Lourdes Castro. Além da Sombra

Primeira exposição individual antológica de Lourdes Castro (1930-2022), dando a ver mais de trinta anos do trabalho pluridisciplinar da artista. A mostra apresentou um caminho por sombras projetadas, realçando o que estava além delas, dos contornos pintados aos recortes em plexiglas, da instalação à performance, da gravura aos livros de artista, dos têxteis à cerâmica.
First solo retrospective exhibition of the work of Lourdes Castro (1930-2022) showcasing more than thirty years of multidisciplinary work. The show featured a path through projected shadows, emphasising what lay beyond them, from painted contours to plexiglass cutouts, installations to performance art, printmaking to artist’s books, textiles to ceramic art.

Em 1992, já com um reconhecido palmarés de exposições em Portugal e no estrangeiro, Lourdes Castro (1930-2022) mereceria na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) a primeira grande abordagem retrospetiva da sua obra. Inauguraria a 20 de junho de 1992 nas Galerias de Exposições Temporárias da Sede da FCG (pisos 0 e 01), onde ficaria patente até 6 de setembro desse ano.

A artista uniria esforços com o Centro de Arte Moderna (CAM) da FCG para reunir um acervo que cobriu os cerca de trinta e cinco anos de trabalho que então já somava. Ela própria cederia muitas das 188 peças listadas no catálogo, juntando-se a um numeroso leque de emprestadores portugueses e estrangeiros, em que se destaca a presença de vários artistas.

No CAM, o percurso pela obra da autora iniciava-se em 1956, com as curiosas pinturas reprovadas na Escola de Belas-Artes de Lisboa. Trata-se de exercícios de modelo nu, com adulterações antimiméticas a lembrar a pintura fauve, sobre os quais um jurado escreveu a giz o veredicto «excluído». Obviamente que esse gesto censor foi imediatamente apropriado pela artista, entrando de chofre na gramática que passou a assumir para esses óleos. Celebram agora, visceralmente, um vestígio do vivido. São como a impressão digital de um acontecimento que esteve em presença. Por outras palavras, transformaram-se em signos que destacam o seu valor indexical – como mais tarde teorizaria Rosalind Krauss comentando a arte da década de 1970.

Este momento apropriacionista de Lourdes Castro posiciona-se assim nos primórdios das muitas contaminações epidérmicas entre arte e vida que a sua obra de bom grado toleraria e potenciaria até hoje. Pouco tempo depois, dar-se-ia a necessária saída do país. Primeiro Munique, em 1957, e logo no ano seguinte Paris, surgindo imediatamente a revista KWY (1958-1964) das sinergias de um grupo de artistas portugueses emigrados no estrangeiro. Entre os vários elos que partilhavam, estava o de virem a figurar, todos e cada um deles, entre os primeiros bolseiros Gulbenkian – corria então a passagem para a atribulada década de 1960 e o tempo de uma ditadura portuguesa em breve absorta na Guerra Colonial.

A partir do estrangeiro, Ká Wamos Yndo, surgia assim como uma das decifrações – ironia quase «fadista» – dessa sigla KWY – letras de outros abecedários que não o português, e que passariam a representar a arte de Lourdes Castro, René Bertholo (1935-2005), João Vieira (1934-2009), Gonçalo Duarte (1935-1986), José Escada (1934-1980), Costa Pinheiro (1932-2015). Christo (1935-2020) e Jan Voss (1936) seriam os dois primeiros parceiros de origem não portuguesa entre os vários que o grupo magnetizaria na cena artística internacional.

No experimentalismo que conduz o trabalho de Lourdes Castro nesse início dos anos 60, as colagens e assemblagens com objetos do quotidiano, muitas vezes banhadas a tinta de alumínio, sintonizam-na com as pulsões neodadaístas que circulavam pelo Nouveau Réalisme parisiense, a Pop Art britânica, ou o movimento Fluxus (que tanto se compatibilizará com o caráter da revista KWY).

Em meados dessa mesma década de 1960, a sombra projetada adivinhava-se já como o móbil mais permanente da obra da autora. Começara na pintura e no desenho, expandindo-se rapidamente ao vidro acrílico (plexiglas), às instalações dos lençóis bordados com sombras deitadas, às serigrafias, às performances de teatros de sombra com Manuel Zimbro (1944-2003). Esta retrospetiva demorou-se naturalmente pelas várias aproximações da autora a essa magia das silhuetas e dos contornos, profusamente acompanhada pelas meditações que nos chegam no catálogo de exposição.

Também a poesia visual e os livros de artista são destacados nessa edição, povoada, página após página, por citações em epígrafe – suas e de tantos outros – que Lourdes Castro inclui nos volumes da série Álbum de Família (Lourdes Castro. Além da Sombra, 1992).

Os periódicos consultados revelam que a exposição foi uma iniciativa emparelhada com vários eventos concomitantes em Lisboa centrados na obra da artista. Nomeadamente, uma exposição de colagens suas na Galeria 111 (principal representante de Lourdes Castro em Portugal desde os anos 60, e que cederia algumas das peças expostas na Gulbenkian) e duas outras mostras, ambas na Rua da Academia das Ciências, na Galeria Ratton (com cerâmicas) e na Galeria das Tapeçarias de Portalegre (com tapeçarias) («Lourdes Castro», Expresso, 1 ago. 1992).

