José de Almada Negreiros. Desenho em Movimento

Exposição individual de José de Almada Negreiros (1893-1970) com curadoria de Mariana Pinto dos Santos e realizada no Museu Nacional de Soares dos Reis. A mostra reuniu cerca de 90 trabalhos do artista, predominantemente desenhos, propondo um olhar sobre o caráter cinematográfico da sua vastíssima e multifacetada obra.
Solo exhibition of the works of José de Almada Negreiros (1893-1970), curated by Mariana Pinto dos Santos and held in Museu Nacional de Soares dos Reis. The exhibition brought together around 90 pieces by the artist, mainly drawings, offering a look at the cinematic nature of his vast and multifaceted œuvre.

Com curadoria de Mariana Pinto dos Santos, a exposição «José de Almada Negreiros. Desenho em Movimento» inaugurou no Museu Nacional de Soares dos Reis, no dia 29 de novembro de 2017, cinco meses após o encerramento de «José de Almada Negreiros. Uma Maneira de Ser Moderno», realizada em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

No dia da inauguração, às onze horas da manhã, foi organizada uma visita guiada para jornalistas, orientada pela curadora, que, in loco, apresentou a exposição. Esta ação de divulgação e promoção visou responder ao enorme interesse e curiosidade que a mostra suscitou na cidade, facto confirmado pela grande afluência de público na cerimónia de inauguração, em que estiveram presentes Paula Silva, diretora da Direção-Geral do Património Cultural, Nuno Vassalo e Silva, diretor-adjunto do Museu Calouste Gulbenkian, e a curadora Mariana Pinto dos Santos, e sobre a qual se lia: «Centenas de pessoas estiveram ontem na abertura da exposição […]. Pouco passava das seis da tarde, e já havia dezenas de pessoas à entrada do Museu Soares dos Reis. […] As pessoas foram-se chegando para o hall de entrada, amontoando-se para conseguir ouvir os pequenos discursos de abertura. Daí a pouco, não cabia ninguém. Havia até gente do lado de fora do edifício, à porta.» (Meirelles, JUP online, 30 nov. 2017)

A mostra reuniu 90 trabalhos, constituídos maioritariamente por desenhos, de José de Almada Negreiros (1893-1970), artista ímpar do modernismo português, provenientes da coleção do Centro de Arte Moderna da FCG, do acervo da família do artista e de diversos colecionadores particulares, combinando uma seleção de obras apresentadas aquando da mostra «Uma Maneira de Ser Moderno» com um conjunto de trabalhos inéditos, encontrados já depois do encerramento da exposição na capital, em junho de 2017. O projeto curatorial, diferenciando-se do da mostra antológica organizada na FCG, integrava um expressivo número de desenhos de Almada que evidenciavam este novo desígnio expositivo, o de «propor um olhar sobre o carácter cinematográfico da linguagem artística da modernidade inequivocamente expresso na obra de Almada, mostrando como o artista dialogou com o cinema através do desenho» (Santos, José de Almada Negreiros. Desenho em Movimento, 2017, p. 2). Tal propósito possibilitou ainda incluir no corpus selecionado para exposição um conjunto de trabalhos que ampliavam o enfoque teórico e densificavam a significação do universo almadiano, com a apresentação de obras referenciais, como Banhistas (1925) (Inv. 83P58), Retrato de Sarah Affonso (1938) (Inv. DP222), Sem título (Pinturas para Alfaiataria Cunha) (1913) (Inv. 83P55), Quadrante I (1957) (Inv. 83P63) ou Estudo para o painel «Começar» (1916-1968) (Inv. 17DP4381), associando-se igualmente alguns autorretratos do artista – um desenho de 1948 (Inv. DP220), ou um outro de 1950 (Inv. DP195) –, composições criadas em torno de temas do quotidiano, das artes do espetáculo e do imaginário cinéfilo, a reconstituição do friso para o Cine San Carlos, em Madrid, ou os estudos para os trípticos da Gare Marítima da Rocha Conde de Óbidos, do acervo do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado. Por outro lado, Mariana Pinto dos Santos enfatizava a «hibridez entre desenho e cinema», ideia que pautava o propósito da exposição, associando aos trabalhos em exposição uma seleção de textos literários, poéticos e ensaísticos, agrupados em mesas-vitrine distribuídas pelo espaço expositivo, e colocando em lugar de destaque os dois cartazes de Almada, datados de 1933, criados para promoção d’A Canção de Lisboa, de José Cottinelli Telmo (1897-1948), o primeiro filme sonoro integralmente produzido em Portugal e obra de referência na filmografia portuguesa da primeira metade do século XX (Comunicado de imprensa, 2017, Arquivos Gulbenkian, ID: 33904).

