Masayume, de [mé]

Tendo a cidade de Lisboa como pano de fundo, o coletivo de arte contemporânea 目[Mé] concebeu uma instalação que age sobre as nossas perceções do mundo físico, alertando para a instabilidade e a incerteza que nos rodeiam. Masayume esteve integrada na Temporada Engawa, uma programação que, em 2023, trouxe a Lisboa um conjunto de criadores do Japão e da diáspora japonesa.

Por ocasião dos 480 anos da chegada dos exploradores portugueses à ilha japonesa de Tanegashima, em 1543, a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) aliou-se à Embaixada Japonesa em Portugal com vista a realizar uma temporada de arte japonesa no verão de 2023. Nesse mesmo ano, o Centro de Arte Moderna (CAM), ao celebrar quarenta anos de existência, preparava-se para inaugurar o seu novo espaço, concebido pelo arquiteto Kengo Kuma. Inspirado no conceito de «engawa» – espaço arquitetónico, geralmente de madeira, que marca a transição entre o interior e o exterior das casas tradicionais japonesas, funcionando como uma área de contemplação –, o projeto do novo CAM privilegiaria precisamente a conexão entre exterior e interior através de jogos de luz, transparências e materiais. Este conceito, curiosamente, ecoa a visão modernista que Ruy d’Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid seguiram para a arquitetura da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian e dos jardins envolventes. Na mesma linha, Kengo Kuma propôs-se reimaginar o CAM como um espaço expositivo permeável ao ambiente exterior. A Temporada Engawa, pautada por eventos expositivos fora de portas e site-specific, simboliza esta nova relação do Centro de Arte Moderna com o espaço, ao mesmo tempo que promete um muito aguardado retorno ao investimento da Fundação no domínio da live art, da performance e da instalação.

A Temporada Engawa, com curadoria de Emmanuelle de Montgazon e Rita Fabiana, integrou-se na iniciativa «CAM em Movimento», desenrolando-se em três momentos distintos. O primeiro ocorreu de 20 a 23 de julho e incluiu a instalação Masayume, do coletivo 目 [Mé], duas performances no Grande Auditório – 100 Cymbals (2019), de Ryoki Ikeda, e But what about the noise of crumpling paper (1985/2021), de John Cage com Ryoji Ikeda, produzida em parceria com a Fundação de Serralves e com o apoio do Institut Français du Portugal/MaisFRANÇA 2023 –, e ainda a performance Cuisine Existentielle, da artista Lei Saito. Este primeiro momento da temporada celebrou o novo diálogo entre a Fundação e a cidade de Lisboa, não só promovendo encontros com obras, pessoas e gastronomia, mas sobretudo homenageando as ligações entre o compositor John Cage e a cultura japonesa. O programa antecipou também o fim de semana dedicado ao movimento Fluxos, que a FCG organizaria no final do verão.

O segundo momento da temporada dedicou-se à relação entre as artes visuais e as sonoras, investindo em músicos locais e artistas de renome internacional. Contou com uma nova encomenda e apresentação de uma seleção de obras históricas da artista Mieko Shiomi, membro do movimento Fluxos desde 1964, marcando a estreia da artista em Portugal. O programa, originalmente concebido para a Trienal de Aichi 2022, foi seguido de três performances no Grande Auditório: Ami Yamasaki apresentou-se a solo, em Performance, depois em duo com Ko Ishikawa, em Duo Performance, e, por fim, ao lado de Christian Marclay, em Manga Scroll. Marclay, cuja obra foi exibida no Centre Pompidou entre novembro de 2022 e fevereiro de 2023, encerrou este capítulo com o seu reconhecido trabalho na interseção entre artes visuais e sonoras.

