Edgar Brand e Canto da Maya: encontros (im)prováveis

Virada a página da Grande Guerra, respirava-se de novo um clima de paz na Europa propiciador de múltiplas mudanças sociais e económicas, mas também de mentalidades e de gostos. A década de 1920, em Paris, é vivida com grande intensidade pelos artistas, que vinham renovando fórmulas e introduzindo novas gramáticas e expressões, que finalmente emergiam para o grande público. A Exposition Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes (1925) foi uma oportunidade da França afirmar perante o mundo que reassumira o pelotão da frente do desenvolvimento industrial e muito em particular das indústrias do luxo. Talvez por isso o fenómeno «Art Déco» tenha vulgarmente sido interpretado como uma manifestação mais da esfera do «decorativo» que do «artístico», associando o primeiro às manufaturas tornadas indústrias, a que apenas uma elite podia aceder.

Quando Calouste Gulbenkian visita a exposição de 1925, Edgar Brandt era já um reputado artista do ferro e não será por acaso que o colecionador acabará por lhe adjudicar importantes encomendas de ferro forjado destinadas à sua casa de Paris. Guardas de janelas, portas interiores (e mais tarde a porta da entrada), balaustradas das escadarias e muito particularmente as portas de elevador presentes na exposição, fazem parte dos trabalhos executados expressamente para Gulbenkian. O motivo central, com a gazela e uma Diana muito estilizada, de latão dourado, é enquadrado por uma decoração de ramos, folhas e botões de lótus, em bronze patinado, que evoca a presença do Antigo Egito, então recentemente redescoberto através de importantes achados arqueológicos.

A matriz clássica continuava viva para muitos artistas que exploravam o gosto Déco, como é confirmado por Canto da Maya, nas esculturas Comédia e Tragédia, apresentadas no Salão de Outono de Paris, em 1926, adquiridas para a Coleção Moderna em 1981. As duas figuras do escultor português então radicado em Paris podiam ter agradado a Gulbenkian, que valorizava a representação feminina, como é confirmado pelo monumental conjunto escultórico de pedra, presente na exposição de 1925, que o adquiriu em 1939 e que hoje se encontra no hall principal do Museu que reúne a Coleção do Fundador.

João Carvalho Dias, curador