Como atrair os insetos polinizadores que cuidam dos nossos jardins

Um naturalista no Jardim Gulbenkian

 

Aprenda com uma rede de especialistas a tornar cada recanto num oásis para ajudar a biodiversidade, desde aves e anfíbios a abelhas e morcegos. Renata Santos e Albano Soares, entomólogos, falam-nos sobre a importância dos polinizadores e sugerem-nos algumas medidas que todos nós podemos tomar para contrariar o declínio das abelhas e de outros insetos, tão importantes para o futuro da vida na Terra. Este é o quarto artigo da série “Jardins para a vida silvestre”, uma parceria entre a Wilder e a Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Muitos animais por todo o mundo, incluindo morcegos, aves e lagartixas, têm um importante papel na reprodução das plantas silvestres. Em Portugal e noutros países europeus, essa é uma tarefa que está essencialmente entregue aos insetos, explicam Renata Santos e Albano Soares.

Os dois investigadores ligados ao Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal guiaram um passeio do ciclo de visitas “Jardins para a Vida Silvestre” no Jardim Gulbenkian, dia 8 de maio, em que explicaram como é possível preparar os espaços verdes para os insetos polinizadores.

Feitas as contas, os cientistas estimam que 87,5% das 352.000 espécies de plantas com flor recorrem à polinização por animais, em que aqueles transportam os grãos de pólen de umas plantas para outras. É verdade que a maioria dessas plantas poderiam auto-polinizar-se, pois um mesmo indivíduo contém órgãos sexuais dos dois sexos. Todavia, recorrendo à auto-polinização “acabariam por perder a diversidade genética que resulta das trocas com outros indivíduos”, nota Renata Santos, que adverte que a longo prazo “muitas espécies poderiam extinguir-se”.

Mas não são só as plantas silvestres que precisam de polinizadores. Algumas das principais culturas humanas também recorrem aos insetos. “O tomate, as macieiras, as nespereiras, as amendoeiras, os morangos…”, exemplifica Albano Soares.

 

Abelhas, escaravelhos, vespas

De que insetos estamos a falar? Desde logo, as abelhas são as principais responsáveis por esta tarefa, encarregando-se da polinização de 60 a 70% das plantas com flor. E nem tudo gira à volta da abelha-do-mel (Apis mellifera), pois existe uma enorme variedade: em Portugal, encontraram-se até hoje 724 espécies de abelhas, número que deverá continuar a crescer. Destas, 90% são solitárias, em contraste com a abelha-do-mel, os abelhões e algumas outras que vivem em grupos.

Mas vivam ou não sozinhas, quase todas as abelhas são polinizadoras importantes, pois evoluíram as suas estruturas para transportarem pólen, um alimento essencial para alimentar as outras abelhas que nascem. Enquanto andam de flor em flor, deixam sempre cair alguns grãos.

Abelha mineira Anthophora plumipes © pjt56
Abelhão Bombus terrestris © Alves Gaspar

Nas abelhas-do-mel e nos abelhões (abelhas do género Bombus), por exemplo, “se olharmos com atenção vemos os grãos de pólen presos às patas”, descreve Albano Soares, que adianta que “o pólen pode ser amarelo, vermelho ou azul consoante a planta de onde saiu”. Essas espécies têm uma parte côncava nas patas posteriores, chamada de curbícula, adequada ao transporte do pólen.

A maior parte das abelhas usam a escopa, uma espécie de pincel formado por pelos presos às patas posteriores ou por baixo do abdómen, onde o pólen fica agarrado. Outros grupos ainda guardam o pólen num órgão especial do aparelho digestivo ou parasitam os ninhos de outras abelhas e por isso são menos importantes para a polinização.

Mas há muitos outros insetos que merecem a nossa atenção, sublinham os dois investigadores. As moscas-das-flores, por exemplo, que pertencem ao grupo dos dípteros, o mesmo das moscas-domésticas, mas alimentam-se de pólen e néctar. Portugal soma 206 espécies destas misteriosas moscas, muitas das quais imitam vespas e abelhas para afugentarem os predadores.

