«M545», de Go Watanabe

Engawa – Temporada de Arte Contemporânea Japonesa

A instalação site-specific «M5A5», de Go Watanabe, explorou criticamente os limites entre realidade e artifício através da manipulação digital de objetos quotidianos. Composta por quatro projeções de grande escala em câmara lenta extrema, a obra transformou a perceção visual e corporal dos visitantes, questionando os próprios mecanismos do ato de ver.

De 21 de setembro a 4 de novembro de 2024, o Espaço Projeto do Centro de Arte Moderna (CAM) acolheu a exposição «M5A5», de Go Watanabe (Tóquio, 1975), integrada na Temporada de Arte Contemporânea do Japão e com apoio da Japan Foundation. Com curadoria de Emmanuelle de Montgazon, a mostra constituiu a primeira apresentação individual do artista em Portugal.

Concebida como uma instalação site-specific, «M5A5» partia do vídeo homónimo de 2017 (47’57’’), apresentado através de quatro grandes projeções digitais de louça de mesa disposta em prateleiras, produzidas com recurso à técnica 3DCG. A exposição inseria-se no contexto mais amplo da Temporada de Arte Contemporânea do Japão, iniciativa iniciada em julho de 2023 no âmbito da programação associada à reabertura do CAM e à celebração do seu 40.º aniversário.

O «Primeiro Ato» da Temporada decorreu ao longo de julho, setembro e novembro de 2023, reunindo eventos, intervenções e projetos que coincidiram igualmente com a evocação dos 480 anos das relações entre Portugal e o Japão. O «Segundo Ato» articulou-se com a reabertura do novo CAM, a 20 de setembro de 2024, após a renovação e ampliação do edifício segundo projeto arquitetónico de Kengo Kuma, dando origem a um programa alargado de exposições, encomendas, projetos site-specific, performances, concertos e iniciativas transdisciplinares.

A ideia de «Engawa» conduziu conceptualmente esta Temporada, fornecendo-lhe título e ponto de partida. O termo designa, na arquitetura vernacular japonesa, uma zona intermédia ou espaço de transição entre interior e exterior — elemento retomado por Kengo Kuma no novo CAM através da grande pala que envolve o edifício, criando um espaço mediador entre arquitetura, jardim, circulação e encontro. No contexto do novo CAM, esse elemento traduz também uma das linhas orientadoras da instituição: a diluição de fronteiras entre arte e vida quotidiana, entre experiência estética e convivência, entre criadores e públicos diversos.

A noção de «Engawa» consolidou-se, contudo, para além da arquitetura, enquanto forma de pensar associada a ideias de liminaridade, intersticialidade e coexistência relacional. Tornou-se particularmente mobilizadora para gerações japonesas da era Heisei (1989-2018), convocando um entendimento da identidade e das fronteiras não como delimitação fixa, mas como condição de estar «entre»: entre o íntimo e o coletivo, o doméstico e o relacional, a tradição e a transformação, a ecologia e o digital, a perceção e a emoção — um eixo que acolhe simultaneamente a subjetividade, a fragilidade e a incerteza.

Esta matriz conceptual articulava-se ainda com outras referências mobilizadas pela curadoria, como a ideia de «malha», formulada por Timothy Morton (The Ecological Thought, 2010), que dissolve a separação entre humanidade e natureza numa total interconexão entre humanos e não humanos; e a noção de Tout-Monde, de Édouard Glissant, que contrapõe às perspetivas universalistas e identitárias fechadas uma visão do mundo enquanto totalidade relacional, diferencial e em permanente transformação.

Com curadoria de Emmanuelle de Montgazon e colaboração de Rita Fabiana, a Temporada procurou, nesse sentido, identificar e apresentar criadores cujas práticas convocavam, de diferentes modos, estas ideias de conexão, proximidade e intersticialidade, reforçando simultaneamente o conhecimento e a presença, em Portugal, de artistas e pensadores do Japão e da diáspora japonesa.

Go Watanabe tem vindo a afirmar-se progressivamente no panorama artístico contemporâneo internacional. Até 2022, apresentou diversas exposições individuais sobretudo no Japão, participando igualmente em mostras coletivas na Alemanha, Suíça, Coreia do Sul e Austrália. O seu trabalho integra coleções de vários museus e centros de arte japoneses, bem como instituições como a National Gallery of Victoria (Melbourne), a National Taiwan Museum of Fine Arts (Taichung), a Fondation Louis Vuitton (Paris) ou o Borusan Contemporary (Istambul). Para a consolidação da sua presença internacional, revelou-se particularmente relevante a participação na exposição coletiva itinerante «Logical Emotion: Contemporary Art from Japan», organizada pela Japan Foundation e apresentada na Suíça, Polónia e Alemanha.

