Quatuor Danel

Festival dos Quartetos de Cordas 2022

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Em parceria com a Biennale de Quatuors a Cordes de la Philharmonie de Paris, pela terceira vez na programação da Gulbenkian Música este momento musical único junta seis notáveis quartetos de cordas da atualidade num intenso festival de música de câmara de dois dias. Na temporada 2021/22, os quartetos de cordas Casals, Tejo, Jerusalem, Borusan, Marmen e Danel interpretarão uma ampla mostra do repertório para esta formação instrumental, desde J. Haydn até obras contemporâneas, com destaque para a estreia absoluta de uma nova obra do compositor português Nuno Costa, encomendada pela Fundação Gulbenkian. Uma excelente oportunidade de introdução ao género e também o momento em que cada um poderá ouvir novas interpretações de obras marcantes do repertório de câmara ou descobrir peças menos conhecidas e de mais rara possibilidade de audição.


Programa

Quatuor Danel
Marc Danel Violino
Gilles Millet Violino
Vlad Bogdanas Viola
Yovan Markovitch Violoncelo

Johannes Brahms (1833 – 1897)
Quarteto para Cordas n.º 2, em Lá menor, op. 51 n.º 2
1. Allegro non troppo
2. Andante moderato
3. Quasi minuetto, moderato
4. Finale: Allegro non assai

Composição: 1873
Estreia: Berlim, 18 de outubro de 1875
Duração: c. 35 min.

No domínio do quarteto para cordas, Johannes Brahms deixou três exemplos magistrais, os dois Quartetos op. 51, a que se junta o derradeiro Quarteto em Si bemol maior, op.67, numa época em que o compositor tomava plena consciência do papel decisivo que exercia como continuador legítimo da valorosa tradição austro-germânica de Joseph Haydn, Wolfgang Amadeus Mozart e Ludwig van Beethoven. Foi, pois, ciente desta responsabilidade que Brahms empreendeu a composição dos dois quartetos para cordas op. 51, no início de 1850, altura em que travou conhecimento com o casal Robert e Clara Schumann e passou a frequentar a sua residência. Desde logo, o jovem músico procurou consolidar uma linguagem idiomática que tivesse a ver com os modelos herdados da escola de Viena, mas que projetasse, igualmente, os seus anseios expressivos. O resultado deste esforço sobreveio em 1873, dezassete anos após a morte de Robert Schumann. No verão desse mesmo ano, Brahms reuniu-se com Clara Schumann para assistir à primeira execução das duas obras, em privado, tendo os dois intérpretes encerrado o evento, tocando a versão para piano a quatro mãos das recém-concluídas Variações sobre um tema de Haydn. A estreia do Quarteto n.º 2 ocorreu em Berlim, a 18 de outubro de 1875, pelo eminente Joachim Quartet, formação liderada pelo grande amigo de Brahms, o violinista de origem húngara Joseph Joachim.

Tal como o primeiro andamento do Quarteto n.º 1, o Allegro introdutório baseia-se numa exposição de sonata com três temas distintos e promove a mesma atmosfera introspetiva, acentuada por expedientes de escrita rigorosos, como é o caso da fuga. No segundo andamento, Andante moderato, Brahms recupera o encanto intimista das páginas de câmara de Schubert, presente nas duas secções extremas. A secção central introduz um momento de dramatismo, com as suas dissonâncias e gestos arrebatados de dinâmica. O andamento seguinte, Quasi minueto, moderato, evoca uma dimensão poética envolta nalgum lirismo, mas agitada por ligeiras vacilações que mostram bem a personalidade emotiva do seu autor. No andamento final, Allegro non assai, o violoncelo assume um papel sem precedentes, resgatando o tema principal ao primeiro violino e expondo-o em toda a sua verve heroica, na afirmação inequívoca de um tópico caro ao Romantismo.

Rui Cabral Lopes

 

Claude Debussy (1862 – 1918)
Quarteto para Cordas em Sol menor, op. 10
1. Animé et très décidé
2. Assez vif et bien rythmé
3. Andantino, doucement expressif
4. Très modéré

Composição: 1893
Estreia: Paris, 29 de dezembro de 1893
Duração: c. 27 min.

Marco da plenitude artística de Claude Debussy, o Quarteto para Cordas em Sol menor faz parte de um legado de câmara restrito, mas com grande valia estética e estilística, complementado com as três sonatas para diferentes formações instrumentais, entre outras obras de menor escala.

