A Idade de Ouro do Mobiliário Francês

Da Oficina ao Palácio

No século XVIII, o mobiliário francês atingiu um nível de excelência nunca antes visto. Esta exposição coloca em destaque alguns móveis emblemáticos procurando mostrar o que está por detrás da execução destas peças fantásticas.

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Conhecido como o Século de Ouro do mobiliário francês, o século XVIII foi palco de grandes transformações neste campo, alcançando-se uma qualidade técnica e artística sem precedentes na produção de móveis. A conjuntura favorável da época permitiu que tal acontecesse. Esta exposição tem como ponto de partida alguns exemplares emblemáticos da Coleção do Fundador produzidos neste período, nomeadamente a secretária-cilindro de Jean-Henri Riesener, e importantes empréstimos de instituições nacionais e internacionais, como o Museu Nacional de Arte Antiga e o Musée des Arts Décoratifs.

Pretende-se explorar as diferentes fases da produção destas peças, desde a matéria-prima, a madeira, ao móvel delicado e exuberante destinado a palácios reais, desvendando os segredos da sua criação: os artesãos e as oficinas que estiveram na sua origem, os materiais de eleição, as técnicas e as ferramentas que permitiram a sua conceção. Para tal, revela-se imprescindível a parceria com a Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva, cujo conhecimento técnico permite imprimir à exposição um lado mais prático.

Desde o final do século XVII que a liberalização dos costumes vinha a acontecer, refletindo-se em muitos aspetos da sociedade, como na maneira de as pessoas se relacionarem e conviverem. Estas mudanças de comportamento vão-se fazer sentir nos ambientes interiores. O gosto pelo conforto, aliado ao requinte, assume uma importância cada vez maior na vida palaciana. O mobiliário acompanha as transformações da sociedade adaptando-se às novas necessidades.

Para responder às exigências de uma elite esclarecida e sofisticada, ávida de novidades, os marceneiros e ebanistas recorrem a algumas inovações técnicas. O móvel passa a ser pensado com uma funcionalidade específica, não esquecendo a sua vertente estética. O seu criador, seja arquiteto, ornamentalista ou mesmo artesão qualificado, vai ao encontro dos desejos da clientela, anunciando o design moderno.

Curadoria: Clara Serra

Jean-Henri Riesener. Secretária de cilindro (pormenor). Paris, 1773. Carvalho e madeiras exóticas, bronzes cinzelados e dourados, veludo. Coleção do Fundador
Jean-Henri Riesener. Secretária de cilindro (pormenor). Paris, 1773. Carvalho e madeiras exóticas, bronzes cinzelados e dourados, veludo. Coleção do Fundador

VISITA 360º


VÍDEOS


Núcleos

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador

Nesta exposição, destaca-se a obra L’Art du Menuisier de André-Jacob Roubo (1739-1791), publicada em 1774. Este tratado de marcenaria e ebanisteria é ainda hoje uma obra de referência para quem estuda mobiliário francês do século XVIII. Roubo nasceu em Paris, oriundo de uma família de marceneiros. Além de exercer esta profissão, foi também um teórico da marcenaria. Como era habitual na época, começou a sua aprendizagem, muito jovem, na oficina do pai. Embora tenha tido uma escolaridade pobre, sempre demonstrou um gosto especial em aprender, tendo sido um autodidata em algumas matérias como matemática e desenho.

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador

O ponto de partida de um móvel é o desenho: é aqui que todo o processo se inicia. Os arquitetos e os ornamentalistas, artistas que desenhavam e concebiam os ornamentos, eram os responsáveis pela decoração dos espaços interiores, que incluía projetar o mobiliário e os têxteis. Os esboços dos móveis tinham depois de se converter em desenhos exequíveis, ou seja, desenhos técnicos, com medidas e à escala. Este trabalho exigente era executado pelos marceneiros que possuíam os conhecimentos técnicos para o fazer. Infelizmente, poucos destes desenhos chegaram até aos nossos dias e os que existem raramente correspondem às peças de mobiliário que se conhecem.

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina

Os diversos tipos de encaixe são elementos fundamentais na estrutura de um móvel. É através destes que as várias partes de um móvel são unidas. Nos móveis do século XVIII apenas há encaixes, não se utilizam pregos. É através dos encaixes que o móvel adquire a sua robustez. Há diversos tipos de malhete que variam de acordo com o fim a que se destinam.

As ferramentas utilizadas no século XVIII foram reproduzidas na obra L’Art du Menuisier de André-Jacob Roubo. A maior parte são-nos familiares. As ferramentas presentes na exposição são da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva e ainda hoje são utilizadas.

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina

A madeira é a matéria-prima de excelência do mobiliário francês com dois níveis de utilização : a madeira da estrutura e a madeira do revestimento, que é utilizada na ebanisteria. A estrutura de um móvel era geralmente feita com madeiras indígenas, provenientes das árvores oriundas do solo francês, existentes em maior quantidade e mais baratas, nunca esquecendo a sua robustez e durabilidade. O carvalho foi uma das madeiras mais utilizadas para este efeito.

