Os Arménios e Jerusalém

A descoberta de documentação inédita sobre a construção da Biblioteca Gulbenkian em Jerusalém motivou esta exposição dedicada à relação de Calouste Gulbenkian com a cidade. Entre a história de uma diáspora milenar e a biografia do fundador, «Os Arménios e Jerusalém» revelou um capítulo pouco conhecido deste legado.

A exposição «Os Arménios e Jerusalém» apresentou, entre 20 de junho e 22 de setembro de 2024, um olhar sobre a relação de Calouste Sarkis Gulbenkian com Jerusalém e a comunidade arménia desta cidade. Destacando o apoio filantrópico dado pelo fundador da Fundação Calouste Gulbenkian à construção de uma biblioteca para o Patriarcado Arménio de Jerusalém, celebrava também a presença milenar do povo arménio nesta cidade e o património cultural e construído que dela testemunha.

Organizada pelo Serviço das Comunidades Arménias e pela Biblioteca de Arte e Arquivos, apresentava documentos de arquivo, fotografias, peças de cerâmica e uma cortina de altar do século XVIII, entre outras obras.

Como é várias vezes referido no material publicado no âmbito desta exposição (ver, por exemplo, o folheto Os Arménios e Jerusalém), a principal motivação para a sua realização foi a descoberta, em 2023, de um conjunto de documentos relativos à construção da Biblioteca Gulbenkian em Jerusalém, nos anos 1930. Financiada e acompanhada de perto por Calouste Sarkis Gulbenkian, a construção desta biblioteca foi um dos exemplos mais significativos do apoio filantrópico dado por Gulbenkian ao Patriarcado Arménio de Jerusalém.

Encontrados numa residência privada em Paris, os documentos – desenhos técnicos, planos, elevações, cadernos de encargos, orçamentos e um relatório sobre a construção – foram entregues à diretora-adjunta do Serviço das Comunidades Arménias da Fundação, Shogher Margossian, e posteriormente incorporados nos Arquivos da Fundação, acessíveis através da Biblioteca de Arte (cotas CSGP-P0235 e CSGP-P0236).

Uma Concept Note não datada, da responsabilidade do Serviço das Comunidades Arménias, confirma a centralidade desta descoberta como motivo para a proposta expositiva, acrescentando-lhe a importância histórica de Jerusalém para o povo arménio e a relevância do património desta comunidade que dela é testemunho. A proposta consistia, assim, em dar a conhecer, recorrendo a estes novos materiais de arquivo, as atividades de Calouste Gulbenkian em Jerusalém, ao mesmo tempo que se davam visibilidade às relações históricas do povo arménio com a cidade, quer para contextualizar essas atividades, quer como introdução ao conceito de diáspora arménia.

Previamente à realização de «Os Arménios e Jerusalém», o Serviço das Comunidades Arménias figurava no historial expositivo da Fundação Gulbenkian como coorganizador de duas exposições sobre Calouste Gulbenkian – «Mais do que o Sr. 5%. Os Primeiros Anos da Vida de Calouste Gulbenkian» (uma pequena exposição documental no mesmo átrio da Biblioteca de Arte, com curadoria do historiador Jonathan Conlin, em 2014) e «Calouste. Uma vida, não uma exposição» (exposição comemorativa dos 150 anos do nascimento de Gulbenkian, no edifício-sede, em 2019) – e como organizador da exposição itinerante Poetry of Stones. ANI: an Architectural Treasure on Cultural Crossroads (2018–2020, sobre o património arqueológico arménio na Turquia, com projeto de uma comissão de especialistas no tema), além de ter estado envolvido na realização de várias outras.

No entanto, «Os Arménios e Jerusalém» foi a primeira exposição em que o Serviço das Comunidades Arménias, através da sua diretora-adjunta, Shogher Margossian, assumiu diretamente responsabilidades curatoriais, como é relatado com certo entusiasmo numa notícia publicada no site da Fundação (onde esse momento surge associado à realização de uma pequena exposição documental no refeitório interno da Fundação sobre as atividades do próprio Serviço).

