• 1975
  • Papel
  • Tinta-da-china
  • Inv. 04DP2003

Ana Hatherly

Metáfora da “mão inteligente”

Metáfora da “mão inteligente” pode ser visto como uma auto-representação de Ana Hatherly através do desenho da sua mão artística e poética, ocupada com o traçado a pincel de uma pauta densa e, de alguma forma, irregular. A linha diverge (ou converge) no ponto de contacto com o pincel, criando uma segunda linha, menos dócil, que se deforma e ziguezagueia na composição de uma escrita contínua, ilegível. Esta imagem surge como símbolo autoral de uma obra única, criada a partir de «um desejo de investigar, pesquisar, perscrutar “o que o mundo não tem/ o que o mundo não diz/ o que o mundo não é”» [1]. Ou, como Ana Hatherly escreverá noutro lugar, «o poema é para ver-se/ ler-se/ ouvir-se/ mas sobretudo adivinhar-se./ o poeta é uma sombra/ um perfil/ um desaparecimento/ mas sobretudo/ a despedida mão feita poema» [2].

 

A obra poética, literária, visual, cinematográfica, académica e ensaística desta autora é surpreendentemente coerente na diversidade de linhas seguidas e do trabalho concretizado. O seu percurso criativo, iniciado pela poesia no final da década de 50, vai derivar para outros suportes e linguagens pela década de 60, consequência do seu interesse pelo concretismo e pelo experimentalismo, que lhe revelam a dimensão visual do texto –, incidindo, no Portugal da década anterior ao 25 de Abril de 1974, no gosto redobrado pela prática da subversão na área da escrita, sustentada numa rede de contactos internacionais e no recuo selectivo ao passado, nomeadamente à literatura do período maneirista-barroco. Na sua obra será igualmente fundamental o estudo do budismo Zen, muito presente nas Tisanas [3], e da caligrafia chinesa arcaica, que repete exaustivamente no treino da “mão inteligente” [4], interessada no “conhecimento do acto criador e da sua gratuitidade” [5].

 

Os poemas e textos visuais criados, os anagramas – a sua primeira exposição individual intitulou-se Anagramas, em 1969 –, os caligramas, são glosas de uma atitude poética e meditativa sobre a escrita. «Não são obras para ler, são obras para ver» [6], na sua maioria feitas a tinta da china sobre papel, e integrando o branco do papel do mesmo modo que as poesias visuais registam os silêncios da sua vocalização. Ao pôr em comunicação mundos habitualmente tão próximos mas paralelos, como o da poesia e o do desenho (da pintura), Ana Hatherly força, com a elegância posta no desenho reproduzido, a palavra em linha e a linha em palavra.

 

 

Ana Vasconcelos

Maio de 2010

 

 

1 Pedro Sena-Lino, «A mão inteligente de Um calculador de Improbabilidades – entrevista a Ana Hatherly», in Interfaces do Olhar, Lisboa, Roma Editora, 2004, p. 139.

2 In O Cisne Intacto, Porto, Limiar, 1993.

3 Pequenos poemas em prosa que publica dos anos 60 até à actualidade.

4 A expressão foi cunhada pela própria artista, num texto publicado in Mapas da Imaginação e da Memória, Lisboa, Moraes, 1973, p. 5.

5 Ibidem.

6 Pedro Sena-Lino, op. cit., p. 14.

TipoValorUnidadesParte
Largura15,9cm
Altura22,1cm
Tipo data
TextoLisboa, 1975
Posiçãono verso, margem inferior
Tipo assinatura
TextoAna Hatherly
Posiçãona frente, q.i.d.
Tipo data
Texto75
Posiçãona frente, q.i.d.
TipoA definir
Data2004
Ana Hatherly: dessins, collages et papiers peints
Paris, 2005
ISBN:972-635-170-7
Catálogo de exposição
Ana Hatherly: dessins, collages et papiers peints
Centre Culturel Calouste Gulbenkian
Curadoria: Ana Vasconcelos e Melo
6 de Outubro de 2005 a 15 de Dezembro de 2005
Centre Culturel Calouste Gulbenkian, Paris
Exposição de trabalhos de pequeno formato de Ana Hatherly, comissariada por Ana Vasconcelos.
Caligrafias : Uma Realidade Inquieta
Fundação Portuguesa das Comunicações
Curadoria: Maria João Fernandes
9 de Outubro de 2008 a 15 de Janeiro de 2009
Lisboa, Fundação Portuguesa das Comunicações
A exposição inaugurou dia 9 de Outubro de 2008, integrando as várias acções preparadas por ocasião das comemorações do Dia Mundial dos Correios.

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