concertos organizados pelo Serviço de Música da Fundação trouxeram sonoridades arménias ao palco da Gulbenkian, com muitos músicos conceituados. O Requiem de Tigran Mansurian comoveu-nos quando foi tocado em abril pelo Coro e Orquestra Gulbenkian. O Trio Dellalian e a Lisbon Chamber Ensemble também interpretaram, em abril, algumas das suas obras. O próprio Mansurian, que celebra este ano o seu octogésimo aniversário, encantou-nos ao explicar a complexidade da música arménia numa entrevista para uma plateia cheia de amantes de música. Em setembro, os Gurdjieff Ensemble, juntamente com o quarteto Hewar, e a pianista Lusine Grigoryan, presentearam-nos com a sua música. Em setembro e novembro, a famosa pianista portuguesa, Maria João Pires atuou em dois concertos com música e músicos Arménios; Talar Dekrmanjian (soprano) e Lilit Grigoryan (piano). Ainda em novembro, Tigran Hamasyan cativou-nos com o seu piano e jazz. Em dezembro, para encerrar as celebrações dos 150 anos, dois concertos intimistas do Trio Aeternus e Trio Dellalian decorreram dentro da exposição dedicada à vida de Calouste Gulbenkian.

Fora da Fundação, foi apoiado um concerto da Orquestra Consonância dedicado à música arménia e organizado pela Associação de Amizade Portugal-Arménia no Palácio da Vila de Sintra. O concerto incluiu obras do grande maestro Arménio Grigor Arakelian, que conduziu os músicos e tocou “viola Arménia”.

A música de Gomidas não foi esquecida, tendo sido tocada em praticamente todos os concertos. A sua música está interligada com a vida de Calouste Gulbenkian. Dois arménios, nascidos no Império Otomano durante o mesmo ano, que não podiam ter tido vidas mais diferentes: um morreu num hospital psiquiátrico em França, incapaz de suportar o trauma do genocídio, enquanto o outro morreu como o homem mais rico do mundo por causa dos seus interesses petrolíferos no então Império Otomano (e subsequentemente no Iraque).

Calouste Gulbenkian envolveu-se na filantropia ao longo da sua vida, em causas de várias naturezas. De facto, antes do seu nascimento, o seu clã, uma das famílias amira de Constantinopla (com raízes em Talas), era conhecido por ajudar a comunidade. Calouste Gulbenkian continuou esta tradição filantrópica, por exemplo, no apoio aos refugiados arménios nos anos 1920 e na construção da igreja de São Sarkis, em Londres; ao mesmo tempo, no fim da sua vida modernizou esta tradição, afastando-se de uma lógica de doação para uma abordagem mais orientada para resultados. Gulbenkian deixou praticamente toda a sua fortuna para a criação de uma fundação com o seu nome, que contribuiria para o Bem da Humanidade através das artes, educação, ciência e caridade.

O 150º aniversário do seu nascimento proporcionou uma oportunidade única para repensar o papel das fundações e das doações filantrópicas no século XXI. Em setembro, organizámos uma conferência internacional denominada “As Novas Tendências da Filantropia”. Foram convidadas as maiores fundações europeias, e algumas americanas, para debater os atuais desafios e oportunidades das fundações. O seu impacto (e como podemos medi-lo) surgiu frequentemente, bem como a necessidade de adaptar e repensar os programas e iniciativas à luz dos novos desafios globais, a importância crucial do planeamento a longo prazo e como ser agente de mudanças positivas.

Todos os anos, no dia 20 de julho – dia da morte de Gulbenkian -, a Fundação celebra o “Dia Calouste Gulbenkian” com uma cerimónia solene de colocação de coroas de flores e uma missa na Igreja de Fátima. Este ano, na cerimónia realizada a 19 de julho, a missa foi ecuménica (católica e apostólica), com a participação de Khajag Srpazan na sua segunda visita à Fundação. O Dia do Fundador incluiu também a entrega dos prémios Gulbenkian anuais, em particular, o Prémio Calouste Gulbenkian de Direitos Humanos. Em 2019, o vencedor foi o escritor e pedagogo libanês Amin Maalouf.

No Dia Calouste Gulbenkian, lançámos o segundo livro do ano, as cartas de Calouste Gulbenkian para o seu único neto, Mikael Essayan (que ele parecia estar a preparar como seu sucessor): “A Educação do Delfim: Cartas de Calouste Gulbenkian a seu neto”. Enquanto o jovem Mikael estudava no colégio interno de Harrow, perto de Londres, no início dos anos 40, o seu avô, em Lisboa, assumia o controlo da sua educação, uma vez que os pais de Mikael se encontravam retidos na França ocupada pelos nazis. O resultado final é uma correspondência notável entre um avô e o seu neto – um avô que se preocupa profundamente, mas que quer controlar todos os aspetos da vida do seu neto.