Neste sentido, a Concept Note já citada destaca um conjunto de outras motivações para a realização de «Os Arménios e Jerusalém»:

• Promover a colaboração e criar sinergias entre o Serviço das Comunidades Arménias e a sede da Fundação em Lisboa;
• Dar maior visibilidade à cultura e identidade arménias na Fundação Gulbenkian e em Portugal;
• Sublinhar a importância do património cultural e da sua preservação, especialmente em contextos de diáspora e de minorias;
• Realçar a importância das bibliotecas como portas de acesso ao conhecimento e à cultura;
• Incentivar a diversidade temática das exposições e a visibilidade de assuntos pouco representados.

A Concept Note propunha ainda, como programação paralela, a realização de um seminário com a participação de dois historiadores franceses de origem arménia, Claude Mutafian e Patrick Donabedian, que se deveria organizar em torno de um livro então em preparação pelo segundo (com apoio da Fundação Gulbenkian) sobre o património arménio de Jerusalém.

Atrasos na finalização deste livro, devidos, entre outros fatores, ao conflito em curso no Médio Oriente (2023–presente) e à impossibilidade de viajar, a par da decisão de acrescentar um capítulo sobre as relações entre a família Gulbenkian e o Patriarcado Arménio de Jerusalém, determinaram a não realização do seminário.

Também a proposta de uma oficina de cerâmica com ceramistas arménias ativas em Jerusalém (exemplares de cuja atividade figuravam na exposição) não chegou a concretizar-se.

Se o programa paralelo inicialmente previsto não se realizou, a exposição cumpriu, em todos os restantes aspetos, a proposta delineada na Concept Note.

«Os Arménios e Jerusalém» aprofundava, por um lado, as relações de Calouste Sarkis Gulbenkian com a cidade de Jerusalém, destacando o apoio filantrópico dado à construção da Biblioteca Gulbenkian, a viagem que fez à cidade em 1934 e a presença do tema de Jerusalém e da sua comunidade arménia na sua biblioteca pessoal. Por outro lado, delineava, em traços largos, a presença milenar da comunidade arménia em Jerusalém.

Como a exposição recordava, a comunidade arménia de Jerusalém é a primeira e mais antiga diáspora arménia, cujas raízes (como relata Claude Mutafian na sua obra de referência, Jerusalem et les Arméniens: Jusqu'à la conquête ottomane, 1516, Paris: Les Belles Lettres, 2022) precedem a era cristã e persistiram ao longo de profundas mudanças políticas e sociais e de sucessivos cataclismos.

A conjugação destas duas escalas – o foco em três aspetos concretos da biografia de Gulbenkian e o vasto panorama de quase dois mil anos de presença arménia em Jerusalém – ditou a organização da exposição em dois núcleos: «A primeira e mais antiga diáspora arménia» e «Calouste Sarkis Gulbenkian e Jerusalém».

Cada núcleo era delimitado por duas paredes temporárias em forma de L, que criavam dois espaços distintos, mas abertos, sem imposição de um percurso expositivo. A lógica cronológica sugeria, contudo, percorrer a exposição desde o bengaleiro até à entrada da cafetaria.

Como introdução, um ecrã de televisão em frente ao bengaleiro passava 48 fotografias de edifícios e pormenores ornamentais que evidenciavam o património arménio secular em Jerusalém, da autoria de Hrair Khatcherian (a alcunha «Hawk» que figura na ficha técnica remete para um passado de piloto).

O primeiro núcleo («A primeira e mais antiga diáspora arménia») esboçava, em traços largos, a presença milenar do povo arménio em Jerusalém, ilustrando-a com um conjunto reduzido mas sugestivo de obras, imagens e referências históricas. Situava geograficamente o Bairro Arménio (um dos quatro bairros em que se divide, desde o século XIX, a cidade antiga de Jerusalém, mas cuja existência precede o domínio otomano a partir do século XVI). Um pequeno filme de 1897, do cineasta francês Alexandre Promio, mostrava a animada vida de rua junto da Porta de Jaffa.

A seguir, era desenhado um arco cronológico que ia das primeiras inscrições de peregrinos arménios encontradas no deserto do Sinai e datadas do século V ao impacto do genocídio do povo arménio pelo Império Otomano em 1915, que trouxe muitos refugiados a Jerusalém (sobre a qual o Império Otomano perderia pouco depois o domínio), passando por episódios e figuras arménias relevantes na história da cidade.

