Canapé «à confidents»

A conservadora Clara Serra escreve sobre o canapé «à confidents» do Museu, uma peça imponente que chegou a decorar os aposentos de Napoleão e que viajou entre França, Reino Unido e Portugal antes de integrar a coleção de Calouste Gulbenkian em 1931.

Este canapé imponente, de grandes dimensões, é totalmente revestido com tapeçarias dos Gobelins e apresenta nas extremidades dois assentos triangulares. Esta tipologia de canapé – à confidents – faz parte de um conjunto de móveis criados no século XVIII, época do apogeu da criatividade e do virtuosismo dos ebanistas e marceneiros franceses.

 

Jean-Nicolas Blanchard (c. 1730-c.1796) e Barthélémy Mamés Rascalon (c. 1745-?). Canapé com assentos de canto. França, 1784. Nogueira e faia douradas e folha de ouro; tapeçaria dos Gobelins Museu Calouste Gulbenkian

 

A estrutura do móvel (madeira de nogueira e faia dourada a folha de ouro) apresenta decoração escultórica de grande riqueza. No remate superior, uma aljava com setas cruza-se com um facho em chamas, presos por uma fita. Sobre este conjunto estende-se para os dois lados uma grinalda de flores, onde predominam as rosas e bagas esculpidas em alto-relevo, terminando em cornucópias de onde jorram mais flores.

 

 

Toda a marcenaria é percorrida por um friso com uma grinalda de flores dourada a folha de ouro. Este canapé foi uma encomenda para o salão de Verão das tias de Luís XVI, no Palácio Bellevue, e apresenta a estampilha de Jean-Nicholas Blanchard, mestre marceneiro, que teve a colaboração do escultor Barthélèmy Mamès Rascalon.

 

 

No princípio de século XIX, o canapé esteve no Palácio das Tulherias, nos aposentos de Napoleão, indo depois para o Palácio de Fontainebleau. Vendido no decorrer do século XIX, pertenceu à Coleção Guiness, em Londres, e depois à Coleção Hamilton, em Edimburgo. Veio posteriormente para Lisboa, para o Palácio Foz, após ter sido comprado na venda da Coleção Hamilton, no âmbito das aquisições feitas pelo Marquês da Foz para a remodelação interior do palácio. Em 1901 o canapé voltou para França, depois de ter sido vendido no leilão dos bens do Palácio Foz.

A tapeçaria do estofo não é original. Segundo P. Verlet, o revestimento primitivo seria uma seda azul e branca. Sabe-se que em 1807, quando o canapé se encontrava no Palácio das Tulherias, o estofo já era o que podemos observar atualmente. Esta tapeçaria, produzida pela Manufatura dos Gobelins na segunda metade do século XVIII, apresenta um fundo com desenhos de folhas em dois tons de encarnado (carmesim), criando um efeito adamascado.

 

 

Tanto as costas como o assento têm dois grandes ramos de flores atados com fitas de riscas azuis e grandes laços. Este tecido terá sido feito para um canapé direito e teve de ser adaptado a este, de silhueta diferente. Pensa-se que terá sido executado com base num cartão da autoria de Maurice Jacques, provavelmente com a colaboração de Louis Tessier. Estas tapeçarias terão sido executadas no ateliê de Jacques Nielson, na Manufatura dos Gobelins.

 

Clara Serra
Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian

Atualização em 09 julho 2021