Estação Central da Beira, Moçambique (1957 – 1966)

Programa «Keeping it Modern»

A exposição apresentou os resultados de uma investigação sobre este edifício icónico da arquitetura modernista portuguesa em África. Com curadoria do investigador Elisiário Miranda, esteve patente no Átrio da Biblioteca de Arte da Gulbenkian em simultâneo com a exposição «Nenhum sítio é deserto». Ambas resultaram de projetos de investigação financiados pelo programa Keeping It Modern, da Getty Foundation (EUA), e tinham em comum a elaboração de planos de gestão de conservação de edifícios representativos da Arquitetura Moderna do século XX.

A exposição itinerante «Estação Central da Beira», produzida pela Universidade do Minho, visava disseminar o trabalho desenvolvido na elaboração de um plano de gestão de conservação deste edifício, localizado na cidade portuária no Norte de Moçambique e que lhe dá o nome. O plano foi realizado com o apoio de uma bolsa no valor de 160 mil euros, atribuída em 2019 pelo programa Keeping It Modern, da Getty Foundation, a uma equipa composta por investigadores da Escola de Engenharia e da Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho, da Faculdade de Arquitetura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane e representantes dos Caminhos de Ferro de Moçambique, proprietário do edifício. Entre 2014 e 2020, o referido programa atribuiu 77 bolsas para a elaboração de planos de gestão de conservação de edifícios de arquitetura moderna, distribuídos por quarenta países, com o objetivo de promover melhores práticas de conservação deste património e desenvolver capacidades técnicas. Entre os objetivos da candidatura da Estação Central da Beira, destacavam-se o mapeamento de danos, nomeadamente devidos ao ciclone Idai (2019), e a procura de novas funcionalidades para o edifício, devido à perda da importância da sua função original.

Construída durante o Estado Novo (1933-1974) por arquitetos portugueses que viviam e trabalhavam nas antigas colónias, a Estação Central da Beira é um edifício icónico da arquitetura moderna. Compreende um grande átrio coberto por uma arrojada abóbada em betão armado, um edifício de administração sobre pilotis (colunas elevadas) e uma zona de cais. Foi construída entre 1957 e 1966, com projeto dos arquitetos João Garizo do Carmo (1917-1974), Francisco José de Castro (1923-2016) e Paulo de Melo Sampaio (1926-1968). A estação integrava, e simbolicamente coroava, um vasto programa de investimento estatal na linha ferroviária que ligava a Beira à Rodésia (atual Zimbabwe), nacionalizada em 1949. A linha ferroviária era essencial para a afirmação internacional do porto da Beira como canal de escoamento dos produtos provenientes das regiões do interior do continente africano.

Aberto em 1957, o concurso de arquitetura para a definição da expressão arquitetónica exterior da estação foi ganho pelo único concorrente, Paulo de Melo Sampaio, arquiteto residente na Beira desde 1954. Na sequência deste concurso foi constituída uma equipa composta pelo próprio Paulo de Melo Sampaio, por João Garizo do Carmo (arquiteto nascido na cidade da Beira, mas que estudou e trabalhou em Lisboa e no Porto antes de voltar à sua cidade natal em 1952) e por Francisco José de Castro (arquiteto português que se mudou para a Beira em 1952). A equipa entregou em 1959 um anteprojeto com treze possíveis soluções arquitetónicas, seguido de um projeto final aprovado em 1961. O edifício foi inaugurado em 1966.

Por um lado, a Estação Central representa, com a sua escala e o seu arrojo técnico, a importância comercial e política da cidade da Beira; por outro, como sublinha o curador da exposição, incorpora um vasto repertório de princípios e formas do movimento moderno do segundo pós-guerra, solidamente ancorados na prática individual de cada arquiteto. Essa dualidade levou o curador, na folha de sala, a destacar como um dos aspetos mais relevantes deste edifício «o encontro de duas opostas utopias num empreendimento comum: os princípios, métodos e linguagens internacionalistas da arquitetura do movimento moderno com a política colonial nacionalista do regime do Estado Novo» («Estação Central da Beira», 2023 [folha de sala]).

A exposição viajou por vários outros locais antes de chegar à Fundação Calouste Gulbenkian (a Biblioteca de Arte conserva um desdobrável sobre estas exposições [cota AAT 6142]). A primeira apresentação decorreu na Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho, de 30 de março a 20 de abril de 2022, onde foi inaugurada com um seminário que incluiu comunicações sobre a construção dos caminhos de ferro nas antigas colónias portuguesas, a arquitetura portuguesa em África e a história da construção em betão armado em Portugal.