Por fim, eram salientadas as competências, ofícios e práticas introduzidos por arménios em Jerusalém nos séculos XIX e XX (como a primeira tipografia, em 1833; o primeiro estúdio de fotografia, em 1855; ou a primeira escola mista, a Escola Arménia dos Santos Tradutores, em 1929).

Esta secção inicial era ilustrada com fotografias históricas, principalmente oriundas do arquivo online da Library of Congress dos Estados Unidos.

Esta visão mais panorâmica da história – ilustrada com os sóbrios cinzentos das fotografias históricas – contrastava com os coloridos e inventivos objetos expostos nas paredes temporárias em L e nas três vitrines no centro do espaço assim criado. Uma cortina de altar, bordada à mão em 1756 e proveniente da Catedral de São Tiago (Jerusalém), um incensário e um curioso pendente oval de cerâmica (utilizado nas correntes dos candeeiros a óleo com fins decorativos e como barreiras para ratos) eram acompanhados de excertos do livro dos hinos da Igreja Apostólica Arménia, interpretados pelo Coro de Câmara Arménia de Moscovo, ilustrando a dimensão religiosa e espiritual que caracteriza a diáspora arménia em Jerusalém, estreitamente ligada ao Patriarcado Arménio de Jerusalém.

Ao lado, um texto bem ilustrado elucidava a importância da cultura cerâmica na comunidade arménia de Jerusalém desde o século XIX, quer em contexto religioso (no restauro dos azulejos da Cúpula da Rocha, por volta de 1920), quer secular (mencionando, por exemplo, a produção, ainda hoje, de sinalética cerâmica da Cidade Velha de Jerusalém). Aqui recorria-se não só ao arquivo da Library of Congress, mas também ao espólio da família ceramista Neshan Balian, ativa em Jerusalém desde 1922, e a fotografias contemporâneas de Kayane Antreassian e Hrair Khatcherian. Esta secção incluía um conjunto colorido de peças em cerâmica dos anos 1920 aos anos 1990, sobretudo azulejos e pratos, igualmente oriundos do espólio da família Balian.

O segundo núcleo («Calouste Sarkis Gulbenkian e Jerusalém») abordava as relações entre Calouste Sarkis Gulbenkian e Jerusalém, que se consolidaram sobretudo a partir do final da década de 1920, quando Gulbenkian decidiu apoiar a construção de uma biblioteca para o Patriarcado Arménio, biblioteca que veio a ter o seu nome.

A primeira secção deste núcleo (entre as entradas da Biblioteca de Arte e da Cafetaria) como que finalizava o arco histórico previamente esboçado, fazendo um breve inventário do património construído mais importante que constitui o Bairro Arménio através de um mapa e fotografias. Também apontava os principais marcos históricos (o decreto de Saladino de 1187, que concedia privilégios e garantias à comunidade arménia em Jerusalém, a construção da Catedral de São Tiago e a instituição do Patriarcado Arménio de Jerusalém).

Apresentado este património, que Calouste Gulbenkian encontrou e no qual interveio através da construção da Biblioteca Gulbenkian, uma segunda secção apresentava, nas paredes temporárias em L, cronologias ilustradas da construção da Biblioteca e da viagem de Gulbenkian a Jerusalém em 1934.

Calouste Gulbenkian aceitou financiar a construção de uma biblioteca em Jerusalém em 1928. Após a sua inauguração, em 1932, Gulbenkian continuou a apoiá-la mediante doações. Atualmente, a biblioteca alberga uma vasta coleção de livros e publicações valiosos, raros e antigos, bem como títulos modernos em várias línguas, sendo ao mesmo tempo uma das bibliotecas mais importantes da Cidade Velha de Jerusalém e uma referência mundial nos estudos arménios (sobre a história desta biblioteca existe uma tese de doutoramento de Sylva Natalie Manoogian, University of California, 2013).

A cronologia ilustrada da construção da biblioteca era acompanhada de uma amostra dos documentos descobertos em 2023 (cota CSGP-P0235). Além de peças do projeto – planos do piso térreo e primeiro andar, uma vista isométrica, lista de materiais – eram expostos um relatório, cartas e telegramas que evidenciavam o acompanhamento contínuo e interessado de Gulbenkian ao processo de construção.

