Artistes Poètes, Poètes Artistes. Poésie et Arts Visuel du XXe Siècle au Portugal

Exposição coletiva comissariada por Maria João Fernandes, que aprofundava o cruzamento entre artes visuais e poesia ao longo do século XX em Portugal. A mostra foi constituída por nove secções temáticas, seguindo um percurso cronológico. Cada um dos artistas-poetas e poetas-artistas era representado por excertos de poemas e por obras de arte.
Collective exhibition curated by Maria João Fernandes exploring the intersection between the visual arts and poetry in Portugal throughout the 20th century. The show consisted of nine themed sections, arranged chronologically. Each of the artist-poets and poet-artists were represented by excerpts of poetry or works of art.

Exposição temática que aprofundava o cruzamento entre artes visuais e poesia, em Portugal, ao longo do século XX.

Apresentada na Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France, esta exposição foi comissariada pela crítica de arte e poetisa Maria João Fernandes, que a dedica a Robert Bréchon (1920-2012), então recentemente falecido. Referido pela curadora como «grand ami et divulgateur de la culture portugaise», mas também «maître de la pensée au XXe siècle, mon cher maître», Gilbert Durand chegou a participar no catálogo da exposição com o texto «Portugal et le capital de rêves», no qual afirma que esta mostra «nous dévoile à nouveau l'horizon jadis décrits par Fernando Pessoa dans son célèbre poème Message, un horizon de rêves prêts à refleurir dans une magique réalité» (Artistes Poètes, Poètes Artistes. Poésie et Arts Visuels du XXe Siècle au Portugal, 2013, p. 29).

Essa diversidade de «sonhos prontos a florescer novamente», que Durand menciona, é resultante do contacto com a obra poética de artistas plásticos e com a obra pictórica, gráfica e até mesmo escultórica de poetas. A convivência destas formas de expressão distintas leva em alguns casos, como a exposição procurava demonstrar, a diálogos e contaminações, e, portanto, à diluição de limites entre os vários campos artísticos.

Cada um dos artistas-poetas ou poetas-artistas era representado por excertos de poemas e por obras de arte. Entre os trabalhos selecionados, alguns pouco conhecidos e de muito diferentes proveniências, destaca-se um número significativo pertencente à coleção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ao longo da sala de exposições do primeiro andar, foram criados diversos espaços, por vezes com recurso a painéis coloridos, para a apresentação das nove secções temáticas, organizadas cronologicamente desde «Lyrisme, symbolisme et saudosisme» até «Poésie visuelle».

Tendo por base a tese de David Mourão-Ferreira de que o modernismo em Portugal escondeu por muito tempo a importância dos poetas que o precederam, a primeira secção – «Lyrisme, symbolisme et saudosisme» – era dedicada a alguns poetas dessa geração, como João de Deus e Teixeira de Pascoais aos quais se juntou António Carneiro, enquanto pioneiro do simbolismo em Portugal, que, segundo a curadora, «crée un style unique marqué par la présence de la poésie dans ses dessins [com temas literários] aux lignes très pures et par l'évocation de l'âme des êtres et de la nature dans sa peinture» (Artistes Poètes, Poètes Artistes. Poésie et Arts Visuels du XXe Siècle au Portugal [Folha de sala], 2013).

Seguia-se uma evocação à geração de Orpheu, aqui representada por Almada Negreiros e Fernando Pessoa. Ao Retrato de Fernando Pessoa (1964) de Almada (1893-1970), juntaram-se um autorretrato do artista, um retrato da sua mulher Sarah Affonso (1899-1983) e três caligramas realizados em 1920, sob inspiração de Apollinaire. Na mesma sala, num painel atravessado, disposto na perpendicular, foi incluído um herdeiro do modernismo: o pintor-poeta João Carlos (Celestino Gomes), representado por um autorretrato e uma pequena pintura (Dahlias, 1941), acompanhados de uma citação do poema «Sinfonia Incompleta» (1958).

A revista Presença serviu de mote para outra das secções, enquanto espaço de diálogo entre poesia e artes plásticas, durante o segundo modernismo. A par da obra poética e gráfica de José Régio, um dos fundadores da referida revista, foram apresentados pinturas e desenhos do seu irmão Júlio dos Reis Pereira, também poeta com o pseudónimo Saul Dias.

O maior núcleo da exposição era o dedicado ao surrealismo, que, como afirma a curadora, «même s'il est apparu au Portugal avec un grand décalage par rapport au reste de l'Europe (la première exposition date de 1949), a atteint une expression de vibration lyrique et onirique intense et original» (Dossier de Imprensa, 2003, p. 5). Em «Survivance du surréalisme», foi apresentada uma diversidade de propostas que abrangiam um vasto arco temporal, de 1935, data de uma pintura de António Pedro que incorpora a palavra, e 2004, data da escultura Hommage à André Breton «Le Revolver à Cheveux», de Isabel Meyrelles (1929). Assim, as pinturas abstratas e gestuais de António Areal (1934-1978) e Mário Cesariny (1923-2006) partilhavam o espaço com as pinturas de signos enigmáticos de Alexandre O'Neill (1924-1986), os desenhos figurativos de personagens de sonho e fantasia de Cruzeiro Seixas (1920-2020), mas também representações da realidade e do sonho por Natália Correia (1923-1993), entre outros.