De 14 de maio a 18 de junho de 2022, esteve patente na Fundação Marques da Silva, no Porto, com o título «Estação Central da Beira: Keeping It Modern». Nesta edição, incluía alguns desenhos e fotografias relativos ao Grande Hotel da Beira (1946-1954), provenientes do arquivo do seu arquiteto, José Luís Porto, depositado nesta instituição.

Entre 19 de julho e 2 de agosto do mesmo ano, a exposição foi apresentada na Casa do Artista, na Cidade da Beira (Moçambique). No dia 21 de julho, foi realizado, na Faculdade de Arquitetura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane, um seminário sobre conservação do património construído, cujo programa incluía intervenções e conversas dos membros da equipa do projeto da Estação Central da Beira e outros investigadores à volta do tema da conservação da memória e os desafios na valorização e reabilitação da arquitetura do movimento moderno. O seminário contou também com reproduções em tamanho reduzido dos painéis da exposição sobre a Estação Central. De 11 a 25 de outubro, a exposição foi apresentada no Departamento de Arquitetura da Universidade de Coimbra. Proposta a sua apresentação na Fundação Calouste Gulbenkian, foi decidido associá-la à exposição «Nenhum sítio é deserto» (que aborda a Piscina de Marés de Álvaro Siza, único edifício em Portugal que recebeu uma bolsa do programa Keeping It Modern), por iniciativa do diretor da Biblioteca de Arte e Arquivos, João Vieira.

João Vieira destacou diversas razões para apresentar as duas exposições em conjunto dentro da programação da Biblioteca. Entre as suas principais motivações, salientam-se: a arquitetura como um tema central da Biblioteca de Arte e Arquivos, depositária de vários espólios de arquitetos portugueses; a proximidade de linguagens modernistas e problemáticas de conservação (nomeadamente relacionadas com o uso de betão cru) entre os dois edifícios em exposição e o edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian; e a aproximação à comunidade científica proporcionada pela colaboração com duas universidades – que também se traduziu na realização do colóquio «Keeping It Modern. Conservação e gestão de património do movimento moderno», no dia 21 de setembro de 2023. Este colóquio, em cuja abertura Vieira reiterou as motivações atrás enunciadas, juntou representantes das várias instituições envolvidas (Universidades do Porto e do Minho, Getty Foundation), profissionais ligados ao restauro de arquitetura moderna e membros das equipas responsáveis pelas duas exposições (Nota de Aprovação, 7 mar. 2023, Arquivos Gulbenkian, [cota brevemente disponível]; Vieira, «A Fundação Calouste Gulbenkian e a arquitetura», in Conversas. Álvaro Siza: Piscina de Marés, 1960-2021, 2023, p. 8). João Vieira referiu ainda como motivo de interesse para apresentar esta exposição os subsídios concedidos pela Fundação Calouste Gulbenkian na década de 1960 para construir edifícios de arquitetura moderna na cidade da Beira, o que resultaria na inclusão de um núcleo inédito sobre o tema na exposição.

A exposição explorou o contexto e o processo de encomenda, projeto e construção, bem como as opções construtivas e estéticas dos seus autores, recorrendo a fotografias, publicações periódicas, documentos de arquivo e textos explicativos em formato documental. Dois suportes em ângulo reto delimitavam o espaço no Átrio da Biblioteca de Arte (a outra metade do Átrio foi dedicada à exposição «Nenhum sítio é deserto»). Esses suportes sustentavam painéis verticais com textos impressos e reproduções de imagens organizados em núcleos temáticos. As imagens reproduzidas não continham legendas, tornando essencial a consulta da folha de sala, disponível em português e inglês. Entre as fontes das imagens, destacavam-se o arquivo fotográfico do curador, bem como desenhos técnicos e outros documentos provenientes de várias instituições (arquivos da Estação Central da Beira, do Museu dos Caminhos de Ferro de Moçambique e do antigo Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento e Arquivo Histórico Ultramarino).

