Jerusalem Quartet

Festival dos Quartetos de Cordas

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Em parceria com a Biennale de Quatuors a Cordes de la Philharmonie de Paris, pela terceira vez na programação da Gulbenkian Música este momento musical único junta seis notáveis quartetos de cordas da atualidade num intenso festival de música de câmara de dois dias. Na temporada 2021/22, os quartetos de cordas Casals, Tejo, Jerusalem, Borusan, Marmen e Danel interpretarão uma ampla mostra do repertório para esta formação instrumental, desde J. Haydn até obras contemporâneas, com destaque para a estreia absoluta de uma nova obra do compositor português Nuno Costa, encomendada pela Fundação Gulbenkian. Uma excelente oportunidade de introdução ao género e também o momento em que cada um poderá ouvir novas interpretações de obras marcantes do repertório de câmara ou descobrir peças menos conhecidas e de mais rara possibilidade de audição.


Programa

Jerusalem Quartet
Alexander Pavlovsky Violino
Sergei Bresler Violino
Ori KamViola
Kyril Zlotnikov Violoncelo

Ludwig van Beethoven (1770 – 1827)
Quarteto para Cordas n.º 1, em Fá maior, op. 18, n.º 1
1. Allegro con brio
2. Adagio affettuoso ed appassionato
3. Scherzo: Allegro molto
4. Allegro

Composição: 1799
Duração: c. 28 min.

Pertencente à primeira série de quartetos para cordas de Beethoven, o Quarteto op. 18 n.º 1 foi, na realidade o segundo a ter sido concluído, logo após o pioneiro Quarteto em Ré maior, colocado em terceiro lugar na edição de Mollo. Embora datado de junho de 1799, o autógrafo foi objeto de extensas revisões, na origem da segunda versão do quarteto, esta concluída a tempo de ser integrada na referida edição e assim figurar como versão definitiva, a par com os restantes cinco quartetos dedicados ao príncipe Lobkowitz.

O tema inicial do Allegro con brio evoca, a princípio, um ambiente bucólico, despreocupado e alegre, mas é depois sujeito a uma série de transformações que lhe imprimem um caráter acentuadamente dramático, somente dissipado na recapitulação. Do Adagio affettuoso ed apassionato desprende-se um pathos profundamente pessoal, como se Beethoven quisesse antecipar a direção tendencialmente introspetiva que viria a orientar o seu sentido criativo de plena maturidade. A partitura prossegue com um Scherzo audaz, marcado por um motivo incisivo inspirado no tema do primeiro andamento, a que se segue o prolongado Allegro final, moldado na forma de rondó-sonata e muito prolixo em ideias musicais, assim como em combinações tímbricas dos quatro instrumentos.

Rui Cabral Lopes

 

Dmitri Chostakovitch (1906 – 1975)
Quarteto para Cordas n.º 8, em Dó menor, op. 110
1. Largo –
2. Allegro molto –
3. Allegretto –
4. Largo –
5. Largo

Composição: 1960
Estreia: Leninegrado, 2 de outubro de 1960
Duração: c. 22 min.

O Quarteto nº 8, op. 110, o mais popular de todos os quartetos para cordas de Chostakovitch, foi composto em 1960, em três dias, durante uma visita a Dresden, uma experiência que o fez recordar as vítimas do fascismo e da guerra, a quem dedicou a obra. No entanto, o quarteto está também saturado de referências ao próprio compositor, nomeadamente através de autocitações e do uso recorrente do motivo DSCH (na notação musical alemã: Ré, Mi bemol, Dó, Si natural), com o qual pretendia representar-se a si mesmo, o que sugere que a obra continha também um significado íntimo. Trata-se de uma música trágica e austera, que evoca sentimentos obscuros e melancólicos, assumindo uma posição única na sua produção, devido ao seu conteúdo programático e autobiográfico.

O Largo inicia-se de forma lamentosa, com o motivo DSCH tratado de forma canónica, o que conduz a uma elegia calma e contemplativa. Esta intemporalidade é interrompida pelo Allegro molto seguinte, que retrata de forma selvagem e impiedosa a brutalidade da guerra. O motivo DSCH surge aqui em velocidades diversas, por vezes como acompanhamento de si próprio. Já no Allegretto assume a aparência de uma sardónica e bem-humorada melodia de valsa. Com o Largo seguinte, o compositor terá pretendido evocar um bombardeamento aéreo. Depois de um bordão que sustenta o clímax emocional da obra, há uma referência ao Dies irae e os três instrumentos mais graves entoam solenemente a melodia de um hino fúnebre russo. O Largo final baseia-se em material exposto no início, atingindo o desespero antes de se dissipar com dignidade num silêncio paralisado.

Luís M. Santos

 

Intervalo (15 min.)

 

Antonín Dvořák (1841 – 1904)
Quarteto para Cordas n.º 12, em Fá maior, op. 96, “Quarteto Americano”
1. Allegro ma non troppo
2. Lento
3. Molto vivace
4. Finale: Vivace ma non troppo

Composição: 1893
Estreia: Boston, 1 de janeiro de 1894
Duração: c. 25 min.

A composição de quartetos para cordas pontua quase toda a carreira criativa do compositor checo Antonín Dvořák, com a exceção da sua última fase, dedicada predominantemente ao cultivo da ópera. A partitura mais célebre deste legado de câmara é, sem dúvida, o Quarteto para Cordas n.º 12, em Fá maior, op. 96, dito “Americano”, obra composta durante o período em que o compositor assumiu a direção artística do National Conservatory of Music, em Nova Iorque. A obra foi escrita em apenas quinze dias, entre 8 e 23 de junho de 1893, pouco antes do Quinteto para Cordas, em Mi bemol maior, op. 97. Dvořák encontrava-se então de visita à paróquia de Spilville, pequena cidade norte-americana situada no estado do Iowa. Por intermédio do regente do coro local, que era pai de um jovem violinista checo a quem pedira a colaboração como secretário e assistente, Dvořák teve a oportunidade de contactar com a comunidade imigrante checoslovaca, junto da qual reconheceu as suas próprias raízes boémias. Por outro lado, o compositor abordou, no curso da sua visita, os rituais musicais de oração e festa próprios da comunidade afro-americana, que eram para ele inteiramente desconhecidos.

São diversos os elementos de contorno étnico empregues por Dvořák, desde logo no primeiro andamento, Allegro ma non troppo. A escala pentatónica, típica do folclore nativo, serve de base quer ao primeiro, quer ao segundo tema da exposição. No segundo andamento, Lento, ressalta o caráter nostálgico e evocativo da melodia principal, entoada pelo primeiro violino, sobre o acompanhamento do segundo violino, da viola e do violoncelo. O enquadramento modal da melodia remete, também ele, para algum tipo de canção de embalar, eventual reminiscência dos anos de infância. Segue-se um animado Molto vivace, cujo tema único imita parcialmente o canto do rouxinol local. No andamento final, Vivace ma non troppo, Dvořák estiliza os elementos percussivos de uma dança tradicional dos índios da região, na parte de acompanhamento. Na secção central, Meno mosso, é o violoncelo que se destaca, entoando um breve canto solene. A secção final do andamento é preenchida pela agitação contrapontística dos participantes, rumo ao epílogo trazido pela coda, em ambiente de exaltação e alegria.

Rui Cabral Lopes


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