FCG Secção: Museu

Do Outro Lado do Espelho

Os espelhos são objetos muito interessantes devido à sua capacidade de nos transportar a outras dimensões, conduzindo-nos por vezes a horizontes de espiritualidade, ilusão ou até de pesadelo.

Os artistas recorrem aos espelhos com diferentes propósitos, ora para revelar ora para disfarçar aspetos das cenas que representam, já que eles oferecem infinitas possibilidades visuais, incluindo a mais óbvia: o reflexo fiel da realidade.

Mas, embora a primeira finalidade do espelho seja efetivamente a representação fiel das aparências, refletindo uma visão coerente do mundo, nem sempre os artistas o utilizaram como tal, preferindo favorecer a ambiguidade e a fragmentação, de acordo com os efeitos pretendidos, que muitas vezes são de ordem filosófica, em detrimento da representação mimética da realidade.

Curadoria: Maria Rosa Figueiredo com a colaboração de Leonor Nazaré

 

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Constituída por 69 obras, número-espelho, a exposição está dividida em cinco núcleos temáticos, precedidos por três figuras introdutórias: uma escultura que funciona como convite à visita, uma pintura que introduz o tema da mostra e um espelho-objeto que proporciona ao visitante ocasião para a si próprio perguntar:

 

«Quem Sou Eu?»: O Espelho Identitário

A interrogação sobre o que somos e quem somos, conduz-nos obrigatoriamente a um olhar no espelho. Porque só há verdade no que somos ou que reinventamos como nosso quando nos colocamos em comparação com o «outro». Neste núcleo estão incluídas obras que representam situações de confronto com o espelho [«Espelho de água», o mito de Narciso, o «estádio do espelho»] tanto por parte dos humanos como de alguns animais.


 

O Espelho Alegórico

O espelho como suporte de uma tradição alegórica de largo espetro, metáfora de vícios e virtudes, da Vaidade à Prudência, do Amor Profano e da Luxúria, mas também do tempo que passa e que conduz ao envelhecimento e à morte inevitável, tendo sempre a mulher como intérprete. 


 

A Mulher em Frente ao Espelho: A Projeção do Desejo

O conceito de intimidade deriva de uma construção social que tem sofrido alterações profundas ao longo dos tempos. Enquanto na Idade Média a ideia de intimidade e de «puritanismo» eram conceitos inexistentes, sendo a toilette feminina submetida a um ritual destinado a uma audiência privilegiada, entre os séculos XVI e XVIII adquiriu contornos de uma sexualidade implícita, relacionada mais diretamente com a sedução. O banho, mais que uma questão de higiene, tornou-se fonte de prazer.

No século XIX, com a separação efetuada entre a esfera pública e a privada, a mulher adquiriu um novo sentido de privacidade no seu relacionamento consigo própria e com o «outro», que resultou na prioridade do «parecer» sobre o «ser».


 

Espelhos Que Revelam e Espelhos Que Mentem

Os artistas são capazes de tecer uma teia intricada de mentiras dentro dos limites das suas telas. Conseguem facilmente distorcer, apagar e manipular a realidade visível, como modo de obter um cenário específico conducente a uma determinada realidade puramente imaginada.

As anamorfoses, supostamente inventadas por Leonardo da Vinci e que constituíam um divertimento muito popular nos séculos XVIII e XIX são disto um bom exemplo. É relevante a sua presença nesta exposição, uma vez que estabelecem a ligação entre arte e conhecimento científico, criando a ilusão de uma realidade inexistente.

O uso do espelho convexo na pintura, utilizado pelos artistas desde o século XV, possibilita o acesso a realidades muito para além do campo de visão frente ao quadro. São como janelas que nos conduzem para além da pintura e nos fazem descobrir o inacessível, como no caso das pinturas famosas de Jan van Eyck e Quentin Metsys.

Fugindo ao artifício científico e já no domínio da pura imaginação incluímos neste núcleo várias obras inspiradas na Alice de Do Outro lado do Espelho, nomeadamente uma pintura de Eduardo Luiz e fotografias de Cecília Costa e Noé Sendas.


 

O Espelho Masculino: Autorretratos e Outras Experiências

O espelho na pintura não é exclusivamente utilizado por representantes do género feminino, embora sejam as mulheres que dele fazem mais uso. Em toda a investigação levada a efeito para esta exposição encontrou-se um único caso de toilette masculina, um homem a fazer a barba. Mas encontrou-se também uma curiosa pintura de um local de toilette masculina (A Casa de Banho de Jacques-Émile Blanche de Maurice Lobre, incluída na exposição), com o ocupante ausente e uma rapariga jovem a abandonar esse espaço de intimidade. Para além da inesperada pintura de Paula Rego, com um homem vestido de saia de xadrez, recriação do Padre Amaro, herói de Eça de Queiroz.

Concluiu-se que a relação Homem-Espelho é feita maioritariamente nos autorretratos, e vários foram os selecionados para esta exposição. O espelho possibilita ao pintor fazer um retrato de si próprio sem recorrer à memória, segundo uma tradição que recua ao século XV, nos primórdios do Renascimento.