Foi neste contexto de crescente reconhecimento que o CAM acolheu a sua primeira apresentação individual em Portugal, pensada em paralelo com outras exposições da Temporada de Arte Contemporânea do Japão, nomeadamente «The Voice of Inconstant Savage», de Yasuhiro Morinaga (21 set. 2024 – 13 jan. 2025), e «Song of the Land», de Chikako Yamashiro (29 nov. 2024 – 13 jan. 2025). Em diálogo com este mesmo programa teve igualmente lugar «O Calígrafo Ocidental. Fernando Lemos e o Japão», com curadoria de Leonor Nazaré e Rosely Nakagawa, centrada na influência fundadora da cultura japonesa na obra de Fernando Lemos.

A prática artística de Go Watanabe desenvolve-se na interseção de diversos media e linguagens, com particular incidência na gravura, imagem digital, animação e computação gráfica tridimensional. Recorrendo sobretudo a tecnologias de modelação e imagem 3D em alta definição, o artista tem vindo a explorar territórios de fronteira entre o real e o artificial, o físico e o virtual, o humano e o não humano.

Na obra Portrait (Face) (2007), que lhe trouxe maior reconhecimento, o digital e a modelação tridimensional permitiram-lhe construir uma série de retratos femininos a partir de fotografias de pessoas reais posteriormente manipuladas digitalmente e apresentadas em caixas de luz. O resultado produzia uma visualidade perturbante: rostos de perfeição quase absoluta, simultaneamente neutros e intensamente presentes, situados num limiar ambíguo entre o humano e o artificial, quase androide. A iluminação das caixas de luz reforçava ainda essa estranheza, conferindo-lhes uma presença física que parecia ultrapassar a bidimensionalidade da imagem.

É precisamente essa linha divisória que Go Watanabe tem procurado explorar de forma continuada, num interesse explícito pelos espaços de limiar onde categorias aparentemente estáveis se confundem. Para tal, mobiliza um repertório de imagens composto maioritariamente por rostos humanos, objetos quotidianos e ambientes domésticos — livros, utensílios de cozinha, recipientes — que submete a transformação digital tridimensional.

As imagens resultantes das técnicas de modelação, texturização, rigging, renderização e iluminação produzem uma visualidade simultaneamente profundamente estilizada e intensamente realista. Dessa dualidade decorre a circunstância perturbante de estranhamento que caracteriza muitas das suas obras: aquilo que, num primeiro momento, é percebido como objeto físico convincente vai revelando progressivamente a sua condição artificial e construída. Ao instaurar esse desfasamento entre reconhecimento e revelação, Go Watanabe introduz um questionamento mais amplo sobre as formas de perceção do real, da matéria, do espaço e do tempo.

Como o próprio artista afirma, interessa-lhe retratar «várias transformações e multiplicações de tempo e espaço» e «o fenómeno confuso da dessincronização e continuidade».

Foi sobretudo a partir de 2010 que a dimensão temporal se tornou mais explicitamente central no trabalho de Go Watanabe. Em obras como The Tower of Books (2010), a exploração do tempo começou a desenvolver-se através da animação e da criação de fluxos instáveis a partir de objetos fixos e inanimados, frequentemente associados a projeções simultâneas em grande escala. Paralelamente, as narrativas visuais elaboradas pelo artista passaram a incidir de forma mais evidente sobre ideias de ciclo, continuidade, transformação, fragmentação, dissolução e recomposição.

A obra One Landscape: A Journey (2011), apresentada na coletiva «Cosmic Travelers – Toward the Unknown», organizada em 2012 no Espace Louis Vuitton, em Tóquio, constitui um exemplo expressivo desta orientação. Nela, imagens de canecas e tigelas num lava-loiça, filmadas em slow motion, sugerem um mundo em movimento, convocando simultaneamente a dinâmica da paisagem urbana contemporânea e certas ressonâncias da tradição animista japonesa.

Em estreita relação com esta dimensão temporal, a luz desempenha um papel absolutamente central no trabalho de Go Watanabe. Mais do que um recurso visual, constitui um eixo estruturante da sua prática artística. O próprio artista sublinha que a luz se tornou o conceito central do seu trabalho recente, entendendo-a simultaneamente como meio de perceção da paisagem e como a própria perceção. Não apenas a luz solar, mas também a proveniente de candeeiros, sinais luminosos, ecrãs, néons ou faróis — formas de luz que não apenas iluminam, mas transportam informação, criam relações e conectam espaços.

