Arte e Arquitetura entre Lisboa e Bagdade

A Fundação Calouste Gulbenkian no Iraque, 1957-1973

Apresentando um vasto espólio, inédito e surpreendente, esta exposição revela a história quase desconhecida da intervenção da Fundação Calouste Gulbenkian no Iraque. Fotografias, vídeos e documentos originais dos Arquivos Gulbenkian e obras do raro núcleo de arte iraquiana do Museu Gulbenkian são expostos pela primeira vez.   

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Entre 1957 e 1973, a Fundação Calouste Gulbenkian participou ativamente no estabelecimento da infraestrutura cultural, educativa, científica e assistencial do Iraque contemporâneo, promovendo e apoiando a construção e equipamento de edifícios, a formação superior e a produção artística iraquiana.

A exposição apresenta documentos inéditos relativos a três realizações-chave em Bagdade – o Modern Arts Centre, o Estádio do Povo e a Semana Cultural Gulbenkian de 1966 – e obras do raro núcleo iraquiano da Coleção Moderna, pela primeira vez mostrado em conjunto. Esta é uma conversa entre desenvolvimento cultural e diplomacia económica, entre a arte e arquitetura iraquianas e portuguesas.

Projeto promovido pelo Museu Calouste Gulbenkian e pela Biblioteca de Arte e Arquivos Gulbenkian, com o apoio do Serviço de Bolsas.


Vídeos


Núcleos

O complexo desportivo inaugurado em Bagdade em 1966 e conhecido como Estádio Al-Sha’ab («do Povo») foi a pièce de résistance na estratégia montada pela Fundação Calouste Gulbenkian para alimentar o desenvolvimento cultural, educativo, assistencial e científico do Iraque. Este projeto beneficiou de experiências anteriores – o apoio crescente a iniciativas locais desde 1957 e, em especial, a concretização do Modern Arts Centre em 1962. Com um programa de escala e complexidade significativas, esta foi também a obra mais importante realizada pela Fundação, fora de Portugal, na década de 1960 – comparável, apenas, à construção da Sede e Museu em Lisboa.

Pela sua visibilidade e novidade, o complexo foi o elemento-chave da componente de relações públicas que acompanhou a «operação Gulbenkian» no país. A estrutura, intervenção direta da Fundação, que sobreviveu a mudanças de regime e governo, foi consistentemente apresentada como instrumental na construção de uma nova identidade nacional: a atividade física e o desporto desempenhariam um papel fundamental no quotidiano do novo cidadão iraquiano (republicano).

Vista da bancada descoberta do Estádio do Povo, Bagdade, c. 1965. Arquivos Gulbenkian.
Estádio do Povo, Bagdade. Estrutura das bancadas, pórtico P1 (projeto de execução), 1962. Tinta da China sobre papel vegetal. Arquivos Gulbenkian.
Vista da face posterior e acessos da bancada coberta do Estádio do Povo, Bagdade, c. 1966. Arquivos Gulbenkian

Entre 6 e 13 de novembro de 1966 decorreu em Bagdade a Semana Cultural Gulbenkian, organizada pela Fundação para assinalar a inauguração do complexo desportivo do Estádio do Povo na capital iraquiana. A Semana Cultural incluiu concertos da Orquestra de Câmara e Coro Gulbenkian e outras ações, como a apresentação no Modern Arts Centre, criado pela Fundação em 1962, de uma grande exposição de obras de arte portuguesas e internacionais. Estas peças dariam origem à Coleção Moderna e foram então reunidas pela primeira vez. A Semana Cultural foi, também, oportunidade para a Fundação adquirir um conjunto raro de obras de arte iraquiana, e para o aprofundamento de uma política de apoio à formação e produção de artistas locais. Ao estabelecimento da infraestrutura material juntava-se o fomento da criação artística.