«Le Néoréalisme et après» e «Du néoréalisme au réalisme magique», secções contíguas e complementares, reuniam uma seleção de obras de poetas ligados à coleção «Novo Cancioneiro» (1941-1944), definida por Alexandre Pinheiro Torres como a primeira grande manifestação coletiva do neorrealismo português. Do conjunto, fundamentalmente composto por autorretratos, destacam-se as obras de Júlio Pomar e de Mário Dionísio.

«Poésie visuelle» distinguia-se das restantes secções pelo modo mais significativo como os artistas-poetas-artistas selecionados se encontravam representados, com obras que abrangiam vários momentos da sua produção. Aos trabalhos de Ana Hatherly (1929-2015) e Ernesto M. de Melo e Castro (1932-2020), apresentados enquanto impulsionadores e primeiros teóricos da poesia experimental, juntavam-se trabalhos de Salette Tavares (1922-1994), Herberto Helder (1930-2015) e Alexandra Mesquita (1969), uma jovem artista que surgia como exemplo da continuação e renovação deste tipo de pesquisas, que juntam palavra e imagem.

A exposição terminava com duas secções de trabalhos, em pintura e desenho, de pintores-poetas e poetas-pintores de gerações distintas, afastando-se, deste modo, da orientação cronológica que servira de base às anteriores secções. Os trabalhos reunidos eram apresentados como resultado de ações que exploram os limites da poesia e da pintura e que a curadora definiu como «escrever a imagem» e «pintar a palavra». Através das escritas-pinturas de Emerenciano (1946) e do percurso caligráfico de Eurico Gonçalves (1932), eram mostradas imagens nascidas da gestualidade da escrita. Por outro lado, através dos trabalhos de Eugénio de Andrade (1923-2005), António Ramos Rosa (1924-2013), Gonçalo Salvado (1967), entre outros, a curadora procurava demonstrar como a obra poética destes se estendia à pintura, escultura e desenho.

Para acompanhar esta exposição, foram produzidas uma folha de sala e uma publicação. Esta última, reflete a estrutura da exposição, e nela destacam-se, além do texto da curadora, as contribuições de Eduardo Lourenço, Robert Bréchon e Gilbert Durand.

Associados a esta exposição, tiveram lugar na Fondation Calouste Gulbenkian – Délégation en France, um encontro de homenagem a Robert Bréchon, pelo seu importante contributo para o pensamento e afirmação internacional da literatura portuguesa, e uma mesa-redonda dedicada a Almada Negreiros, por ocasião do 120 aniversário do seu nascimento.

Mariana Roquette Teixeira, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Auto-retrato

Ana Hatherly (1929-2015)

Auto-retrato, c. 1971 / Inv. DP1462

Escrita Descendente

Ana Hatherly (1929-2015)

Escrita Descendente, 1979 / Inv. 04DP2001

Escuta o conto profano

Ana Hatherly (1929-2015)

Escuta o conto profano, 1998 / Inv. DP1770

Estudo para um retrato de Areal

Ana Hatherly (1929-2015)

Estudo para um retrato de Areal, 1973 / Inv. DP1506

Fortitude

Ana Hatherly (1929-2015)

Fortitude, 1971 / Inv. DP1995

Love letter puzzle

Ana Hatherly (1929-2015)

Love letter puzzle, 1998 / Inv. DP1768

Metáfora da "mão inteligente"

Ana Hatherly (1929-2015)

Metáfora da "mão inteligente", 1975 / Inv. 04DP2003

O encontro

Ana Hatherly (1929-2015)

O encontro, 1997 / Inv. DP1762

O mar que se quebra

Ana Hatherly (1929-2015)

O mar que se quebra, 1998 / Inv. DP1769

O novo, não o livre

Ana Hatherly (1929-2015)

O novo, não o livre, 1998 / Inv. DP1766

Os anjos suspensos (homenagem a Borloch)

Ana Hatherly (1929-2015)

Os anjos suspensos (homenagem a Borloch), 1998 / Inv. DP1761

Pesquiza textual

Ana Hatherly (1929-2015)

Pesquiza textual, 1965 / Inv. DP1708

Retrato de António Areal inacabado

Ana Hatherly (1929-2015)

Retrato de António Areal inacabado, 1969 / Inv. DP1491

s/título

Ana Hatherly (1929-2015)

s/título, 1965 / Inv. DP1700

s/título

Ana Hatherly (1929-2015)

s/título, 1971 / Inv. DP1451

s/título

Ana Hatherly (1929-2015)

s/título, 1971 / Inv. DP1450

Salva a Alma!

