«The Voice of Inconstant Savage», de Yasuhiro Morinaga 

Engawa – Temporada de Arte Contemporânea Japonesa

Experiência sonora imersiva que articula práticas rituais e memórias sonoras do Japão, da Amazónia e da tradição cristã ocidental, convocando a escuta como espaço de perceção, deslocamento e reflexão sobre história, alteridade e transformação cultural.

Entre 21 de setembro de 2024 e 13 de janeiro de 2025, esteve patente na Sala de Som do Centro de Arte Moderna Gulbenkian (CAM) a instalação sonora «The Voice of Inconstant Savage», de Yasuhiro Morinaga (Tóquio, 1980). Com curadoria de Emmanuelle de Montgazon e Rita Fabiana, a obra resultou de uma encomenda dirigida pela Fundação Calouste Gulbenkian ao artista, constituindo a sua primeira apresentação em Portugal e a primeira colaboração expositiva com a instituição.

A encomenda de «The Voice of Inconstant Savage» realizou-se no âmbito da Temporada de Arte Contemporânea do Japão e esteve, aliás, na origem da criação e inauguração da própria Sala de Som enquanto novo espaço expositivo do CAM, concebido para acolher propostas centradas na experimentação sonora e na imersão artística.

A Temporada de Arte Contemporânea do Japão foi iniciada em julho de 2023 enquanto parte da programação inaugural associada à reabertura do CAM e à celebração do seu 40.º aniversário. O seu «Primeiro Ato» decorreu ao longo de julho, setembro e novembro de 2023, reunindo uma série de eventos, intervenções e projetos que coincidiram igualmente com a evocação dos 480 anos das relações entre Portugal e o Japão. O «Segundo Ato» articulou-se posteriormente com a reabertura do novo CAM, a 20 de setembro de 2024, após a renovação e ampliação do edifício segundo projeto arquitetónico de Kengo Kuma, dando origem a um programa múltiplo de exposições, encomendas, projetos site-specific, performances, concertos e outras iniciativas transdisciplinares.

Conduziu-a conceptualmente a ideia de «Engawa», da qual retirou o título e o ponto de partida. O termo designa, na arquitetura vernacular japonesa, uma zona intermédia ou espaço de passagem entre interior e exterior, elemento retomado por Kengo Kuma no novo CAM através da grande pala que envolve o edifício, criando um espaço mediador entre arquitetura, jardim, circulação e encontro. No contexto do novo CAM, essa solução traduz igualmente uma das linhas orientadoras da instituição: a diluição de fronteiras entre arte e vida quotidiana, entre criadores e públicos diversos, entre experiência estética e convivência.

A ideia de «Engawa» — literalmente «espaço limiar» — consolidou-se, contudo, enquanto forma de pensar associada à liminaridade e à intersticialidade na perceção do mundo e na própria postura vivencial, tornando-se uma âncora particularmente mobilizadora junto das gerações japonesas da era Heisei (1989–2018). Nela, redefine-se a questão da identidade e das fronteiras, assumindo-se o princípio de estar «entre» como eixo de conexões e interdependências entre o íntimo e a comunidade, o doméstico e o relacional, a perceção e a emoção, a tradição e a transformação, a ecologia e o digital.

Essa matriz conceptual combinou-se ainda com outras referências mobilizadas pela curadoria, como a ideia de «malha», formulada por Timothy Morton (The Ecological Thought, 2010), que dissolve a separação entre humanidade e natureza numa total interconexão entre humanos e não humanos; e a noção de Tout-Monde, de Édouard Glissant (Traité du Tout-Monde, 1997), que contrapõe às perspetivas universalistas e identitárias fechadas um pensamento do mundo enquanto totalidade relacional, diferencial, coexistente e em permanente transformação.

Com curadoria de Emmanuelle de Montgazon e colaboração de Rita Fabiana, a Temporada procurou, nesse sentido, identificar e apresentar criadores, projetos e obras que, de diferentes modos, convocam este tipo de pensamento nas suas narrativas estéticas, visuais e sonoras. Simultaneamente, pretendeu reforçar o conhecimento e a presença, em Portugal, de artistas e pensadores do Japão e da diáspora japonesa, maioritariamente apresentados pela primeira vez.

Foi neste contexto que se integrou «The Voice of Inconstant Savage», pensada em paralelo com «M5A5», de Go Watanabe (21 set. – 4 nov. 2024), e «Song of the Land», de Chikako Yamashiro (29 nov. 2024 – 13 jan. 2025). Em diálogo com esta Temporada teve igualmente lugar «O Calígrafo Ocidental. Fernando Lemos e o Japão», com curadoria de Leonor Nazaré e Rosely Nakagawa, centrada na influência fundadora da cultura japonesa na obra de Fernando Lemos.