O terceiro momento da Temporada Engawa encerrou com a intervenção Side Trip, pelo coletivo de artistas Chim↑Pom from Smappa!Group, realizada de 11 a 19 de novembro de 2023 em Marvila. Coproduzida e coapresentada com o Festival Alkantara, reconhecido pela sua ênfase na performance contemporânea e na interseção entre culturas, a iniciativa chamou a atenção para a comunidade cabo-verdiana em Portugal, inserindo-se numa filosofia de aproximar práticas artísticas e comunidades locais. A escolha de Marvila, um bairro lisboeta com uma presença significativa de imigrantes, e a inspiração em elementos culturais japoneses como o Bon-Odori (festival que celebra os antepassados) dialogaram diretamente com as experiências e histórias da diáspora cabo-verdiana. Esta articulação entre instituições e comunidades reforça o papel do projeto como catalisador de trocas culturais, destacando tanto as especificidades das tradições japonesas quanto as histórias de migração e identidade vividas em Portugal.

A Temporada Engawa inaugurou com Masayume, do coletivo 目 [Mé], composto pela artista Haruka Kojin, pelo diretor Kenji Minamigawa e pelo instalador Hirofumi Masui. Explorando diferentes meios e formas, o portfólio do coletivo reflete uma constante investigação sobre o indivíduo e o espaço incerto e ilimitado que este habita. Originalmente apresentado no Tokyo Festival em 2020, Masayume foi exibido fora do Japão pela primeira vez no âmbito da Temporada Engawa. O título, que se traduz literalmente como «sonho profético», refere-se a um sonho que Kojin teve durante a adolescência: uma enorme face sobrevoava a cidade como uma lua, antes de desaparecer subitamente. Essa visão, desprovida de identidade, assombrou a artista até à idade adulta, inspirando o coletivo a dar-lhe materialidade. Para concretizar a obra, foram realizados vários workshops em diversos locais de Tóquio, onde cidadãos voluntários disponibilizaram os seus rostos. Dentre estes, apenas um foi selecionado para sobrevoar a cidade, numa escolha feita pelo coletivo com a colaboração de convidados de todo o mundo. Em declarações à imprensa, Haruka Kojin explicou que o projeto foi concebido para nascer de uma cooperação (Mouth plust Two \ Press release, 2020).

Abrindo espaço para qualquer indivíduo de qualquer nacionalidade, idade, ou género, com maior ou menor intimidade com o mundo artístico, o projeto recorreu a plataformas públicas de fácil acesso para recrutar rostos, o que viria a ser noticiado, por exemplo, na edição japonesa da revista Time Out (Imada, 17 mai. 2019). A cara selecionada, segundo a artista, deveria sugerir um equilíbrio perfeito entre pertença e contraste com a paisagem urbana: «Escolhemos caras que não se integravam demasiado na linha do horizonte de Tóquio, mas que ainda assim não se destacavam descaradamente do céu.» (Youtube, Floating Head in Tokyo Festival, 20 jul. 21) A cara, transformada num enorme balão de ar quente, sobrevoou a cidade de Tóquio, funcionando como um espelho universal que conectava os indivíduos à sua humanidade. «No céu de Lisboa, pela sua dimensão espetacular, Masayume é este estranho que vai ao encontro dos habitantes.» (Ibid.)

Masayume é uma obra concebida para se integrar na paisagem urbana, inspirando-se na técnica japonesa de shakkei (traduzida como «paisagem emprestada»), amplamente adotada no Japão no planeamento de jardins. Esta técnica visa criar harmonia visual e ampliar a sensação de espaço ao incorporar o cenário circundante como uma extensão natural do jardim, como se dele fizesse parte. Este princípio de design paisagístico está intimamente relacionado com o conceito de «engawa», que não só motivou o projeto arquitetónico para o novo CAM, mas também inspirou a Temporada Engawa. Por sua vez, Masayume não só se funde na paisagem urbana, como também a desintegra e perturba, surpreendendo o observador. «Acho que este trabalho é muito oportuno, já que acredito que este mundo precisa de algo que nos faça esquecer o quotidiano e os problemas que enfrentamos. Se não conseguires esquecer os teus problemas, não te sentirás vivo.» (Ibid.)

