Paris, Londres, Bagdade

A ordem das cidades pode ser arbitrária. Calouste Gulbenkian viveu primeiro em Londres, depois em Paris, teve negócios em Bagdade. Nasceu no império otomano, mais concretamente em Üsküdar, na margem oriental do Bósforo, junto a Istambul, mas a sua cultura de origem era arménia. Muitos lugares moldam o homem. A cultura francesa, predominante até ao deflagrar da Grande Guerra, vê-se ultrapassada pelo pragmatismo anglo-saxónico, que se consolida e se propaga, tornando-se fenómeno global. A matriz francesa constitui um núcleo forte da coleção de Calouste Gulbenkian, atravessando as mais diversas categorias artísticas, das artes decorativas à pintura, da ourivesaria à arte do livro. Foi em França que decidiu construir o espaço ideal para receber a sua coleção de arte e onde concebe, na Normandia, um jardim «à sua maneira». No entanto, foram os museus ingleses que escolheu para depositar as suas pinturas e a sua coleção de arte egípcia. Ouviu conselheiros franceses de muitas áreas, mas teve sobretudo o conselho de figuras marcantes da cultura inglesa, até ao eclodir da II Guerra Mundial.

Gulbenkian atravessou culturas, como a sua coleção demonstra, e construiu uma sólida fortuna que alicerçada nos negócios petrolíferos se expandiu a múltiplos interesses um pouco por todo o mundo. O Iraque e a sua companhia de petróleo estabelecem um laço forte com o «senhor 5%». A Fundação nascida por vontade testamentária de Calouste Gulbenkian estabelecerá ligações com Londres e Paris, onde cria delegações. Paris, na mira dos artistas portugueses, ficará para sempre associada à Coleção Moderna, através de artistas de diferentes gerações e vontades artísticas, como António Carneiro, Amadeo de Souza-Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva. Em Londres, durante a década de 1960, os conselheiros da Fundação estão atentos a uma nova geração de artistas, a quem adquirem obras fundamentais da chamada «escola de Caro» (Sir Anthony Caro, St Martin’s School), que incluem esculturas. Em Bagdade, também na década de 1960, são adquiridas obras de artistas iraquianos, cujo modernismo encontra paralelo na produção portuguesa e europeia do mesmo período. Assim, a Coleção Moderna começada a constituir nos primeiros anos da Fundação, descobre, a par da obra dos artistas portugueses, uma vocação internacional, nem sempre continuada, mas que encontra momentos de grande significado artístico. A exposição convoca estas linhas do tempo, materializando múltiplos momentos e circunstâncias através das obras da Coleção do Fundador e da Coleção Moderna.

João Carvalho Dias, curador