Ornamento e decoração: a década de 1920 em França e o Irão do século XIX
Quando Calouste Gulbenkian deixou o grande apartamento de Quai d’Orsay e passou a ocupar a mansão da Avenue d’Iéna era sua intenção transformar os seus espaços, adequando-os a uma nova vivência, tanto da sua família como da sua coleção.
No que respeita à segunda, a ordem encontrada para os objetos poderá parecer sem critério, mas isso explica-se através das próprias palavras de Gulbenkian, tantas vezes repetidas: «sou muito eclético… não sou um colecionador de épocas ou de séries». Ora a organização da coleção na casa que escolheu para a acolher parece privilegiar sentidos que contrariam o «arrumo» do Museu, esses sim tradicionalmente preocupados com uma organização geográfica, temporal, serial, tipológica… Para isso terá também contribuído o apoio do arquiteto Emmanuel Pontremoli e do decorador Adrien Karbowsky, que ajudaram a dar forma ao pensamento de Gulbenkian e ao seu gosto pelo decorativo.
Na exposição Linhas do Tempo, esse gosto assoma no diálogo que a natureza ornamental dos objetos propicia. Veja-se o biombo e os batentes de porta, habitualmente em reserva, que parecem não ter lugar na lógica expositiva do Museu. Une-os a técnica da laca, de tradição milenar, que encontra no período Déco, um revivalismo feliz, atualizando a sua expressão decorativa, como no exemplo do biombo de Dunand, que utiliza animais e plantas de grande realismo e qualidade formal. Nesse mesmo período, Gulbenkian está atento a objetos provenientes de longitudes distantes, como o Irão, adquirindo os batentes de porta presentes na exposição. A riqueza decorativa de matriz naturalista e a mestria da sua execução são valores que justificam plenamente as opções de Gulbenkian, para quem a arte da laca exercia tanto fascínio, independentemente da época ou do centro de produção em que foram executados.
João Carvalho Dias, curador
The Lalique drawings make more than one connection. We placed them at the later end of the exhibition because they were only bought recently. Just as with some of the works at the other end of the show, especially the paintings, which were bought at around the same time, even though they are years apart, here at this end we have things bought with the eye of the present.
The founder’s collection is usually described as closed, but that is not 100% the case. If relevant material, relating to that which is already in the collection, becomes available, it may very occasionally be bought. This was the case with these studies by Lalique, which relate very closely to pieces on show in the museum. They were bought around the same time as the drawings by Alexandre Conefrey, and the reason to put them together is less about the dating than about the way they use nature on the page. Lalique was tremendously inspired by the way plants grow, and often used their shape and structure as a basis for his own creations. Lalique’s work is often based in symmetry, and even if Conefrey’s drawings are not quite so symmetrical, they too arrange the plant and its stalks across the page, marking out a kind of space which hints at the shallow space occupied by a plant, or by a piece of jewellery.
Penelope Curtis, curator