Em Lisboa, Masayume integrou as paisagens do Jardim da Cerca da Graça, Praça do Comércio, Jardim da Torre de Belém e Alameda D. Afonso Henriques. O piloto do balão chegava ao local com uma hora de antecedência para preparar o lançamento, que era acompanhado pelos artistas. Com 24 metros de altura, o balão foi lançado no final de julho de 2023, em quatro dias consecutivos e horários específicos: entre as 8h00 e as 10h30 da manhã e, ao fim do dia, entre as 19h00 e as 21h30. Como um ritual de alvorada e ocaso, o balão ascendia aos céus da cidade em dois momentos. Levava cerca de dez minutos a elevar-se e podia pairar até aos 90 metros do solo, preso a uma base fixa no pavimento. A instalação da obra, documentada por fotografias e vídeos, destacava-se pela sua dimensão surreal e pelo impacto visual.

A concretização de Masayume dependeu do tempo cronológico e meteorológico. Cada lançamento pôde ser confirmado com apenas 24 horas de antecedência, dada a particular sensibilidade do balão de ar quente às condições meteorológicas, e em especial ao vento. Logo ao primeiro lançamento, na Praça do Comércio, «a apresentação desta cabeça gigante […] não conseguiu os resultados esperados», devido às condições meteorológicas (Leandro, Lisboa Secreta, 26 jul. 2023). Todavia, a curadora Emmanuelle de Montgazon adotaria a este respeito uma atitude otimista, declarando: «O vento está a dar-nos uma forma de fazer isto não como planeado, mas como uma surpresa, o que penso ser muito poético.» («40 anos do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian», SIC Notícias. Primeiro Jornal, 22 jul. 2023 [vídeo])

Apesar de Masayume ter enfrentado desafios na sua instalação, a receção da obra foi unanimemente positiva, cumprindo o objetivo de marcar o arranque da Temporada Engawa no CAM (Pereira, SIC Notícias, 28 jul. 2023). Embora não existam relatórios oficiais da FCG sobre a afluência de público aos lançamentos do balão, as reportagens televisivas demonstram que estes não passaram despercebidos. O mesmo é comprovado pelas inúmeras fotografias e vídeos que inundaram as redes sociais e que hoje evidenciam o fascínio exercido pela obra sobre quem a contemplou. No Japão, durante os seus primeiros voos do balão, a receção não parece ter sido consensual. Alguns espectadores traçaram paralelos entre a obra de Mé e The Hanging Balloons, história de terror do mangaká (artista de banda desenhada japonês) Junji Ito, na qual «cabeças flutuantes presas com fios de metal são programadas para matar [as] suas cópias humanas» («Cabeça gigante de balão em Tóquio», Casa Abril, 17 out. 2021).

Talvez por ter ocupado espaços públicos na cidade de Lisboa, Masayume foi largamente noticiada não só na imprensa televisiva cultural (como no programa Todas as Artes, da SIC, ou no Folha de Sala, da RTP), como na generalista (nos telejornais da RTP e da SIC Notícias), destacando-se, em especial, a entrevista em direto a Emmanuelle de Montgazon para a SIC Notícias a partir do Terreiro do Paço (Primeiro Jornal, 22 jul. 2023). Por ocasião da apresentação do projeto, a FCG produziu um vídeo, que conta com testemunhos de Benjamin Weil, diretor do CAM, e Emmanuelle de Montgazon. Nesta peça de divulgação institucional, a curadora explica as premissas da Temporada Engawa e do projeto do coletivo Mé (CAM \ Engawa [vídeo], 2023). A cobertura noticiosa incluiu ainda artigos na imprensa digital, nomeadamente nos jornais Público e Notícias ao Minuto, bem como na Time Out, entre várias outras plataformas.

Do ponto de vista pós-colonial, a exibição de Masayume em Lisboa, no ano em que se comemoraram os 480 anos da chegada dos portugueses ao Japão, carrega uma «ironia amarga». Esta ironia reside na tensão entre a mensagem da obra – que apela ao público para olhar para si e para o outro como um só – e o contexto histórico das relações luso-japonesas, marcadas por episódios complexos. Assim, ao promover reflexões sobre o passado e o presente, Masayume relembra, de forma subtil mas pungente, as contradições históricas que continuam a moldar as dinâmicas entre culturas.

A FCG não dedicou qualquer atividade educativa ou de mediação a este evento.

Benedita Menezes, 2024


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2013 / Jardim Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

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