Yasuhiro Morinaga é um criador multifacetado cuja prática cruza arte contemporânea, composição musical, investigação sonora, arquivo, cinema e performance. Radicado em Lisboa desde 2021, com doutoramento desenvolvido na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, estruturou progressivamente o seu trabalho em torno da antropologia e da etnografia enquanto núcleos conceptuais a partir dos quais desenvolveu um interesse continuado pelas expressões musicais etnográficas, comunitárias e tradicionais de povos indígenas e comunidades locais, bem como pelas sonoridades associadas aos fenómenos naturais.

A elucidar esse investimento, o artista afirma: «Comecei a imaginar a possibilidade de redesenhar o mapa cultural da Ásia através do som. As fronteiras que existem entre culturas musicais são muito diferentes das fronteiras estabelecidas politicamente…»

Com a proposta de exploração, recolha, inventariação e divulgação de sons, músicas e instrumentos musicais, Morinaga tem vindo a organizar um amplo arquivo que reúne registos ancestrais e contemporâneos de instrumentos musicais, tradições musicais e orais, práticas rituais e xamânicas, reformulando, no seu próprio trabalho de campo, abordagens científicas e tecnológicas tradicionalmente associadas aos métodos etnográficos clássicos.

O som funciona, no seu trabalho, simultaneamente como ferramenta metodológica, dispositivo conceptual e material artístico. A sua prática concentra-se quer na observação das singularidades e diferenças entre modos de vida indígenas e modernidade contemporânea, quer na identificação de proximidades, continuidades e zonas de contacto entre esses universos. Em paralelo, os seus projetos assentam na ativação de formas de escuta e perceção que tornam audíveis aspetos habitualmente relegados para segundo plano na experiência quotidiana.

Em correlação com esta prática, Morinaga desenvolve igualmente uma vasta atividade como compositor, diretor musical e sound designer para cinema, dança contemporânea e produções cénicas, com obras apresentadas em diversos festivais internacionais. Trabalha ainda como arquivista sonoro e cineasta, articulando documentação, experimentação sonora e pós-produção eletrónica. Foi diretor artístico da plataforma editorial audiovisual Concrete e continua a desenvolver projetos que cruzam memória, território e escuta.

A sua atividade como compositor e diretor musical iniciou-se em 2007, com o filme A Bao A Qu, de Naoki Kato. Posteriormente, expandiu a sua prática para o teatro e a dança contemporânea, nomeadamente através do projeto performativo To Belong / Suwung, To Belong – cyclonicdream (2012), em colaboração com a coreógrafa Akiko Kitamura, para o qual concebeu uma componente sonora que articulava registos de trabalho de campo, gravações de voz, hip-hop e excertos musicais de proveniências diversas.

No campo da arte contemporânea, realiza instalações e performances interdisciplinares desde 2010, contando no seu percurso apresentações e projetos em contextos como o Festival Internacional de Cinema de Toronto (2010), o Pavilhão de Singapura da Bienal de Veneza (2015), o Aomori Museum of Art (2016), o Ichihara Lakeside Museum (2017), o Tobiu Art Festival (2019) ou a Sharjah Biennale (2020).

Distinções, prémios e encomendas internacionais vieram consolidar a sua projeção. Entre eles contam-se o S-Air Award (2019), a nomeação para melhor direção musical nos Asia Pacific Academy Awards (2018), bem como encomendas da Japan Foundation, da Agency for Cultural Affairs do Japão, da Nippon Foundation, da WIRED Japan e do Aomori Museum of Art.

Usando o som como dispositivo, plataforma e materialidade, as obras e publicações interdisciplinares que tem concretizado nos últimos anos orientam-se segundo uma lógica aberta, intermedia e pós-media, assumindo formatos diversos — instalações sonoras, instalações multimédia, performances teatrais — nos quais se revela determinante não apenas envolver os espectadores, mas configurá-los como componentes ativas da ativação da própria obra.

Configurar o público como elemento constitutivo da experiência artística corresponde, aliás, a uma das vias singulares da arte sonora contemporânea. Desde a formulação do termo sound art, nos anos 1980, tornou-se particularmente evidente a especificidade da receção destas obras, cuja experiência não se limita à contemplação, mas implica envolvimento físico, espacial e temporal. Como observa Alan Licht, a arte sonora amplifica a escuta e convoca o público para uma experiência incorporada, ambiental e imersiva, onde o espectador deixa de permanecer exterior à obra para a atravessar — sendo simultaneamente atravessado por ela.

A instalação sonora The Voice of Inconstant Savage, concebida no âmbito do doutoramento de Yasuhiro Morinaga na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, desenvolveu-se como um projeto de grande escala que implicou um extenso trabalho de investigação no terreno. A história que lhe serviu de ponto de partida remete para a presença missionária portuguesa no Japão e no Brasil no século XVI. Após a expulsão dos missionários cristãos do Japão, em 1587, comunidades clandestinas conhecidas como Kakure-Kirishitan preservaram práticas religiosas sincréticas, entre as quais a Oratio, hoje reconhecidas enquanto património cultural, embora em progressivo desaparecimento.

