Marmen Quartet

Festival dos Quartetos de Cordas 2022

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Em parceria com a Biennale de Quatuors a Cordes de la Philharmonie de Paris, pela terceira vez na programação da Gulbenkian Música este momento musical único junta seis notáveis quartetos de cordas da atualidade num intenso festival de música de câmara de dois dias. Na temporada 2021/22, os quartetos de cordas Casals, Tejo, Jerusalem, Borusan, Marmen e Danel interpretarão uma ampla mostra do repertório para esta formação instrumental, desde J. Haydn até obras contemporâneas, com destaque para a estreia absoluta de uma nova obra do compositor português Nuno Costa, encomendada pela Fundação Gulbenkian. Uma excelente oportunidade de introdução ao género e também o momento em que cada um poderá ouvir novas interpretações de obras marcantes do repertório de câmara ou descobrir peças menos conhecidas e de mais rara possibilidade de audição.


Programa

Marmen Quartet
Johannes Marmen Violino
Laia Braun Violino
Bryony Gibson-Cornish Viola
Sinéad O’Halloran Violoncelo

Joseph Haydn (1732 – 1809)
Quarteto para Cordas n.º 50, em Si bemol maior, op. 64 n.º 3
1. Vivace assai
2. Adagio
3. Menuetto: Allegretto
4. Finale: Allegro con spirito

Composição: 1790
Duração: c. 24 min.

Este recital apresenta quartetos para cordas de séculos diferentes. Do Classicismo tardio ao pós-Segunda Guerra Mundial, reflete a variedade de um género maior da música de câmara. Joseph Haydn é, frequentemente, considerado o “pai” do quarteto para cordas. Com ele, essas obras ultrapassaram a barreira da domesticidade e direcionaram-se para as apresentações públicas. O Quarteto para Cordas em Si bemol maior, op. 64 n.º 3, foi escrito num momento de viragem na vida do compositor. Integrando uma série de seis quartetos terminada em 1790, incorpora elementos estilísticos marcantes. Nesse ano, o Príncipe Nikolaus I de Esterházy, o melómano e empregador de Haydn durante várias décadas, faleceu. O seu sucessor reduziu o efetivo musical da corte, o que possibilitou a Haydn viajar pela Europa num clima de grande reconhecimento.

O Quarteto para Cordas n.º 50 tem início com um andamento vivo em forma sonata, em que dois grupos temáticos contrastantes são apresentados, desenvolvidos e reexpostos. O primeiro dos mesmos caracteriza-se pela leveza, verticalidade e sobreposição de motivos. O segundo privilegia a melodia, apresentada sobre as figurações do baixo de Alberti. O caráter instável e os jogos de pergunta-resposta preparam o desenvolvimento, dominado pelo primeiro grupo temático. A tensão e a intensidade dramática da secção desembocam numa reexposição viva. O lirismo contemplativo sobressai no Adagio, no qual Haydn apresenta mudanças abruptas de tonalidade, surpreendendo o ouvinte. O dramatismo, intensificado pela repetição, pontifica na segunda secção, que atribui primazia ao primeiro violino. O retorno à atmosfera inicial prepara o andamento seguinte. No minueto, uma dança rústica é conduzida pelo primeiro violino numa textura em que as acentuações são variadas frequentemente. O contexto rural é sublinhado por motivos que evocam as trompas e a sanfona. O quarteto termina com um andamento cinético baseado num refrão que atravessa várias tonalidades e é interpolado por secções contrastantes. As mudanças abruptas de direção e velocidade enfatizam o contraste, intensificado pela sincopação. Após uma curta passagem lenta e suspensiva, a narrativa regressa à vivacidade, terminando o andamento de forma explosiva.

João Silva

 

György Ligeti (1923 – 2006)
Quarteto para Cordas n.º 1, Métamorphoses nocturnes

Composição: 1953-1954
Estreia: Viena, 8 de maio de 1958

Duração: c. 21 min.

O Quarteto para Cordas n.º 1, Métamorphoses nocturnes, foi composto num período de viragem no percurso do seu compositor. Escrito entre 1953 e 1954, Ligeti reviu-o em 1958 e este foi apresentado em Viena a 8 de maio desse ano, pelo Quarteto Ramor. Entre a escrita e a revisão deu-se a Revolução Húngara de 1956, contra o domínio soviético. O esmagamento violento da revolta abriu feridas profundas na psique húngara. Ligeti, então professor na Academia Liszt, em Budapeste, saiu do país e fixou-se em Viena. Nos anos de transição, misturou elementos do modernismo húngaro com as novas correntes vanguardistas germânicas.