O tema principal do primeiro andamento ilustra bem o exotismo de Debussy. A linha melódica apoia-se numa estrutura rítmica forte e delineada, assente na transposição do modo gregoriano autêntico de Mi. Após um interlúdio de natureza pentatónica, o tema principal vem a ser exposto de novo, desta vez ladeado por uma ideia melódica secundária que conduz a textura, em crescendo, a uma nota pedal. O segundo tema emerge então, doux et expressif, apresentado alternadamente pelo primeiro violino e pelo violoncelo. Este componente temático virá a dominar a secção de desenvolvimento, até atingir um clímax de intensidade. Depois da recapitulação abreviada, tem lugar uma brilhante coda imitativa, Très animé.

O segundo andamento, na tonalidade homónima de Sol maior, é um scherzo dotado de trio central, no seio do qual abundam os pizzicati virtuosísticos. O tema principal do primeiro andamento é anunciado pela viola e logo depois retomado pelo primeiro violino. Este mesmo tema, entendido como célula cíclica, transforma-se na base de composição do trio, em Mi bemol maior, sendo então sujeito a um tratamento em valores rítmicos longos. Tanto a secção inicial como o trio são retomados e ligeiramente variados, antes de a coda encerrar o andamento.

A atmosfera romântica de um noturno domina o terceiro andamento. Os instrumentos empregam a surdina para enunciarem um discurso musical de natureza poética e reflexiva, avivado pelos efeitos tímbricos de grande originalidade. Na secção central, tocada sem surdinas, a viola enuncia o tema cíclico do quarteto, na tonalidade distante de Sol sustenido menor, sendo depois a vez da intervenção apaixonada do primeiro violino.

O tema principal do primeiro andamento regressa à textura no andamento final, em Ré bemol maior, sendo sujeito a novas e imaginativas mutações. A sensação do encontro e reencontro de motivos resulta da manipulação ardilosa do princípio da construção cíclica da textura. A tonalidade de Sol menor sustenta a secção de desenvolvimento, caracterizada pela sucessão de diversas secções contrastantes e pela presença de um característico ostinato rítmico em tercinas. A secção final do desenvolvimento opõe ainda o tema cíclico a uma das suas variantes, por recurso ao processo contrapontístico da aumentação. O andamento encerra com uma coda luminosa, na tonalidade de Sol maior.

Rui Cabral Lopes

 

Intervalo (15 min.)

 

Dmitri Chostakovitch (1906 – 1975)
Quarteto para Cordas n.º 2, em Lá maior, op. 68
1. Abertura: Moderato con moto
2. Recitativo e Romance: Adagio
3. Valsa: Allegro
4. Tema com variações: Adagio

Composição: 1944
Estreia: Leninegrado, 14 de novembro de 1944
Duração: c. 36 min.

Dmitri Chostakovitch compôs o Quarteto n.º 2, op. 68, em 1944, em apenas 19 dias. Composta na sequência da vitória soviética sobre a Alemanha nazi, esta obra de fôlego sinfónico reflete, no entanto, pouco do contexto de guerra e da destruição que se vivia, representando antes uma resposta patriótica, com as suas alusões à música tradicional russa. A obra encerra ainda vários elementos que remetem para a música judaica, com o que o compositor expressou simbolicamente a sua oposição ao antissemitismo crescente na União Soviética. Este quarteto constitui, assim, um grande contraste com o n.º 1, op. 49, pela sua maior envergadura e consistência.

O primeiro andamento, Abertura: Moderato con moto, é exemplo desse vigor, com um tema triunfante e outro nervoso, que depois se torna estridente. Na reexposição os temas surgem na ordem inversa. O Recitativo e Romance: Adagio inclui o primeiro exemplo de um recitativo nos seus quartetos, uma técnica de grande poder expressivo, representativa do seu instinto dramático. O terceiro andamento, Valsa: Allegro, em Mi bemol menor, é uma dança rápida e inquieta, num tom ameaçador e perturbante. O ambiente é em geral fantasmagórico e misterioso, com alguns momentos de maior agitação. O Tema e Variações final inicia-se com uma breve introdução, surgindo em seguida um tema de cariz folclórico russo, que é explorado em 13 variações ambiciosas. Há um efeito de excitação crescente, devido à aceleração progressiva do tempo, encerrando o andamento com o retorno da introdução lenta.


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