O primeiro núcleo ocupava a parede entre a porta da Biblioteca de Arte e a cafetaria. Este núcleo apresentou, através de fotografias, uma seleção de 151 edifícios de arquitetura moderna em Moçambique – abrangendo usos comerciais, residenciais, escolares, serviços públicos, equipamentos de saúde e de lazer, infraestruturas de transportes, entre outras –, construídos principalmente durante as décadas de 1950 e 1960 (no caso da Beira, há alguns edifícios modernistas já da década de 1940, projetados pelo arquiteto José Luís Porto). Este panorama era acompanhado por duas projeções, uma com mais fotografias de edifícios de arquitetura modernista em Moçambique, e outra com fotografias e vídeos da Estação Central da Beira.

O segundo núcleo («Os arquitetos da estação») dava a conhecer os três arquitetos, com uma seleção de doze projetos de cada um. O terceiro núcleo contextualizava a construção da estação dentro do desenvolvimento urbano da Beira, apresentando reproduções de desenhos técnicos (desde a planta de conjunto a cortes e perfis), imagens da maqueta e fotografias da construção e inauguração. O quarto núcleo documentava aspetos construtivos e estéticos do projeto, recorrendo a uma seleção de fotografias do levantamento feito em 2019-2020 no âmbito do projeto de investigação, complementado com alguns desenhos de projeto e outras imagens.

O último núcleo era uma novidade nesta itinerância da exposição, diferenciando-se no formato dos núcleos anteriores. Três mesas com vitrines continham documentos originais dos arquivos da Fundação, relativos a três edifícios modernistas construídos na cidade da Beira com apoio de subsídios monetários da Fundação Calouste Gulbenkian (dois dos quais projetados por arquitetos envolvidos no projeto da Estação Central). Esta secção incluía 14 fotografias, 9 desenhos técnicos, uma memória descritiva e outros documentos relacionados com o apoio dado pela Fundação e com as inaugurações dos edifícios, fruto da pesquisa realizada nos arquivos da Fundação Calouste Gulbenkian por Mafalda Aguiar. A folha de sala incluía um texto explicativo relativo a cada edifício, mas não as legendas dos documentos expostos.

O Centro Africano de Manica e Sofala (1964-1969), constituído por uma sede e um ginásio, foi projetado pelo arquiteto Mário Acácio Couto Jorge, radicado na Beira desde 1959. A Fundação Calouste Gulbenkian concedeu um subsídio destinado a auxiliar a construção e, posteriormente, a aquisição de livros para a biblioteca da sede, que recebeu o nome de Sala Gulbenkian (a exposição inclui uma lista de livros adquiridos e um estudo da organização da biblioteca).

O Auditório-Galeria de Arte (1965-1967) foi igualmente construído graças a um subsídio da Fundação Calouste Gulbenkian. Este edifício constituiu a primeira fase de um projeto que também incluía uma sede de associações culturais, museu e academia de arte, e que foi o resultado de um concurso ganho por uma equipa composta por Paulo de Melo Sampaio, Bernardino Ramalhete e José Augusto Moreira. O edifício foi inaugurado em 1967 com uma exposição de artes plásticas, da qual eram expostos uma brochura e o catálogo, entre outros documentos. Em 1970, a Fundação também financiou a aquisição de equipamento para o auditório.

Por fim, a Fundação Calouste Gulbenkian, por iniciativa do seu então presidente, financiou a construção de uma nova biblioteca municipal, com o objetivo de substituir instalações provisórias desadequadas. A biblioteca foi construída entre 1963 e 1965, com projeto de João Garizo do Carmo (que em 1962 fora contratado como arquiteto municipal), e acabou por receber o nome de Calouste Gulbenkian. Deste edifício, era exposta a documentação mais completa, incluindo plantas e outros desenhos técnicos e uma memória descritiva.

Os apoios para a construção destes edifícios foram concedidos por José de Azeredo Perdigão, na altura presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, durante uma viagem por Moçambique em 1963. O acompanhamento das obras esteve a cargo do diretor dos Serviços do Ultramar da Fundação, Vítor de Sá Machado, em várias visitas.