Métamorphoses nocturnes é baseado na transformação de elementos geradores, por vezes recriando atmosferas dissonantes associadas à “música noturna,” associada a Bartók. A variação constante de motivos angulares sobrepostos a escalas cromáticas lança a obra, onde pontificam a dissonância e o contraponto. A percussividade e a vitalidade rítmica de alguns momentos contrastam com o melodismo. Ligeti apresenta-se como um grande manipulador de texturas, explorando técnicas de micropolifonia e de ressonância estática, encarnadas pela sobreposição dissonante de motivos. A irregularidade rítmica contrasta com passagens cantabile em atmosfera de lamento. O compositor estiliza uma valsa de forma distorcida, explora os portamenti e os harmónicos dos instrumentos numa trama complexa em que o quarteto interage de forma intensa, conduzindo a obra a um final etéreo e suspensivo.

João Silva

 

Intervalo (15 min.)

 

Salina Fisher (n. 1993)
Heal

Composição: 2020
Estreia: Berlim, 22 de setembro 2021
Duração: c. 8 min.

Compositora neozelandesa sediada em Wellington, Salina Fisher é uma autora premiada, cujas obras têm vindo a ser interpretadas regularmente a nível internacional, em palcos como ISCM World Music Days, Melbourne Recital Centre, Walt Disney Concert Hall ou The Kennedy Center. A sua música evocativa retira influências da sua herança japonesa, bem como do seu fascínio pelo mundo natural. Tendo também formação como violinista, Salina Fisher procura o lirismo através do uso de timbres invulgares e de tonalidades estendidas, demonstrando uma grande sensibilidade para o detalhe e para o gesto. Particularmente interessada em colaborar com músicos de diferentes origens, trabalhou com instrumentistas de taonga pūoro (instrumentos musicais tradicionais do povo maori da Nova Zelândia) e também com instrumentistas japoneses.

A obra Heal surge no seguimento de três obras anteriores para quarteto de cordas: Silhouettes (2009), Ventus (2011) e Tōrino (2016). Em Heal, a compositora prossegue a sua original abordagem do género, pertencendo esta peça a uma coleção de obras que escreveu como compositora em residência na New Zealand School of Music durante o confinamento pandémico. A este período fazem referência não só o título, mas também um discurso musical expectante. A obra é dedicada à memória de Ian Vincent Lyons (1970-2015), um reconhecido violoncelista e luthier neozelandês que desenvolveu a sua atividade em Wellington.

salinafisher.com

 

Johannes Brahms (1833 – 1897)
Quarteto para Cordas n.º 1, em Dó menor, op. 51 n.º 1
1. Allegro
2. Romanze: Poco adagio
3. Allegretto molto moderato e comodo
4. Allegro

Composição: 1873
Duração: c. 32 min.

A influência de Beethoven em Johannes Brahms é notória e assumida. O Quarteto para Cordas n.º 1, em Dó menor, op. 51 n.º 1, foi escrito no auge da fama do compositor, quando este era uma referência musical em Viena. Iniciado na década de 1860 e terminado no verão de 1873, reflete o interesse renovado de Brahms pelos géneros de câmara. Dedicados ao médico e amigo Theodor Billroth, os quartetos do op. 51 são dominados pela densidade musical e concisão formal.

O primeiro andamento do p. 51 n.º 1 encontra-se em forma sonata, na qual o primeiro grupo temático se baseia na repetição em ostinato de uma célula. O movimento e a tensão contrastam com o segundo grupo temático, dominado pelo lirismo cantabile. Após um desenvolvimento marcado pelo ostinato, os temas são reexpostos.

A Romanze é um momento íntimo que reflete a domesticidade romântica. A estabilidade dinâmica permite focar o ouvinte na melodia, sublinhada pelo percurso harmónico. O andamento caracteriza-se pela regularidade, contendo um segundo tema cujo ritmo se assemelha aos batimentos cardíacos.

O primeiro violino conduz o Allegretto molto moderato e comodo, andamento em forma tripartida marcado pela ambiguidade tonal e pela escuridão dos timbres. O material melódico é permanentemente transformado, cedendo lugar a uma secção intermédia contrastante, leve e regular.

O retorno ao ambiente inicial antecipa a agitação do final, Allegro, que recupera o élan do primeiro andamento com uma célula geradora semelhante. O dramatismo agitado é reforçado pelo contraponto e contrasta com a melodia luminosa do segundo grupo temático. Após o desenvolvimento e a reexposição, é lançada uma coda viva num final brilhante e virtuosístico.

João Silva


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