O processo de investigação e manipulação da luz proposto pelo artista ultrapassa, assim, a sua dimensão estritamente ótica. A luz transforma-se, em certa medida, no próprio meio da obra, no suporte da experiência estética e no agente ativo através do qual se orienta a relação com o visível. Trabalhar a forma como a luz se manifesta, oscila, se desloca e altera continuamente corresponde, por conseguinte, a uma proposta de reorganização da própria perceção.

É neste contexto que surge M5A5. Datada de 2017, a obra constitui uma vídeo-instalação em loop, com aproximadamente 48 minutos, concebida integralmente em computação gráfica tridimensional e apresentada no CAM através de quatro grandes projeções cuidadosamente posicionadas no Espaço Projeto.

À semelhança de trabalhos anteriores, M5A5 parte de objetos domésticos aparentemente banais — neste caso, louça de mesa organizada em pilhas meticulosamente ordenadas sobre prateleiras. Num primeiro momento, o grau de realismo alcançado é tal que as imagens podem facilmente ser confundidas com objetos físicos reais. Contudo, aquilo que parece estável inicia gradualmente um movimento lento, quase impercetível, de instabilidade. Os objetos começam a inclinar-se, a perder equilíbrio, até colapsarem, partirem-se e desfazerem-se.

Ocupando a ampla galeria escurecida do Espaço Projeto, as projeções horizontais em alta definição configuravam uma espécie de corredores visuais, de onde emanava a única fonte de iluminação do espaço, criando uma atmosfera imersiva de negros e azul-acinzentados. O realismo da composição era intensificado tanto pela minúcia dos detalhes — visíveis nos contornos rigorosos definidos por jogos subtis de brilho e sombra — como pela materialidade reconhecível das superfícies de cerâmica, vidro e metal. A escala ampliada dos objetos, ultrapassando o corpo dos visitantes, reforçava ainda mais esse efeito de presença física, tornando a experiência simultaneamente convincente e estranhamente dissonante.

A escolha deliberada do ultrarrealismo e da escala permitia a Go Watanabe desenvolver outro tipo de experimentação em torno da relação entre a obra e os espectadores, incidindo sobre a própria ideia de distância estética. O artista tem explicitamente refletido sobre essa questão, procurando deslocar o foco de um olhar individual para a coexistência de múltiplos olhares e para as relações posicionais que se estabelecem entre corpos, objetos e perceção. Em M5A5, essa dinâmica concretizava-se de forma particularmente eficaz: a proximidade física com imagens aparentemente tangíveis, mas simultaneamente artificiais, introduzia uma instabilidade perceptiva que colocava em causa a confiança do olhar.

O estranhamento produzido pela instalação decorria precisamente desse desfasamento entre aquilo que inicialmente se reconhece e aquilo que progressivamente se revela enquanto construção virtual. O movimento lento de transmutação — da aparência convincente das coisas até à exposição da sua artificialidade — fazia emergir questões mais amplas sobre as modalidades contemporâneas de perceção do real, da matéria, do espaço e do tempo. Neste sentido, M5A5 inscrevia-se de forma particularmente coerente nas preocupações conceptuais que atravessavam quer a prática do artista, quer a própria Temporada de Arte Contemporânea do Japão.

A exposição não contou com catálogo. Também não gerou receção crítica especializada ou análises de fundo significativas na imprensa cultural portuguesa, circunstância relativamente expectável no caso de projetos de menor escala integrados em programas institucionais mais amplos. As principais referências surgiram sobretudo na agenda física e digital da Gulbenkian e em menções breves associadas a artigos sobre a reabertura do renovado CAM ou sobre a própria Temporada de Arte Contemporânea do Japão.

A instalação «M5A5» não gerou crítica especializada nem análises de fundo na imprensa cultural portuguesa, circunstância relativamente habitual em projetos de menor escala integrados em grandes eventos institucionais. As principais referências surgiram sobretudo nas agendas impressa e digital da Gulbenkian, bem como em menções breves associadas à reabertura do novo CAM e ao próprio ENGAWA, incluindo referências na Time Out e na Agenda Cultural de Lisboa.

Dada a natureza específica da apresentação e a localização da exposição no Espaço Projeto – sala de passagem integrada no percurso mais amplo do CAM –, não foi efetuada contagem autónoma de visitantes, nem foi editado catálogo próprio.

Vanda Gorjão,


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Publicações


Material Gráfico


Fotografias


Multimédia


Documentação


Periódicos

Sol

Lisboa, 19 set 2024

TVI

Lisboa, 14 set 2024


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém documentação textual, gráfica, fotográfica e audiovisual. 2024


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