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Ana Hatherly e o Barroco. Num Jardim Feito de Tinta

Artista plástica, realizadora, tradutora, escritora, Ana Hatherly (Porto, 1929 — Lisboa, 2015) foi também professora catedrática de Literatura Barroca. Com a sua investigação revalorizou esse período histórico, revelando uma profunda afinidade entre os experimentalistas do século XX, de que fazia parte, e os seus antecessores dos séculos XVII e XVIII. Esta exposição‑ensaio procura mostrar essa relação de familiaridade — no entanto, numa inversão temporal de sabor seiscentista, como num mundo ao invés, não mostramos apenas a influência do Barroco na obra da artista, mas como ela o influenciou, como o reinventou, afastando‑se do formalismo superficial, que definia o Barroco como excesso decorativo, dirigindo‑se à alma barroca, ao seu modo de ver e de se orientar no mundo.

Foi nos ensaios de Ana Hatherly que encontrámos o fio que nos guia nesta exposição, as categorias da mundivisão barroca que se revelam também na obra plástica e poética da artista: o Labirinto e as suas dobras sobre dobras; o Tempo, e a consequente aposta paradoxal no Jogo e na Morte; a Alegoria, e a folia da interpretação que promove; a Metamorfose entre pintura e poesia, entre desenho e escrita. São estes os caminhos que continuamente se bifurcam neste «jardim feito de tinta».

 

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A tradição como inovação

A incorporação do passado no presente é uma acção subversiva, porque um dos efeitos mais surpreendentes da acção do tempo é transformar o usual em estranho, o conhecido em desconhecido, o ordinário em exótico. A incorporação de elementos antigos num contexto moderno rompe a continuidade, dispersa a continuidade nociva que conduz ao hábito, criando um conflito, um contraste, que não pode senão despertar o nosso consciente. Toda a cultura é diálogo e não há diálogo sem confrontação.

Ana Hatherly, A casa das musas, 1995


 

Labirinto: dobras sobre dobras

Uma das categorias recorrentes do Barroco é o Labirinto: dos jardins seiscentistas, passando pela experiência existencial do perder-se, até à necessidade espiritual de encontrar o caminho no mundo ambíguo. Reconhecendo-o, Ana Hatherly recolheu os esquecidos «labirintos poéticos» dos séculos XVII e XVIII, realizando uma arqueologia da poesia visual do século XX, formando uma biblioteca (essa outra metáfora do labirinto) de «textos visuais», onde se equilibram regra e invenção, constrangimento e liberdade. Esses lugares criados pela palavra não são apenas um espaço na página, mas uma topografia mental e cultural. As dobras sobre dobras que tornam o labirinto múltiplo, como as pregas dos panejamentos das esculturas barrocas, são imagem de convulsão interior e não apenas exterior. A realização de séries mostra essa mesma inquietude: repetir e divergir, variações de uma forma aberta. Percebemos por isso, nessa instabilidade, a importância do mapeamento – outra temática barroca e hatherlyana: nos seus desenhos encontramos linhas errantes, caminhos sem saída, espirais vertiginosas. Mapas da imaginação e da memória.


 

Tempo: o Jogo e a Morte

O verdadeiro protagonista da arte barroca é o Tempo. Desse confronto essencial com a finitude surgem duas categorias omnipresentes na cultura barroca: o Jogo e a Morte. O homem barroco é um transeunte entre a postura agónica e a lúdica. Revela–se também aí o gosto pelo paradoxal, assim como a superação das dicotomias: misturam-se o claro e o escuro, o sublime e o grotesco, o religioso e o profano, o cómico e o sério. Sem fronteiras definidas.

O lúdico é, também na obra de Ana Hatherly, uma categoria crítica fundamental – a criação é um ato lúdico. Como escreveu no livro O mestre, «o jardim é um lugar de jogo», mas é igualmente o lugar da «morte dos jogadores»: o Barroco oscila entre a Festa galante e a Vanitas – o desengano do mundo, a consciência de que «tudo passa» (Santa Teresa de Ávila), a afirmação da destruição como lei da vida, e da arte. Lição das trevas: o noturno é paisagem interior.


 

Alegoria: a folia da interpretação

A Alegoria é uma das estratégias da retórica barroca: fornece uma escada que vai da criatura ao criador, do natural ao transcendente, do sensível ao ideal. Tudo é outra coisa. O Barroco manifesta um interesse pela realidade e uma atenção à natureza, mas não é um simples realismo naturalista, é uma representação simbólica, emblemática. Exige um esforço do leitor ou espectador: ele tem de estar preparado e ativo, conhecer o código para interpretar.

Essa exigência hermenêutica manifesta-se no interesse de Ana Hatherly pelos sonhos, que anotava diariamente e pediu a amigos para interpretarem. Encontramo-la também no estudo sobre a simbologia atribuída às flores e aos frutos, que realizou com o objetivo de compreender obras como as de Josefa de Óbidos ou de Sóror Maria do Céu e retomou na sua obra plástica: uma romã é apenas uma romã?

O impulso alegórico espiritualiza o sensível e sensualiza o espiritual. No Barroco, onde impera a visão, o pintor é um pregador.


 

Metamorfose: o diálogo oblíquo entre poesia e pintura

Nunca, como no Barroco, a pintura foi tão literária, nem a literatura foi tão pictórica. Também a obra de Ana Hatherly se estabeleceu nessa fronteira, lugar de metamorfose, entre o texto como imagem e o desenho como escrita. É esse «jogo do escritor» que recria o mundo através da palavra. Afirmou a artista: «O meu trabalho começa com a escrita – sou um escritor que deriva para as artes visuais através da experimentação com a palavra. A Poesia Concreta foi um estádio necessário, mas mais importante ainda foi o estudo da escrita propriamente dita, impressa e manuscrita, especialmente a arcaica, chinesa e europeia. O meu trabalho também começa com a pintura – sou um pintor que deriva para a literatura através de um processo de consciencialização dos laços que unem todas as artes, particularmente na nossa sociedade.»

O gosto pela mobilidade e fluidez fica claro nos desenhos que representam-escrevem o vento, o mar, as ondas, elementos em fuga, fragmentos de letras suspensas. Ana Hatherly questionou a representação e a própria obra de arte – procurou uma metalinguagem, tema também barroco. Desse modo, faz o elogio do leitor e propõe-nos uma reinvenção da leitura.