Com o desenvolvimento do mobiliário de ebanisteria, que atingiu o seu apogeu no século XVIII,  deixou-se de utilizar madeiras maciças no mobiliário de qualidade. No marchetado e folheado as madeiras exóticas, trazidas das Índias, assumiram uma importância de destaque. Estas são madeiras provenientes das zonas quentes do planeta e que, por isso, possuem características próprias (cor, textura, entre outros) muito diferentes das madeiras europeias.

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica (pormenor). Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica (pormenor). Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica (pormenor). Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica (pormenor). Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador

Os artesãos ligados à produção do mobiliário eram os marceneiros e os ebanistas. Os primeiros lidavam com madeira maciça, faziam peças como cadeiras e canapés, entre outros, e todo o trabalho de marcenaria ligado à arquitetura. Os segundos, os marceneiros ebanistas executavam móveis folheados, sobretudo a madeiras exóticas. Este tipo de mobiliário começou a ser produzido no século XVII, em França, mas é no século XVIII que atinge o seu maior desenvolvimento.

A ebanisteria é a arte de enriquecer a estrutura de um móvel revestindo-a de madeiras preciosas, porcelana, laca ou outros materiais. É uma técnica, ou melhor, um conjunto de técnicas, cujo fim é puramente estético – o folheado e o marchetado são técnicas utilizadas pelo ebanista. A sua origem remonta à arte italiana do final da Idade Média mas é no século XVII e sobretudo no XVIII que atinge um nível de excelência nunca antes alcançado.

Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina

A harmonia entre os bronzes cinzelados e dourados e os marchetados de extrema qualidade elevaram os móveis desta época a um patamar superior. A sua execução envolve uma série de artesãos. Primeiro, o escultor faz o molde da peça em madeira. Este molde serve para criar a forma, em caixas com areia, onde é vertido o metal fundido. Posteriormente, tem de ser cinzelada, sendo nesta fase que ela adquire a sua forma definitiva. O trabalho do cinzelador é fundamental, sendo de grande precisão, é o que imprime alma à peça. Para finalizar, procede-se ao seu douramento pelo método de mercúrio (ormolu).

André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
André-Jacob Roubo (1739–1791). L’Art du Menuisier en Meubles (pormenor). Paris, 1769– 1775. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina
Vista da exposição. Foto: © Pedro Pina

Nesta exposição, encontra-se uma maqueta pormenorizada de uma oficina de marcenaria do século XVIII cedida pelo Musée des Art set Métiers de Paris. O nível de pormenor permite ver as ferramentas utilizadas, os diferentes elementos utilizados na construção de um móvel e a distribuição do espaço de trabalho.   

Martin Carlin. Charles Dodin. Mesa secretária (pormenor). Paris, c. 1772. Estrutura em carvalho; folheados e marchetados em sicómoro, pau-cetim, ébano e buxo; placas de porcelana de Sèvres; bronze cinzelado e dourado; veludo. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Martin Carlin. Charles Dodin. Mesa secretária (pormenor). Paris, c. 1772. Estrutura em carvalho; folheados e marchetados em sicómoro, pau-cetim, ébano e buxo; placas de porcelana de Sèvres; bronze cinzelado e dourado; veludo. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica. Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Jean-François Oeben. Mesa mecânica. Paris, c. 176. Carvalho, choupo, tília e madeiras exóticas; bronze, veludo; espelho. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Secretária de cilindro, Jean-Henri Riesener. Paris, 1773. Estrutura em carvalho; marchetaria em sicómoro, amaranto, ébano, limoeiro e outras madeiras exóticas; bronze cinzelado e dourado; veludo. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador
Secretária de cilindro, Jean-Henri Riesener. Paris, 1773. Estrutura em carvalho; marchetaria em sicómoro, amaranto, ébano, limoeiro e outras madeiras exóticas; bronze cinzelado e dourado; veludo. Museu Calouste Gulbenkian – Coleção do Fundador

O século XVIII foi uma época de grande criatividade. Foram introduzidas algumas novidades no mobiliário de luxo, tais como os móveis revestidos com placas de porcelana e com painéis de laca. Muitas tipologias já existiam mas foram reinventadas neste período. Surgem diferentes tipos de mesa, de cómoda e de secretária e os móveis consagrados à escrita multiplicam-se. O bonheur du jour, pequena mesa-secretária de senhora, é uma criação desta época. Elegante, funcional, intimista, esta peça encerra todos os requisitos que as necessidades da vida moderna exigiam.

Outra das invenções importantes deste século foram os móveis mecânicos. Numa época marcada pela crescente ligação ao conhecimento científico e à experimentação, os progressos na relojoaria e na fabricação de autómatos permitiram o desenvolvimento deste tipo de móvel. A secretária de cilindro executada por Jean-Henri Riesener para os aposentos, em Versalhes, da Condessa da Provença, cunhada de luís XVI, é representativa deste tipo de mobiliário.


Programa

Visita orientada
Sábado, 12, 19 setembro, 15:00
Sábado, 19 setembro, 11:00
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À conversa com a curadora Clara Serra
Beleza e Mestria do Mobiliário Francês do século XVIII
Sábado, 26 setembro, 16:00
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Parceria

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