Apesar de ser apresentada como uma «amostra do projeto de conservação e manutenção» para a Estação Central, o tema da conservação – ao contrário do que acontece na exposição «Nenhum sítio é deserto» – estava aqui pouco explorado. A perspetiva adotada foi claramente a da história da arquitetura. As necessidades e propostas de conservação do edifício – amplamente documentadas no plano de gestão de conservação que resultou do projeto (Beira Central Station: Conservation Management Plan, mar. 2023) – foram indicadas apenas timidamente (algumas fotografias na secção «Levantamento e inspeção do edifício»), tal como o presente do edifício e os seus significados e usos na atualidade. Todavia, de uma perspetiva histórica, a exposição trouxe uma sólida investigação sobre um marco da arquitetura moderna em Moçambique, incluindo uma abordagem à ação filantrópica da Fundação Calouste Gulbenkian.

Neste sentido, cabe referir as qualificações do curador para abordar o tema da exposição. Arquiteto, professor e investigador na Universidade de Minho, é autor de uma tese de doutoramento sobre arquitetura moderna na antiga colónia de Moçambique (Liberdade & Ortodoxia: Infraestruturas de arquitectura moderna em Moçambique [1951-1964], Universidade do Minho, 2013), no contexto da qual começou a criar um extenso levantamento fotográfico da arquitetura moderna em Moçambique, que aliás alimenta boa parte da presente exposição. É da sua autoria a secção dedicada à arquitetura moderna em Moçambique no estudo pioneiro África: Arquitetura e urbanismo de matriz portuguesa, coordenado por José Manuel Fernandes (pp. 121-135), e foi membro do conselho editorial da obra incontornável Património de Origem Portuguesa no Mundo. Curiosamente, é uma fotografia da Estação Central da Beira da autoria do curador que figura na capa do terceiro volume desta obra, dedicado a África, no qual também assinou a entrada sobre a estação da Beira (pp. 524-525). Assim, a presente exposição divulga de forma mais acessível o estado de uma investigação iniciada na sua tese de doutoramento, na qual este edifício é um dos casos de estudo (pp. 447-500).

O resultado da investigação subjacente à exposição foi também publicado como livro, com o título Estação Central da Beira, Moçambique / Beira Central Station, Mozambique (1957-1966) (Braga, Guimarães: Lab2PT, 2023), publicação que, na sua organização, acompanha de perto a exposição, podendo ser lida como um catálogo.

A exposição teve pouco eco na comunicação social, limitando-se a uma referência na Time Out, uma notícia no site da Universidade do Minho, e pouco mais. O colóquio «Keeping It Modern. Conservação e gestão de património do movimento moderno», realizado na Fundação Calouste Gulbenkian durante a exposição, mereceu alguma atenção de instituições especializadas, como a Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade do Minho e o Espaço de Arquitetura).

Uma vez que a exposição foi realizada num espaço de circulação e acesso livre, não houve contagem do número de visitantes, mas o Relatório e Contas de 2023 afirma que «as exposições, de acesso livre, tiveram uma afluência significativa» (p. 5).

Gerbert Verheij, 2024


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos


Publicações


Material Gráfico


Fotografias

«Colóquio Keeping It Modern». Guilherme d'Oliveira Martins
«Colóquio Keeping It Modern». João Vieira; Elisiário Miranda; Teresa Cunha Ferreira (à esq.); Luis Lage (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». João Vieira; Luis Lage; Teresa Cunha Ferreira (à esq.); Elisiário Miranda (à dir)
João Vieira (à esq.); Teresa Cunha Ferreira (centro); Luís Urbano (à dir)
João Vieira; Elisiário Miranda (à esq.); Teresa Cunha Ferreira; Luís Urbano (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». Guilherme d'Oliveira Martins
«Colóquio Keeping It Modern». Luís Urbano
«Colóquio Keeping It Modern». Bénedicte Gandini (à esq.); Pamela Jerome; Rui Fernandes Póvoas; Javier Ors Ausin (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». Bénedicte Gandini (à esq.); Pamela Jerome; Rui Fernandes Póvoas; Javier Ors Ausin (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». Bénedicte Gandini; Rui Fernandes Póvoas; Javier Ors Ausin (à esq.); Pamela Jerome (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». Pamela Jerome; Rui Fernandes Póvoas; Javier Ors Ausin (à esq.); Bénedicte Gandini (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». Bénedicte Gandini; Pamela Jerome; Rui Fernandes Póvoas (à esq.); Javier Ors Ausin (à dir)
«Colóquio Keeping It Modern». João Vieira (à esq.); Elisiário Miranda; Luis Lage; Teresa Cunha Ferreira (à dir)

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos relacionados com a produção da exposição. Contém documentação textual, gráfica, fotográfica e audiovisual.


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