Marcelino Vespeira (1925-2002). Cartaz original para a Semana Cultural promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian em Bagdade, 1966. Coleção Pedro Vespeira

Exhibition of Works of Contemporary Art belonging to the Calouste Gulbenkian Foundation foi a exposição que a Fundação organizou para apresentar no Modern Arts Centre (MAC) durante a Semana Cultural Gulbenkian, em 1966. Reuniu 70 obras: 51 pinturas, 6 desenhos e 13 gravuras de 48 artistas portugueses e de 22 artistas estrangeiros. As obras expostas em Bagdade tinham sido recentemente adquiridas pela Fundação. A exposição apresentada no primeiro piso do MAC esteve patente durante duas semanas e contou com o alto patrocínio do Ministério da Cultura e da Orientação do Iraque.

Uma seleção destas obras é apresentada na presente exposição, assim como na galeria dedicada à pintura da década de 1960, no edifício da Coleção Moderna.

Waldemar da Costa (1904-1982). «Composição em Azul», [1960]. Tinta acrílica sobre tela. Coleção Moderna, inv. PE36
Mary Martin (1907-1969). «Nove Grupos», 1964. Aço inoxidável, madeira pintada e fórmica. Coleção Moderna, inv. RE9
Ângelo de Sousa (1938-2011). «Ponte», 1964. Óleo e gesso sobre platex. Coleção Moderna, inv. 65P265

A ideia de apoiar a realização de um centro de arte moderna – equipamento inexistente em Bagdade –, como incentivo à produção artística contemporânea, ajustava-se à intenção da Fundação de financiar projetos de cariz educativo, cultural, assistencial e científico no Iraque. O Modern Arts Centre de Bagdade, inaugurado em 1962, foi o cartão-de-visita da «operação Gulbenkian» no Iraque: um projeto pragmático e realista. Foi também a resposta a uma necessidade objetiva de cariz cultural evidente, de realização tecnicamente simplificada. Uma intervenção direta – e não um subsídio, como seria regra a partir de então – demostraria a capacidade de concretização e a seriedade de propósitos da instituição. Serviria ainda como balão-de-ensaio para a última obra diretamente promovida pela Fundação, o complexo desportivo conhecido como Estádio do Povo.

Entre o ajuste do programa funcional, o projeto de execução e a obra, este foi um processo partilhado entre técnicos portugueses e iraquianos, que o objeto arquitetónico resultante, assumidamente despretensioso, evoca.

Interior da sala de exposições temporárias do Modern Arts Centre, Bagdade, novembro de 1966. Arquivos Gulbenkian
Planta de lajes e vigas da cobertura do projeto de execução (estabilidade) do Modern Arts Centre, Bagdade, 1960. Arquivos Gulbenkian
Maqueta do centro de arte moderna, chamado Modern Arts Centre, 1960. Arquivos Gulbenkian

Em dezembro de 1962, por ocasião da visita a Bagdade do presidente da Fundação, Dr. José de Azeredo Perdigão, e do diretor do Serviço do Médio Oriente, Robert Gulbenkian, foi adquirido o primeiro conjunto de 12 pinturas de artistas iraquianos que integraram o património da Fundação. Grande parte destas obras é aqui apresentada: pinturas de Faik Hassan, Lorna Selim, Hafidh Al-Droubi, Ismael Al-Shaikhli, Saadi al-Kaabi, Khalid Al-Jadir ou Nezar Selim. Alguns destes artistas estudaram em centros de arte em Londres, Paris e Roma, desenvolvendo um trabalho claramente em diálogo e interpretando o Modernismo europeu, fundindo a tradição árabe com estilos de vanguarda.

Hafidh Al-Droubi (1914-1991). «Família 2», 1962. Óleo sobre tela. Coleção Moderna, inv. 16PE331
Faik Hassan (1914-1992). «Abstrato», c. 1962. Guache sobre papel. Coleção Moderna, inv. 16DE175
Lorna Selim
Lorna Selim (1928). «Viúva Oriental», 1961. Óleo sobre tela. Coleção Moderna, inv. PE305

A Fundação Calouste Gulbenkian intensificou o seu papel na dinamização da cena artística em Bagdade com a criação do Gulbenkian Art Prize (Prémio de Arte), atribuído por um comité secretariado pelo conhecido crítico e historiador de arte iraquiana Jabra I. Jabra. Anualmente seria distinguido, durante um período de cinco anos, um pintor e um escultor iraquianos que receberiam uma medalha de ouro, com 3,5 cm de diâmetro e 35 gramas de peso, aproximadamente. A conceção da medalha foi encomendada pela Fundação diretamente ao escultor Joaquim Correia, que, num modelo em gesso, reproduziu na face o selo da instituição. A medalha era entregue num estojo em pele, juntamente com 200 dinares iraquianos e um certificado.