A entrada no espaço expositivo fazia-se através de um painel onde, novamente, o movimento do traço, a vermelho, desenhava o recorte de um dos autorretratos do artista, imagem acompanhada por uma citação datada de 1938, onde se lê: «Toda a razão de ser de uma obra de arte, a sua independência, ainda que essa arte se chame cinema, está exactamente no desenho. […] A mãe de todas as artes chama-se desenho», prenunciando o que se irá experienciar na visita.

«Fascinado com a possibilidade de dar vida ao desenho e de o pôr em movimento» (Ibid.), Almada recorre à conjugação entre imagem cinematográfica e desenho, que revela declaradamente no seu processo criativo, em obras como La Tragedia de Doña Ajada (1929) ou no filme desenhado O Naufrágio da Ínsua (1934), trabalhos apresentados na cidade do Porto – à semelhança do que acontecera em Lisboa.

Esta exposição integraria um conjunto de seis vidros fotografados e pintados à mão pelo artista, que reproduziam os desenhos originais de Almada apresentados em Madrid sob o título de La Tragedia de Doña Ajada, pensados para serem projetados num aparelho de lanterna mágica: um conjunto de trabalhos até então desconhecidos, oriundos de uma coleção particular, que permitiam entender a forma como o artista conferiu movimento aos desenhos, recortados em silhueta, que compunham uma história, com libreto do poeta e dramaturgo espanhol Manuel Abril (1884-1943), hoje perdido, associada a um trecho musical assinado pelo compositor espanhol Salvador Bacarisse (1898-1963), gravado em 2017 pela Orquestra Gulbenkian e apresentado também na exposição do Porto. Estes vidrinhos, pintados em tonalidades diferentes das utilizadas nos desenhos, integram o conjunto de objetos em exposição, e as imagens animadas eram projetadas, em formato digital, numa câmara escura, localizada no centro da sala do Museu Nacional de Soares dos Reis. A efetivação do movimento, tecnicamente possível através do recurso ao sistema de lanterna mágica – aparelho já obsoleto no final dos anos 20 do século XX, como salienta Mariana Pinto dos Santos –, era idealmente recriada numa outra série de desenhos, o filme desenhado O Naufrágio da Ínsua, em que a expressividade da animação e a energia do traço e da palavra escrita imprimem ritmo (por outras palavras, movimento) à observação sequenciada do contemplador, ou na força dinâmica da complexidade formal do desenho para vitrais, frescos ou tapeçarias ou na «simplicidade daquele barco definido em apenas três traços, e que fecha o percurso da visita» (Andrade, Público, 29 nov. 2017).

De entre as atividades programadas no âmbito da exposição destaca-se a conferência proferida pela filóloga Celina Silva, professora na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sobre «Almada e a Literatura em Movimento», no dia 23 de fevereiro de 2018.

Inicialmente programada para encerrar no dia 18 de março de 2018, a exposição foi prolongada até ao final do mês («Mais duas semanas para ver Almada Negreiros no Soares dos Reis», Diário de Notícias, 13 mar. 2018).