Ana Hatherly (1929-2015)

Salva a Alma!, 1997 / Inv. DP1764

sem título

Ana Hatherly (1929-2015)

sem título, 1974-93 / Inv. DP1981

Torah

Ana Hatherly (1929-2015)

Torah, (1973) / Inv. DP1669

Voar

Ana Hatherly (1929-2015)

Voar, 1998 / Inv. DP1765

Auto - Retrato

António Areal (1934-1978)

Auto - Retrato, Inv. DP1496

Opus s/nº

António Areal (1934-1978)

Opus s/nº, 1961 / Inv. 79P1067

Retrato de Mário Cesariny

António Areal (1934-1978)

Retrato de Mário Cesariny, (1970) / Inv. DP1510

Sem título

António Areal (1934-1978)

Sem título, (1969) / Inv. DP1515

Sem título

António Areal (1934-1978)

Sem título, 1969 / Inv. DP1514

Sem título

António Carneiro (1872-1930)

Sem título, 1915 / Inv. DP540

Sem título

António Carneiro (1872-1930)

Sem título, 1919 / Inv. DP544

sem título

António Pedro (1909-1966)

sem título, 1935 / Inv. 04P1274

A água e os seus interpretes

Artur Cruzeiro Seixas (1920-2020)

A água e os seus interpretes, 1968 / Inv. DP520

O Regresso

Artur Cruzeiro Seixas (1920-2020)

O Regresso, 1958 / Inv. 83P850

A noite clara

Carlos Calvet (1928-2014)

A noite clara, 1950 / Inv. DP1329

Pintura 1

Carlos Calvet (1928-2014)

Pintura 1, 1966 / Inv. 83P1375

Escrita Desescrita

Emerenciano da Silva Rodrigues (1946-)

Escrita Desescrita, 1982 / Inv. 83P1408

Zenga

Eurico Gonçalves (1932-2022 )

Zenga, 1974 / Inv. P1379

Auto-retrato

João Carlos (1899-1960)

Auto-retrato, 1929 / Inv. DP559

Dálias

João Carlos (1899-1960)

Dálias, 1941 / Inv. 83P89

[Autorretrato]

José de Almada Negreiros (1893-1970)

[Autorretrato], 1948 / Inv. DP220

Retrato de Fernando Pessoa

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Retrato de Fernando Pessoa, 1964 / Inv. 64P66

Retrato de Sarah Affonso

José de Almada Negreiros (1893-1970)

Retrato de Sarah Affonso, 1938 / Inv. DP222

Aparição

Júlio dos Reis Pereira (1902-1983)

Aparição, 1972 / Inv. 80P370

s/título

Júlio dos Reis Pereira (1902-1983)

s/título, 1975 / Inv. DP577

s/título

Júlio dos Reis Pereira (1902-1983)

s/título, 1939 / Inv. DP583

Almada I

Júlio Pomar (1926-2018)

Almada I, 1970-1973 / Inv. 83P771

Mêlée

Júlio Pomar (1926-2018)

Mêlée, 1968 / Inv. 68P764

Auto- retrato

Lima de Freitas (1927-1998)

Auto- retrato, c.1948 / Inv. 98P628

O terceiro olho

Lima de Freitas (1927-1998)

O terceiro olho, 1981 / Inv. DP1177

"Quadro Muito Doente"

Mário Cesariny (1923-2006)

"Quadro Muito Doente", 1977 / Inv. 81P612

O surrealismo

Mário Cesariny (1923-2006)

O surrealismo, 1959 / Inv. 83P858

Periodo C

Mário Cesariny (1923-2006)

Periodo C, 1951 / Inv. DP1161

Pintura lacerada II

Mário Cesariny (1923-2006)

Pintura lacerada II, 1970 / Inv. 83P539

Poème

Mário Cesariny (1923-2006)

Poème, Paris 1947 / Inv. DP1385 / a

Poème

Mário Cesariny (1923-2006)

Poème, Paris 1947 / Inv. DP1385 / b

Retrato de António Areal

Mário Cesariny (1923-2006)

Retrato de António Areal, (1970) / Inv. DP1492


Eventos Paralelos

Colóquio

Hommage à Robert Bréchon

16 jan 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França
Paris, França
Mesa-redonda / Debate

Présence / Évocation d'Almada Negreiros

24 jan 2013
Fundação Calouste Gulbenkian / Delegação em França
Paris, França

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Artur Santos Silva (à esq.), Isabel Mota (ao centro dir.), Francisco Seixas da Costa (à dir.) e Maria João Fernandes (à dir.)
Isabel Mota (à esq.), Francisco Seixas da Costa (à esq.), Maria João Fernandes (ao centro), Artur Santos Silva (à dir.)
Teresa Nunes da Ponte (à esq.), Miguel Noronha e Távora Magalhães (à dir.)
Francisco Seixas da Costa (à esq.), Artur Santos Silva e Maria João Fernandes (ao centro)

Documentação


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 129482

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG – Delégation en France, Paris) 2013

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 129477

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG – Delégation en France, Paris) 2013


Exposições Relacionadas

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