Vertumno e Pomona

Clara Serra escreve sobre a tapeçaria «Vertumno e Pomona», inspirada na obra «Metamorfoses», de Ovídeo.
Tapeçaria «Vertumno e Pomona» (pormenor), segundo cartões atribuídos a Pieter Coecke van Aelst (c. 1544). Bruxelas, 1548-1575. Museu Calouste Gulbenkian

Foram muitos os artistas do Renascimento que se inspiraram nos temas da mitologia clássica para a realização das suas obras. O impacto da obra do poeta romano Ovídio na produção artística renascentista é bem conhecido. A história de Vertumno e Pomona é descrita na sua obra Metamorfoses, na qual Vertumno, deus das estações do ano, tenta captar a atenção da sua amada, Pomona, deusa das árvores de fruto e jardins. Vertumno disfarça-se de variados personagens até conseguir conquistá-la. No caso presente, ele assume o papel de apanhador de frutos e, munido de uma escada, caminha em direção a Pomona que, gesticulando, o tenta manter afastado. As duas figuras encontram-se num jardim luxuriante, rodeadas de cariátides e meninos que trepam às árvores e apanham frutos. A intensa atividade que se vive no jardim contrasta com a tensão do olhar que se estabelece entre as duas personagens principais.

Pieter Coecke van Aelst transpôs esta história para cartões de tapeçaria de uma forma admirável, criando uma nova linguagem visual onde jardins panorâmicos, decorados com elementos de arquitetura clássica, encerram uma atmosfera de uma certa magia e intemporalidade. Trata-se de uma narrativa romântica, de verdadeiro empenhamento na conquista amorosa e talvez por isso estas tapeçarias tenham sido tão apreciadas na época. Os seus cartões foram utilizados várias vezes para se tecerem novas séries.

 

Vertumno. Tapeçaria «Vertumno e Pomona» (pormenor), segundo cartões atribuídos a Pieter Coecke van Aelst (c. 1544). Bruxelas, 1548-1575. Museu Calouste Gulbenkian
Pomona. Tapeçaria «Vertumno e Pomona» (pormenor), segundo cartões atribuídos a Pieter Coecke van Aelst (c. 1544). Bruxelas, 1548-1575. Museu Calouste Gulbenkian

 

São conhecidos três tipos de cercadura para estas tapeçarias quinhentistas que chegaram até nós. No caso presente, trata-se de uma barra larga decorada com cartelas, muito ao gosto da produção flamenga da época, apresentando ao centro uma inscrição latina. O fundo desta barra apresenta uma decoração engradada com padrão de inspiração mourisca. Na orla estão tecidas as marcas de Bruxelas e a do tapeceiro, que até à data permanece desconhecido. No entanto, dada a qualidade técnica do trabalho e a riqueza dos materiais, pensa-se que será um mestre tapeceiro de primeira linha.

A tapeçaria do Museu Gulbenkian é a quinta de uma armação (conjunto de tapeçarias) de nove, pertencendo as outras oito ao Kunsthistorisches Museum de Viena e anteriormente à coleção imperial austríaca. Foi adquirida pelo colecionador a 11 de fevereiro de 1938.

 

Clara Serra
Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 19 maio 2021

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