Par de bibliotecas de Charles Cressent

Charles Cressent, o mais célebre ebanista da sua época, realizou, em meados da década de 1730, este par de bibliotecas, que Gulbenkian adquiriu em 1933.
Charles Cressent, Biblioteca (de um par), c. 1725. Carvalho, pau-cetim, amaranto; bronzes cinzelados e dourados. Museu Calouste Gulbenkian

O armário de ebanisteria é o móvel de excelência dos anos de 1700-1730, tomando as mais diversas formas e adaptando-se à multiplicidade das exigências de uma sociedade cada vez mais sofisticada. Assim, o armário, que se destinava a guardar diferentes objetos – porcelanas, conchas, medalhas, moedas, livros, marfins –, vai transformar-se e originar novas tipologias – bibliotecas, medalheiros, cantoneiras, entre outros.

Charles Cressent, Biblioteca (de um par), c. 1725. Carvalho, pau-cetim, amaranto; bronzes cinzelados e dourados. Museu Calouste Gulbenkian
Charles Cressent, Biblioteca (de um par), c. 1725. Carvalho, pau-cetim, amaranto; bronzes cinzelados e dourados. Museu Calouste Gulbenkian

Estas imponentes bibliotecas, de fachada tripartida, têm três portas realçadas por quatro pilastras de bronze cinzelado e dourado, encimadas por bustos. Num dos móveis, estes representam as quatro estações do ano e, no outro, as quatro partes do mundo, simbolizadas pelos respetivos toucados das figuras. Deste modo, podemos observar um velho com longas barbas, que representa o Inverno, e três figuras femininas, uma a simbolizar o Outono, com folhas de parra e cachos de uva, outra a invocar o Verão, com espigas de trigo e, por último, uma referência à Primavera, com uma grinalda de flores. Nas quatro partes do mundo, os atributos são: para a Europa, o cavalo; para a Ásia, o elefante; para a América, as plumas e para África, o unicórnio. As amplas aberturas das portas têm molduras de bronze, com motivos simples e simétricos, de enrolamentos e concheados nos cantos e remate superior. As duas bibliotecas são marchetadas a pau-cetim e amaranto, com motivos geométricos de espinhados e quadriculados.

Charles Cressent, Biblioteca (de um par), c. 1725. Carvalho, pau-cetim, amaranto; bronzes cinzelados e dourados. Museu Calouste Gulbenkian

Muitas vezes a temática dos elementos decorativos deste tipo de armário estava relacionada com o seu conteúdo. No caso presente, a natureza, com toda a sua diversidade, e a geografia, com o exotismo dos lugares longínquos, seriam possivelmente os temas das obras encerradas nestas bibliotecas, temas muito em voga no século XVIII.

Charles Cressent foi o ebanista mais célebre da sua época. Filho de um escultor e neto de um marceneiro, Cressent foi para Paris e aí completou a sua formação de escultor, na Academia de São Lucas, onde ingressou em 1714. Mais tarde, ao casar com a filha de Joseph Poitou, ebanista do Regente, Cressent passou a dedicar-se definitivamente à ebanisteria. A sua obra conjuga de maneira brilhante estas duas artes – a de escultor, nos bronzes cinzelados e dourados de enorme sentido artístico, e a de ebanista, nos marchetados e folheados de madeiras exóticas, de padrões geométricos, concebidos de forma a realçar os bronzes.

Embora tenha trabalhado até à segunda metade do século XVIII, em pleno reinado de Luís XV, Cressent foi o ebanista Regência por excelência, mantendo-se sempre fiel ao «estilo» por ele criado nos anos de 1720-1730.

 

Texto de Clara Serra
Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 19 maio 2021