Manon de Boer na Coleção do CAM

Dois filmes da artista Manon de Boer foram adquiridos para a Coleção do CAM em 2021, no seguimento da exposição «Downtime/Tempo de Respiração», que decorreu em 2020.
Vista da exposição «Manon de Boer. Dowtime/Tempo de Respiração». Espaço Projeto, 2020. Foto: Pedro Pina

A experiência do tempo perpassa o trabalho de Manon de Boer, um tempo que é anterior à realização das obras, que se materializa nestas e se prolonga na nossa relação com as imagens. Na prática artística de Manon, esta é uma experiência do tempo alargada e profundamente ancorada nas próprias condições da criação, que produz incessantemente presente e presença e resiste a uma conceção normativa e produtiva do tempo, regido pelo trabalho e pela produção de valor. Manon indaga esta possibilidade de interrupção do tempo normativo e procura ainda dar resposta – ou dar imagem – ao momento em que a criatividade irrompe e se manifesta, num tempo suspenso e liberto, em que o nada se pode tornar alguma coisa, qualquer coisa; um estado frágil de passagem fundado na descontinuidade e no fragmento, que afirma ou recupera a radicalidade do aborrecimento e a urgência do ócio.

 

Manon de Boer, «The Untroubled Mind», 2016. Cortesia Jan Mot, Bruxelas
Manon de Boer, «The Untroubled Mind», 2016. Cortesia Jan Mot, Bruxelas

 

Manon capta nos seus trabalhos uma ação que se manifesta em tempo real face à câmara, um acontecimento que funda pontes entre o dentro e o fora, entre o interior (o inconsciente, o ritmo interno do corpo, os espaços habitados onde se encontram os corpos) e o exterior (o consciente, o para lá do corpo, o para lá das construção arquitetónicas que nos abrigam, o lá fora das cidades e das paisagens naturais).

 

Manon de Boer, «The Untroubled Mind», 2016. Cortesia Jan Mot, Bruxelas

 

No filme The Untroubled Mind (2016), Manon de Boer ancora um primeiro gesto na busca desse momento/tempo em que do nada algo acontece, como se aqui o nada já estivesse cheio de alguma coisa. The Untroubled Mind é uma obra sobre o tempo da infância, que no filme Caco, João, Mava and Rebecca (2019), da trilogia From Nothing to Something to Something Else, se prolonga até à adolescência. A infância e a adolescência marcam uma temporalidade do desenvolvimento psíquico e corporal humano que é anterior ao tempo regulado e externalizado da idade adulta, subordinado ao trabalho e pontuado pelo ritmo exato do relógio e do calendário, mas também pela organização hierárquica da escrita, aprendidos e interiorizados na escola. O título da obra é dado por um excerto do livro Painting, Writings, Remembrances, de Agnes Martin, no qual a artista discorre sobre a inspiração e a sua relação com um estado da mente calmo e despreocupado, identificando a infância como um tempo em que a tranquilidade e o desenvolvimento da sensibilidade, e, como consequência, da inspiração, estão mais presentes. O filme mostra uma série de jogos de construções – como esculturas ou desenhos de formas e cores no espaço interior da casa – realizada pelo filho da artista, que justapõe, sobrepõe e atravessa objetos. Estas construções formam estruturas variáveis, repetidas, inesperadas, que testam e ensaiam composições e equilíbrios, que a câmara fixa regista, fixando igualmente o tempo fugidio (e perdido) da infância. O fazer do filme, como o fazer das construções, segue despreocupado, e com tempo, o inventário destas formas-esculturas que habitam transitoriamente o espaço da casa.

 

Manon de Boer, «Caco, João, Mava and Rebecca», 2019. Cortesia Jan Mot, Bruxelas
Manon de Boer, «Caco, João, Mava and Rebecca», 2019. Cortesia Jan Mot, Bruxelas

 

Na trilogia From Nothing to Something to Something Else (partes 1, 2 e 3) entram em cena os corpos num espaço interior, vislumbrando-se sempre um «lá fora». Em Caco, João, Mava and Rebecca este «lá fora» é a cidade de Lisboa, vista através de uma janela do edifício da Fundação Calouste Gulbenkian onde tem lugar as filmagens. Manon convoca adolescentes para um jogo de (des)construção e descoberta interna, propondo exercícios improvisados onde se testam as possibilidades da criatividade no contexto informal da criação de movimentos com ligações à dança. Estar e permanecer num lugar, num tempo aberto e sem orientações e expectativas evidenciadas, provoca neste «ensaio» um quase dissolver dos corpos no espaço – deitados, encostados, sentados –, colocando em contacto a maior das superfícies do corpo com a superfície do chão e com as paredes. E os corpos respiram, fazem-se ouvir a partir de dentro, sem palavras, sem outra narrativa que a sua própria existência e presença naquele lugar, no mundo. São também quatro retratos de adolescentes num tempo também ele fugidio, que a câmara revela e fixa. Há algo de minimal, de redução à presença e à potência, um quase antes da ação e a ação que se manifesta finalmente, no intervalo entre os tempos de descanso e de inação.

 

Manon de Boer, «Caco, João, Mava and Rebecca», 2019. Cortesia Jan Mot, Bruxelas
Manon de Boer, «Caco, João, Mava and Rebecca», 2019. Cortesia Jan Mot, Bruxelas

 

As obras The Untroubled Mind e Caco, João, Mava and Rebecca integraram a exposição Downtime/Tempo de Respiração que teve lugar no Espaço Projecto – Museu Calouste Gulbenkian, em 2020, tendo sido adquiridas para a Coleção do CAM em 2021.

Rita Fabiana
Curadora

Atualização em 03 janeiro 2022