Eugène Atget. Fotógrafo (1857 – 1927)
1981
Exposição itinerante de fotografias da autoria de Eugène Atget (1857-1927), organizada pela Association Française d’Action Artistique, em colaboração com a Caisse Nationale des Monuments Historiques e o Ministério dos Negócios Estrangeiros de França. A apresentação em Portugal foi proposta pela Embaixada de França em Portugal e organizada pela mesma instituição, com o apoio do Instituto Português de Fotografia, por ocasião do «II Encontro de Fotografia de Coimbra», sendo a apresentação em Lisboa organizada em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian (FCG). A itinerância nacional foi realizada nas cidades de Lisboa, Coimbra e Porto.
Na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da FCG (piso 01) foram apresentadas 60 fotografias (15 cm × 25 cm) deste fotógrafo francês, alusivas à Paris da transição do século XIX para o século XX, com tiragem a partir de negativos originais do acervo da Caisse Nationale des Monuments Historiques, entidade detentora de uma parte considerável das placas originais do fotógrafo. Sem obedecerem a nenhum tema restrito, estas fotografias de Atget incidiam sobre a arquitetura civil, vernácula e pitoresca parisiense, expressa nas fachadas dos edifícios, nas vitrines, ruas e passagens, a que muitas vezes se juntavam alguns transeuntes, comerciantes e outros trabalhadores.
Durante as primeiras décadas de existência da FCG, a programação de exposições dedicadas ao suporte da fotografia não foi uma prioridade, pelo que acontecimentos desta natureza se revestiam de especial interesse para um público mais especializado. A exposição de Atget era, nesse sentido, uma oportunidade única de contactar com a obra de um dos percursores da fotografia do século XX. As imagens fotográficas de Eugène Atget poderiam ser vistas numa dupla vertente: enquanto testemunhos históricos e documentais de uma cidade já transformada, mas também enquanto itens detentores de valor artístico e originalidade.
Neste sentido o crítico Alexandre Pomar afirmaria: «O trabalho de Atget, como se poderá ver na presente exposição, não é, contudo, o de um simples repositório exacto da natureza, e o aspecto documental é apenas um dos lados da sua importância. Na história da fotografia, é Atget que abre as vias para as concepções que se vão afirmar durante a década de 20 e 30 em torno da chamada “Escola de Paris”, com Kertész, Tabard, Ronis ou Brassai, Man Ray e Eli Lotar.» (Pomar, Diário de Notícias, 23 jun. 1981)
No mesmo sentido, Fernando de Azevedo pronunciar-se-ia acerca da modernidade plástica da fotografia de Atget: «Uma visão que nos surpreende, como elemento fulcral para um comportamento do “olhar” moderno, é a forma como o interior é apercebido na imagem quando parece só do exterior se tratar.» (Azevedo, Colóquio/Artes, set. 1981, p. 71)
O catálogo da exposição foi profusamente ilustrado com reproduções das obras expostas, contando ainda com uma introdução assinada por António Manuel Morais, professor do Instituto Português de Fotografia que assinalaria o lado profundamente social da obra de Atget: «Toda a obra de Atget é um objeto de análise, reprodução fiel de uma contradição social e humana, em repositório das suas misérias e glórias.» (Eugène Atget. Fotógrafo (1857-1927), 1981)
Joana Baião, 2017