A correspondência, guardada nos arquivos da Fundação, contem inúmeros conselhos e reflete o pensamento de Gulbenkian. As cartas são o mais próximo que podemos chegar da compreensão dos pensamentos e crenças do Sr. 5%, através da forma como transmite os seus valores e toma decisões sobre assuntos importantes ou mundanos da vida de seu “Dauphin”. O livro contém uma carta particularmente interessante para os arménios, nela Gulbenkian castiga fortemente o seu neto por considerar converter-se à Igreja Anglicana.

Existem muitas ” frases citáveis” nas cartas. Aqui estão dois exemplos:

“ (…) nada me desagrada mais do que a soberba e a vaidade(…). A minha longa experiência pessoal diz-me que quem sofra de semelhantes fraquezas de caráter não vai longe na vida e, regra geral, não alcança lugares de relevo na comunidade”.

“ Nunca deve correr atrás do dinheiro, uma vez que, com atitude construtiva e perseverante, perceberá mais tarde que, em vez de correr atras do dinheiro, o dinheiro correrá atrás de si”.

O lançamento do livro foi um evento singular e jovial, contando com uma mesa-redonda com alguns vencedores do concurso “Quem é Calouste?” e Martin Essayan, filho de Mikael Essayan e bisneto de Calouste Gulbenkian, membro do Conselho de Administração da Fundação e responsável pelo Departamento das Comunidades Arménias. Vários funcionários foram convidados a ler excertos durante o lançamento.

Ao longo de 2019, muitos foram os eventos no âmbito dos 150 anos do nascimento do Fundador. Em abril, o presidente Arménio Armen Sarkissian visitou a Fundação, sendo recebido pela presidente da Fundação e vários membros do Conselho. O mais recente embaixador Arménio nomeado para Portugal, Garen Nazarian visitou-nos em dezembro, acompanhado pela sua esposa Nana, e esteve presente num dos concertos de encerramento das celebrações deste ano. Durante o ano, vários ilustres convidados e líderes das comunidades visitaram a Fundação e o Departamento das Comunidades Arménias.

No jardim da Fundação foram instaladas estruturas denominadas “ pontos de reflexão” com citações do Fundador sobre a natureza, uma vez que Calouste Gulbenkian era um grande admirador da natureza, o que parece uma ironia dado que o petróleo era o seu negócio principal. No museu, foi representada uma peça de teatro destinada a crianças intitulada “ O homem das mil moradas”. Com o nosso apoio, a Cinemateca Portuguesa organizou um ciclo retrospetivo da obra do grande realizador arménio Artavazd Pelechian, contando com a sua presença durante as sessões.

Organizámos o lançamento da biografia de Gulbenkian em Londres, em fevereiro, e em Paris, em março, e financiamos a tour de Jonathan Conlin pelos Estados Unidos da América para promoção do livro. Atribuímos ainda uma bolsa que ajudou a arquivista Emma Hovseptyan e o Arquivo Nacional da Arménia na publicação do livro Dohmig Parerare –“ O nobre Benfeitor”, em arménio, que contem alguma correspondência sobre questões arménias que se encontravam nos arquivos da Fundação. Por fim, um grupo de funcionários portugueses da Fundação visitaram a Arménia pela primeira vez e regressaram com boas memórias.

A cobertura da imprensa portuguesa foi considerável ao longo do ano, tendo sido recentemente publicado um extenso artigo sobre o jovem Gulbenkian no jornal Expresso.

O nosso ano de comemorações em Portugal termina formalmente a 31 de dezembro de 2019, com o encerramento da exposição “Calouste: Uma vida, não uma exposição”. Empenhamo-nos em mostrar o génio de Calouste Sarkis Gulbenkian, o seu impacto no mundo e os seus sucessos, a sua cultura arménia e o seu caráter complexo. Concentramo-nos menos na sua riqueza material e mais nos seus valores e no seu legado. Meio século antes de Bill Gates, Gulbenkian queria que a sua fortuna fosse utilizada para concretizar uma visão internacional de paz e prosperidade – isto é, tornar o mundo num lugar melhor. Estar à frente do seu tempo parecia ser o lema do Sr. Gulbenkian.

Em março de 2020, antes do seu aniversário, iremos financiar um concerto e uma conferência em Erevan para encerrar as celebrações, em definitivo.

Fiquei sensibilizado pela presidente da Fundação, Dra. Isabel Mota, juntamente com o Sr. Martin Essayan, me terem incumbido da coordenação geral das comemorações dos 150 anos do nascimento do nosso Fundador, juntamente com uma pequena equipa de colegas empenhados.

Organizar e coordenar todos os eventos ocupou uma parte considerável do meu tempo. No entanto, o Departamento das Comunidades Arménias continuou a desenvolver os seus programas na Diáspora e na Arménia, através de apoio educacional, publicações, Zarmanazan, programas de revitalização do Arménio Ocidental, o primeiro inquérito à Diáspora Arménia, bolsas de estudos universitárias, bolsas para instituições, financiamento académico para estudos arménios e muitas outras iniciativas.

Falaremos muito mais sobre estes programas no novo ano, apresentando ao mundo arménio as conquistas do nosso plano a cinco anos em vigor e os nossos planos para os próximos cinco anos. 2020 será um ano marcado por uma comunicação mais próxima!