A Criatividade Artística Popular em Portugal
1985
Exposição itinerante organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian (FCG), por iniciativa do seu Serviço de Belas-Artes. Foi apresentada primeiramente em Silves, nos meses de outubro e novembro de 1985, e posteriormente em Odemira, já no ano de 1986.
De acordo com as afirmações do diretor do Serviço de Belas-Artes da FCG, Artur Nobre de Gusmão, na introdução do catálogo, esta exposição pretendia «lembrar a existência de uma criatividade artística de raiz popular», chamando igualmente «a atenção para a importância de um património que se torna urgente ir conhecendo melhor na sua verdadeira identidade cultural» (Gusmão, A Criatividade Artística Popular em Portugal, 1985).
A itinerância de exposições de índole maioritariamente documental e fotográfica foi uma aposta do Serviço de Belas-Artes que se manteria sobretudo durante a década de 1970. Tendo circulado por todo o continente e regiões autónomas, algumas das mostras incluíram curtas itinerâncias internacionais (A Talha em Portugal, Presépios Portugueses, Reflexos da Arte da China em Portugal, Imagens da Arte em Portugal…).
Nos anos de 1980, em virtude dos trabalhos de construção do Centro de Arte Moderna (1983) e do reforço da programação expositiva nos espaços da FCG, adotou-se uma política de descentralização artística que se traduziu, por um lado, num maior impulso da itinerância de exposições desenvolvidas em anos anteriores e, por outro, num refreamento da programação de novas mostras. Só em 1985, com a organização desta exposição dedicada às manifestações artísticas e às criações populares portuguesas, é que viria a ser retomada esta direção.
Em 1987, o programa de exposições itinerante viria a ser suspenso temporariamente, para avaliação da ação desenvolvida neste âmbito até então (Carta do diretor do Serviço de Belas-Artes para a Presidência da FCG, 9 jan. 1987, Arquivos Gulbenkian, SBA 15591).
Além de 25 ampliações fotográficas sobre o tema da tecelagem e da sua diversidade, cedidas pela FCG, estas apresentações adquiriam o enquadramento da localidade onde eram mostradas, através da seleção dos mais relevantes exemplares da criatividade artística daquelas regiões. Estes objetos artísticos e etnográficos pertenciam a colecionadores particulares e às próprias autarquias que conduziam a seleção.
A importância destes eventos residia no facto de convocarem a participação da população, expondo os seus objetos decorativos e utilitários e fomentando uma cultura artística em localidades mais distantes dos grandes centros urbanos. Do conjunto destes objetos destacavam-se os teares, os têxteis, com as mantas e as colchas de linho, os lenços bordados, as toalhas, mas também brinquedos tradicionais portugueses, trabalhos em vime, mobiliário, utensílios domésticos, objetos decorativos inspirados nas alfaias agrícolas e objetos em olaria, entre outros.
Em carta dirigida ao presidente da FCG, Artur Nobre de Gusmão confirmaria o êxito da exposição em Odemira e a «boa aceitação que teve junto do público», que contou com a presença de cerca de 1300 visitantes (Ibid.). Contudo, e apesar desta boa aceitação, as apresentações da mostra circunscreveram-se ao sul do país, mais concretamente às localidades de Silves e Odemira, onde ocuparam, respetivamente, o pavilhão gimnodesportivo e a antiga fábrica de descasque de arroz.
Filipa Coimbra, 2017