Interessado em explicitar de que modo esses processos históricos continuam a repercutir-se na transformação, persistência ou desaparecimento de crenças locais, Morinaga desenvolveu investigação em Nagasaki e junto do povo Awá, na Amazónia, articulando essas experiências com um estudo aprofundado de práticas sonoras do século XVI associadas a três continentes interligados pelas rotas marítimas portuguesas.

Estruturada como uma experiência imersiva com cerca de 22 a 25 minutos, a obra assumia um dispositivo cénico que articulava som espacializado tridimensionalmente e um desenho de luz sincronizado com o desenvolvimento narrativo. No centro da composição surgia um diálogo em japonês antigo entre uma voz masculina e uma voz feminina, entoando uma oração dirigida a uma «fonte da vida», a partir da qual se desencadeava um relato onde se cruzavam memórias culturais, imaginários míticos ligados às transformações da Terra e reflexões sobre a noção de savagery e de indisciplina.

Para a arquitetura sonora construída, o artista cruzou tradições da Oratio dos Kakure-Kirishitan de Nagasaki, a leitura performativa de um testemunho missionário português do século XVI, o canto dos espíritos Karawara do povo Awá e um coro de canto gregoriano de matriz ocidental. Da justaposição destes registos emergia um ambiente sensorial denso, construído através do entrelaçar de referências sonoras provenientes do Japão, de comunidades amazónicas e do universo histórico português.

Na sinopse da obra, o próprio artista afirma: «Ao tomar a língua japonesa antiga como eixo estruturante, o projeto procura adotar uma abordagem que evoca elementos do kyōgen ou do — artes performativas tradicionais transmitidas desde o período Muromachi — sem deixar de operar a partir do campo da arte contemporânea. A obra coloca em evidência questões sociais interculturais que se impõem não apenas no Japão, em Portugal e no Brasil, mas em escala global, ao problematizar discriminação, hierarquias de superioridade e desigualdades que afetam comunidades indígenas e minoritárias.»

A concretização da instalação mobilizou meios significativos e uma rede de colaboração interdisciplinar, envolvendo diversos criadores e o Coro Gulbenkian. Tanto o desenho espacial como o desenho de luz procuravam intensificar a experiência imersiva e multissensorial da obra. A Sala de Som, praticamente escurecida, encontrava-se envolvida por um sistema sonoro tridimensional distribuído pelos planos superior, intermédio e inferior, através de 24 colunas, incluindo uma coluna suspensa isoladamente no teto, todas encobertas com tecidos translúcidos.

O percurso até ao interior da instalação era igualmente cuidadosamente construído. À entrada, era necessário retirar os sapatos. O chão começava com folhas secas que se pisavam e sentiam sob os pés, sucedendo-se um tapete tatami que conduzia até à plataforma central destinada ao público. A luz surgia com intensidade muito difusa, evoluindo lenta e progressivamente em sincronia com a narrativa sonora espacializada, acentuando a dimensão cénica e dramatúrgica da proposta.

A experiência imersiva concebida por Morinaga inscrevia-se de forma particularmente coerente quer na sua prática artística, quer nas preocupações conceptuais mais amplas da Temporada de Arte Contemporânea do Japão. Ao ativar a escuta como forma expandida de perceção e ao articular temporalidades, geografias, memórias culturais e sistemas de crença distintos, The Voice of Inconstant Savage construía uma proposta sensorial e reflexiva onde o visitante deixava de ser mero observador para se tornar parte integrante da experiência.

A instalação não gerou crítica especializada nem análises de fundo na imprensa cultural portuguesa, circunstância relativamente expectável no caso de projetos de menor escala integrados em grandes programas institucionais. As principais referências surgiram sobretudo na agenda física e digital da Gulbenkian, bem como em artigos dedicados à reabertura do CAM e à Temporada de Arte Contemporânea do Japão, publicados em meios como Público, Diário de Notícias, Visão, Time Out ou plataformas culturais e institucionais diversas. Após a inauguração, a referência à exposição manteve-se sobretudo em agendas culturais e programação institucional.

Dada a natureza específica da apresentação, não foi efetuada contagem autónoma de visitantes, nem editado catálogo próprio.

A exposição contou com o apoio da Genelec Japan, do Museu Municipal Ikitsuki-cho Shima no Yakata (Nagasaki), da Associação Arari (Brasil), da Embaixada de Portugal no Japão, da Trixta e do CIEBA – Centro de Investigação e de Estudos em Belas-Artes.

No ano seguinte à apresentação no CAM, em setembro de 2025, Yasuhiro Morinaga voltou a apresentar trabalho em Lisboa com a instalação sonora performativa Life Entangled — The Secret Story of Shellac, no TBA – Teatro do Bairro Alto, num projeto colaborativo com o artista sonoro norte-americano Robert Millis.

 

Vanda Gorjão, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Multimédia


Documentação


Periódicos

Sol

Lisboa, 19 set 2024

TVI

Lisboa, 14 set 2024


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, fotográficos, multimédia, pressbook, comunicados de imprensa, entre outros. 2024 – 2025


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