Igualmente eficazes são as borboletas diurnas e noturnas e várias espécies de escaravelhos, como é o escaravelho-das-flores (Tropinota squalida). E há que não esquecer as vespas e as crisopas: apesar da reputação terrível que as primeiras têm – salienta Renata Santos – são importantes como polinizadores e também para ajudarem a controlar as populações de insetos herbívoros.

Abelha-carpinteira Xilocopea violacea © Bautsch
Escaravelho-das-flores Tropinota squalida © Lies Van Rompaey

 

Plantas para todas as estações do ano

Mas como podemos atrair os insetos polinizadores para os nossos espaços verdes, seja um jardim, um terraço ou uma pequena varanda? Muitos atravessam hoje declínio preocupante, ameaçados pela poluição ambiental, agricultura intensiva, alterações climáticas e uso de pesticidas – produtos que devemos sempre evitar.

Desde logo, importa ter um espaço que não seja constantemente “rapado”, onde se deixem viver as plantas espontâneas, apelidadas muitas vezes de ervas daninhas.

Por outro lado, “devemos ter plantas que produzam flores ao longo do ano, com tamanhos, cores e formas variadas, pois vão atrair diferentes polinizadores”, sublinha a mesma investigadora. Algumas variedades de alecrim (Rosmarinus officinalis), exemplifica, “começam a florir no outono, duram todo o inverno e vão até à primavera”. Outra possibilidade é o medronheiro, que dá flores durante o outono.

Mas dentro do grupo das plantas nectaríferas há ainda outras espécies interessantes para os insetos polinizadores. Entre as nativas de Portugal, temos por exemplo a chicória (Chicorium intybus), as mentas (Mentha spp.), o alecrim (Rosmarinus officinalis) e a sálvia (Salvia officinalis), a tágueda (Dittrichia viscosa), a língua-de-ovelha (Plantago lanceolata) e outras do género Plantago, o oregão (Origanum vulgare), o rosmaninho (Lavandula pedunculata) e outras lavandulas (Lavandula spp.), ou ainda a madressilva (Lanicera spp.), o sargaço (Cistus salvifolius), o cardo-de-ouro (Scolymus hispanicus), as silvas (Rubus ulmifolius) e a alcachofra (Cynara humilis).

Alecrim Rosmarinus officinalis © Paula Corte-Real
Madressilva Lonicera etrusca © Paula Corte-Real

Também atraentes são espécies exóticas como a árvore-das-borboletas (Buddleja davidii) e a lantana (Lantana camara), embora seja necessário cuidado com a segunda, pois é considerada invasora.

Em segundo lugar, é útil arranjar um local onde as abelhas e outros insetos consigam nidificar. Para o grupo das abelhas-carpinteiras, por exemplo, que usam a madeira morta para os seus ninhos, pode ser uma área com pedaços ou pauzinhos de madeira, enquanto que as abelhas-mineiras precisam de um bocadinho de solo nú.

Outra possibilidade é fabricar um hotel para polinizadores, nunca muito grande, contendo pauzinhos ocos com 0,2 a 1,5 centímetros de diâmetro, 20 centímetros de profundidade e sem farpas, detalham os dois especialistas. Mas será sempre um complemento. “No caso das abelhas, um hotel será útil para 20% das espécies, aquelas que usam galhos ocos para nidificar”, adianta Albano.

Por último, mas não menos importante, há que instalar um ponto de água, seja um charco ou uma simples taça com água, sem nunca esquecermos a colocação de pedrinhas para que os insetos possam entrar, mas também voltar a sair.

Lantana Lantana camara © Paula Corte-Real
Abrigo para insetos © Candida Ramos

 

O próximo artigo será dedicado aos anfíbios e libélulas.

 

Este artigo insere-se na série “Jardins para a Vida Silvestre”, uma parceria entre a revista Wilder e a Fundação Calouste Gulbenkian.

Atualização em 07 julho 2022

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