Isabel Falcão, 2022


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

"O sempre fixe"

José de Almada Negreiros (1893-1970)

"O sempre fixe", Inv. DP189

"Os Dois Sempre Fixes"

José de Almada Negreiros (1893-1970)

"Os Dois Sempre Fixes", Inv. DP209

[Autorretrato]

José de Almada Negreiros (1893-1970)

[Autorretrato], Inv. DP220

[Banhistas] (Pintura para o café "A Brasileira" do Chiado, Lisboa)

José de Almada Negreiros (1893-1970)

[Banhistas] (Pintura para o café "A Brasileira" do Chiado, Lisboa), Inv. 83P58

Autorretrato

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Autorretrato, Inv. DP195

Carta enviada de Paris ao Club das Cinco Cores

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Carta enviada de Paris ao Club das Cinco Cores, Inv. DP167

Estudo para o painel «Começar»

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Estudo para o painel «Começar», Inv. 17DP4381

Greta Garbo en "El beso"

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Greta Garbo en "El beso", Inv. DP155

O Ponto de Bauhütte

José de Almada Negreiros (1893-1970)

O Ponto de Bauhütte, 1957 / Inv. 83P64

Porta da harmonia

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Porta da harmonia, Inv. 83P65

Quadrante I

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Quadrante I, Inv. 83P63

Relação 9/10

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Relação 9/10, Inv. 83P62

Retrato de Sarah Affonso

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Retrato de Sarah Affonso, Inv. DP222

S/ Título

José de Almada Negreiros (1893-1970)

S/ Título, Inv. DP181

Sem título

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título, Inv. DP216

Sem título

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título, Inv. DP217

Sem título

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título, Inv. DP218

Sem título

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título, Inv. DP221

Sem título (Pinturas para Alfaiataria Cunha, Lisboa)

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título (Pinturas para Alfaiataria Cunha, Lisboa), Inv. 83P55

Sem título (Pinturas para Alfaiataria Cunha, Lisboa)

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título (Pinturas para Alfaiataria Cunha, Lisboa), Inv. 83P56

Sem título [Manicure]

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Sem título [Manicure], c. 1928-1930 / Inv. DP219

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP184

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP197

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP201

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP203

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP207

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP164

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP213

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP168

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP212

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP183

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP206

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP150

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP187

Título desconhecido

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Título desconhecido, Inv. DP226

Um homem casado

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Um homem casado, Inv. DP200


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

[José de Almada Negreiros. Desenho em Movimento]

29 nov 2017
Museu Nacional Soares dos Reis
Porto, Portugal
Conferência / Palestra

Almada e a Literatura em Movimento

23 fev 2018
Museu Nacional Soares dos Reis
Porto, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Paula Silva, Nuno Vassallo e Silva, Mariana Pinto dos Santos e Artur Santos Silva (da esq. para a dir.)
Mariana Pinto dos Santos (à esq.)
Nuno Vassallo e Silva (à esq.) e Mariana Pinto dos Santos (à dir.)
Mariana Pinto dos Santos, Rui Gonçalves e Nuno Vassallo e Silva (da esq.para a dir.)
Rui Gonçalves (ao centro)
Mariano Pinto dos Santos (à esq.) e Paula Silva, diretora da Direção-Geral do Património Cultural (ao centro)
Maria João Gagean de Vasconcelos (à esq.) e Rui Gonçalves (à dir.)

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém pressbook e materiais gráficos. 2017 – 2018

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 04709

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência interna e externa, listagem de obras, plano da exposição e impressão de diversas páginas do site do artista Ernesto de Sousa relacionadas com o projeto «Almada, Um Nome de Guerra». 2017 – 2018

Arquivos Gulbenkian (Museu Calouste Gulbenkian), Lisboa / MCG 04822

Pasta com documentação referente à programação das atividades da FCG para os anos de 2017 a 2019. Contém correspondência interna e externa. 2016 – 2017

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 50549

Coleção fotográfica, cor: aspetos, montagem e inauguração (MNSR, Porto) 2017


Exposições Relacionadas

Almada

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1984 / Centro de Arte Moderna, Lisboa

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