Entre as mulheres

As Escolhas das Curadoras: Patrícia Rosas destaca Mily Possoz, artista que se distinguiu como desenhadora, pintora, gravadora e ilustradora.
Mily Possoz, Sem título (pormenor), s. d. Inv. DP49

Em 2019, organizámos um percurso temático dedicado a artistas mulheres na então exposição semipermanente da Coleção do CAM. Esta proposta incluiu mais de 100 obras de 48 artistas, organizadas cronologicamente, de 1916 a 2018, e por tipologia: pinturas, desenhos, têxteis, fotografias, vídeos, esculturas, instalações. A possibilidade de mostrar obras da coleção de artistas geralmente pouco expostas foi uma prioridade. Destaco, assim, Mily Possoz (1888-1968), artista «irónica e aventureira», como tão bem a descreveu Emília Ferreira, que estudou e expôs a obra de Mily.

 

Mily Possoz, Sem título, 1929. Inv. DP50

 

Artista portuguesa de origem belga, Mily Possoz distinguiu-se como desenhadora, pintora, gravadora e ilustradora. Em 1905, Mily foi estudar para Paris, na prestigiada Académie de La Grande Chaumière, seguindo depois os seus estudos na Alemanha com o gravador Willy Spatz, especialista em ponta-seca. Passou também pela Holanda e Bélgica, regressando a Portugal alguns anos depois. O seu contacto com o meio artístico internacional permitiu tecer cumplicidades plásticas com Tsuguharu Foujita, gravador japonês de referência que viveu em Paris de 1913 a 1931, com quem desenvolveu uma relação de amizade e partilhou claras influências estéticas e plásticas numa altura de viragem do seu trabalho para uma perspetiva da modernidade, através da caracterização dos rostos ovais ou na posição das figuras femininas.

 

Mily Possoz, Sem título, s. d. Inv. DP49
Mily Possoz, «Jeune Portugaise» (pormenor), s. d. Inv. GP844

 

Esta influência oriental está patente na obra Sem título. O uso da cor é distribuído com mestria pelo papel: o preto do cabelo sobressai no desenho e o azul-escuro surge na pulseira colocada na pele branca; as cores em segundo plano definem a forma da mulher em primeiro plano, não produzindo profundidade excessiva, embora haja claramente uma sensibilidade espacial. O lilás dos lábios e da saia é suave e diluído. A mão que segura o leque apoia-se no braço que enrola a cintura. O olhar é ausente.

De influências citadinas e cosmopolitas, e utilizando diversas técnicas, as obras de Mily Possoz são de uma desenhadora fugaz e de uma especialista na arte de gravar. A mulher foi um dos temas centrais no seu trabalho: mulheres do povo, trabalhadoras, mas também aristocráticas, ocupando espaços públicos ou interiores domésticos, em ações ou pousando.

De facto, o seu trabalho no campo do desenho revela uma mestria no traço das figuras femininas e no destaque dado à cor, realçando pormenores, como os adereços ou parte da fisionomia das figuras (por exemplo o cabelo, a pulseira ou o chapéu).

Das artistas modernistas é provavelmente a que mais exibiu internacionalmente, falando fluentemente várias línguas e gerindo a sua própria divulgação e comercialização. Também neste sentido Mily transpôs o seu tempo e a cultura portuguesa, trazendo técnicas e influências orientais, pouco comuns na criação artística da época em Portugal.

 

Patrícia Rosas
Curadora do Centro de Arte Moderna


As Escolhas das Curadoras

As curadoras do Centro de Arte Moderna refletem sobre uma seleção de obras, que inclui trabalhos de artistas nacionais e internacionais.

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Atualização em 11 junho 2021

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