A RTP realizaria uma reportagem com uma entrevista à artista conduzida por Isabel Colaço no espaço de exposição. A reportagem integrou um episódio do programa Lourdes Castro e John Coplans (transmitido provavelmente, a 2 de setembro de 1992) que, a par da antológica de Lourdes Castro, abordou ainda John Coplans. Um Auto-retrato, igualmente apresentada no CAM.

Após o fecho da exposição na Gulbenkian, uma seleção das obras expostas em Lisboa viajaria até à cidade de Lagos, no Algarve. Essa mostra inauguraria, com o mesmo título, a 28 de novembro de 1992.

Segundo os registos apurados, 14 das obras listadas no catálogo de Lourdes Castro. Além da Sombra estão hoje inventariadas na Coleção Moderna da FCG. À data desta exposição, cinco delas já tinham sido incorporadas nos acervos da Fundação. In the Café (1964), uma das primeiras sombras em plexiglas, seria adquirida na sequência desta antológica de 1992, juntando-se às 25 peças da autora listadas atualmente nos acervos do Museu Calouste Gulbenkian. A elas somam-se ainda os livros de artista de sua autoria nas reservas da Biblioteca de Arte da FCG.

Esta aquisição progressiva de trabalhos da autora por parte da FCG iniciou-se logo em 1967 no âmbito da itinerante internacional Art Portugais. Peinture et Sculpture du Naturalisme à nos Jours, FCG/Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), Bruxelas Paris e Madrid, 1967-1968. As mais recentes incorporações neste importante núcleo autoral da atual Coleção Moderna tiveram lugar em 2012.

Desde a década de 1960, a FCG pôde levar a público, por várias vezes, a obra desta autora de referência do panorama artístico europeu. Como marco mais recente dessa já longa cumplicidade, destaque-se a exposição Lourdes Castro. Todos os Livros, de 2015.

Daniel Peres, 2018


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Auto-Retrato

Lourdes Castro (1930-2022)

Auto-Retrato, 1954 / Inv. 99P696

Caixa Azul

Lourdes Castro (1930-2022)

Caixa Azul, 1963 / Inv. 99E808

Caixa madeira

Lourdes Castro (1930-2022)

Caixa madeira, 1963 / Inv. 99E809

Grande herbário de sombras (Sombra de Datura)

Lourdes Castro (1930-2022)

Grande herbário de sombras (Sombra de Datura), 1973 / Inv. GP948

In the Café

Lourdes Castro (1930-2022)

In the Café, 1964 / Inv. 92P300

In the Café

Lourdes Castro (1930-2022)

In the Café, 1964 / Inv. 92P300

Letras e duas casas

Lourdes Castro (1930-2022)

Letras e duas casas, 1962 / Inv. 10P1622

Letras e Pente

Lourdes Castro (1930-2022)

Letras e Pente, 1962 / Inv. 10P1623

Odalisque d' Après Ingres

Lourdes Castro (1930-2022)

Odalisque d' Après Ingres, 1964 / Inv. 67P291

Sombra deitada de Umberto Spínola

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombra deitada de Umberto Spínola, 1971 / Inv. 84TXP1

Sombra Projectada de Christa Maar

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombra Projectada de Christa Maar, 1968 / Inv. 83P567

Sombra Projectada de Marta Minujín

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombra Projectada de Marta Minujín, 1963 / Inv. 10P1624

Sombra projectada de René Bertholo

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombra projectada de René Bertholo, 1965 / Inv. 81P566

Sombras à volta de um centro (Iris)

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombras à volta de um centro (Iris), 1980 / Inv. 84DP1390

Sombras à volta de um centro (Tulipas)

Lourdes Castro (1930-2022)

Sombras à volta de um centro (Tulipas), 1980 / Inv. 84DP1198

In the Café

Lourdes Castro (1930-2022)

In the Café, 1964 / Inv. 92P300


Publicações


Material Gráfico


Fotografias

António Ferrer Correia (primeiro à esq.), Pedro Tamen (segundo à esq.), José Sommer Ribeiro (primeiro à dir.) e Lourdes de Castro (segunda à dir.)
António Ferrer Correia (primeiro à esq.), Pedro Tamen (primeiro à dir.), Lourdes de Castro (segunda à dir.) e José Sommer Ribeiro (atrás à dir.)
Lourdes Castro e Paula Rego
Lourdes de Castro (ao centro)

Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00239

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém correspondência com a artista (na qual se destaca um modelo autográfico de um convite elaborado para o jantar por ocasião da inauguração); dossiê da oficina Ocre, referente ao restauro de uma das peças expostas; datiloscrito da apresentação de José Sommer Ribeiro para o catálogo (e respetiva tradução); recortes de imprensa. 1992

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00238

Pasta referente à produção da exposição Lourdes Castro. Além da Sombra. Contém convites; epistolografia trocada com a artista e emprestadores; processo concertado com seguradoras e proprietários referente à danificação e restauro de algumas peças da autora. Nesse particular, destaca-se nota manuscrita da artista justificando o restauro efetuado. 1991 – 1994

Arquivos Gulbenkian (Serviço de Exposições e Museografia), Lisboa / SEM 00701

Pasta com documentação interna referente a pagamentos de transportes e outras despesas no âmbito da produção da exposição. 1992 – 1994

Espólio do CAM, Lisboa / Dossiê de Artista n.º 85

Dossiê de artista com documentação referente a vários processos que reuniram a Fundação Calouste Gulbenkian e a artista Lourdes Castro. Contém informações quanto exposições e aquisições de obras, bem como epistolografia diversa trocada com a autora. 1967 – 2011


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