A primeira edição, em 1964, premiou o pintor Faik Hassan e o escultor Mohammed Ali, e, na segunda edição, em 1966, foram escolhidos dois pintores para o receber: Lorna Selim e Kadhim Haider. Não foi opção do comité a nomeação de um escultor por este considerar que a pintura se desenvolvia a uma maior velocidade do que a escultura, o que causou celeuma entre os artistas e complicações no futuro do prémio, que acabou por não ter mais edições.

Medalha 1966.
Medalha do Prémio de Arte Gulbenkian, 1966. Ouro. Coleção Mrs Lorna Selim

Na sequência da Semana Cultural Gulbenkian, em 1966, três jovens artistas iraquianos, Rafa Nasiri, Salim al-Dabbagh e Hashim Samarchi, solicitaram apoio para estudarem na Europa e chegaram a Lisboa como bolseiros da Fundação para frequentarem um curso na GRAVURA – Cooperativa de Gravadores Portugueses, entre setembro de 1967 e novembro de 1968. Pela primeira vez, a Cooperativa recebia artistas estrangeiros com a finalidade de desenvolverem trabalho nas suas oficinas. Subsidiado pela Fundação, o curso foi orientado por Alice Jorge e João Navarro Hogan. No relatório final de avaliação, Alice Jorge destacou o excelente profissionalismo dos artistas, que durante o período que permaneceram em Lisboa tiveram conhecimento de todos os processos de gravar, evoluindo esteticamente. Estabeleceram boas relações com os artistas portugueses e concretizaram três exposições coletivas em Portugal. O regresso de Rafa, Salim e Hashim a Bagdade, após a estadia em Lisboa, marcou o início do desenvolvimento da gravura no Iraque.

Hashim Samarchi
Hashim Samarchi (1937). Sem Título, 1968. Água-tinta sobre papel. Edição: 5/10. Coleção Moderna, inv. GE685
Salim Dabbagh
Salim Dabbagh (1941). Sem Título, 1968. Água-tinta sobre papel. Edição: XVI/XX. Coleção Moderna, inv. GE746
Rafa Nasiri
Rafa Nasiri (1940-2013). Sem Título, 1968. Ténica mista sobre papel Fabriano. Edição: XIII/XV. Coleção Moderna, inv. GE788

Programa

À conversa com os curadores Patrícia Rosas e Ricardo Agarez
Sexta, 26 outubro, 15:00 
Sábado, 10 novembro e 19 janeiro, 16:00
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Sobre os aspetos do Iraque contemporâneo
Com Paulo Moura
Terça, 11 dezembro, 18:00 – Biblioteca de Arte
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Visitas orientadas
Sábado, 27 outubro, 16:00
Sábado, 1 dezembro e 26 janeiro, 15:00
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An Alternative Future
Quinta e sexta, 25 e 26 outubro, 17:00 – Auditório 3 
Em inglês
Iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian enquanto membro da Future Architecture Platform, projeto cofinanciado pela União Europeia no Programa Europa Criativa.
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Repensar o Passado
Conferência internacional Memória / Arquivo / Documento – Artes e Arquitetura
Com Andreas Huyssen, Ernst Van Alphen e Catherine David
Quinta e sexta, 8 e 9 novembro, 09:30 – 19:00 – Auditório 3 e Sala 2
Em português e inglês
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The 1960s in Iraq: Art and Culture
Com Nada Shabout
Quarta, 9 janeiro, 18:00 – Auditório 3
Em inglês
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The Arab Center for Architecture
Com George Arbid
Sábado, 12 janeiro, 17:00 – Auditório 3
Em inglês
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Visitas para escolas e grupos organizados
Mediante marcação prévia
217 823 800 (dias úteis das 10:00 às 13:00)
[email protected]

Mais informações
[email protected]