Em 1934, dois anos após a inauguração da Biblioteca com o seu nome, Calouste Gulbenkian visitou a cidade de Jerusalém. Textos explicativos, citações e fotografias descreviam as principais etapas e impressões da viagem, acompanhados, noutra mesa, por exemplares da sua biblioteca pessoal (preservada pela Biblioteca de Arte). Dedicados a Jerusalém e à sua comunidade arménia, estes testemunhavam o seu continuado interesse por estes temas, mas também – como no caso de Album of the Armenian Monastery of Jerusalem (1950), aberto numa página com uma fotografia onde surge o próprio Calouste Gulbenkian em frente da Biblioteca com o seu nome – documentavam as relações que manteve com esta comunidade. Neste segundo núcleo recorria-se igualmente a fotografias históricas dos Arquivos Gulbenkian e da Library of Congress, e a fotografias contemporâneas de Kayane Antreassian e Hrair Khatcherian.

A exposição era acompanhada da publicação de um folheto com um pequeno resumo dos conteúdos apresentados sobre a diáspora arménia em Jerusalém e a relação de Calouste Gulbenkian com esta cidade, em português e inglês.

A exposição foi inaugurada a 20 de junho, às 18h30. De entre os numerosos presentes, destaca-se o padre Arshak Ghazarian, arquivista e curador do Museu Arménio de Jerusalém.

Em termos de programação paralela, houve apenas a assinalar as visitas guiadas, orientadas por Carlos Carrilho e Razmik Panossian (diretor do Serviço das Comunidades Arménias). Um seminário sobre a diáspora arménia realizado durante o período expositivo não estava diretamente ligado à exposição, mas incluía uma visita guiada destinada aos 40 intelectuais arménios participantes.

A exposição foi pouco divulgada nos canais habituais: menções no jornal online dedicado a temas religiosos e espirituais 7Margens e na plataforma Portugal Events, uma pequena recensão anónima no site ensaio.pt e uma publicação num blogue. Houve, contudo, maior atenção por parte dos meios de comunicação arménios. Após a inauguração da exposição, foram publicadas notícias nos jornais de língua arménia Jamanak e Nor Haratch (o Serviço das Comunidades Arménias disponibiliza cópias de ambas). Foram também publicadas notícias no site Armenian Jerusalem (projeto apoiado pela Fundação Gulbenkian) e, já após o encerramento da exposição, nas publicações online MassisPost (3 out. 2024) e The California Courier (7 out. 2024), ambas órgãos da comunidade arménia nos Estados Unidos.

O Serviço das Comunidades Arménias encomendou ainda um pequeno vídeo (3 min. 23 s.) sobre a exposição aos realizadores arménios Ara Madzounian e Hrair Kalemkerian, posteriormente publicado no site da Fundação Gulbenkian. O vídeo assume a forma de uma breve visita guiada à exposição, com legendas em inglês e arménio.

A Fundação deu continuidade à publicação de artigos sobre a relação de Calouste Gulbenkian com Jerusalém – iniciada com os textos «Ofertas de Calouste Gulbenkian ao Patriarcado Arménio de Jerusalém» (6 dez. 2023) e «A viagem de Calouste Gulbenkian a Jerusalém» (23 jan. 2024), de Vera Mariz – com a publicação de «Calouste Gulbenkian, os Arménios e o estatuto político de Jerusalém» (1 ago. 2024, sem indicação de autor), onde se discutem as posições de Calouste Gulbenkian sobre esta questão durante os anos 1940, no contexto da criação do Estado de Israel (1948).

Gerbert Verheij, 2025


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos


Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Arshak Ghazarian (à dir.)
Razmik Panossian (à esq.) e Arshak Ghazarian (à dir.)
Shogher Margossian  (à esq.) e Razmik Panossian (à dir.)
Guilherme d´Oliveira Martins (à esq.) e Razmik Panossian (à dir.)
Guilherme d´Oliveira Martins
Guilherme d´Oliveira Martins (à esq.) e João Vieira (à dir.)
Guilherme d´Oliveira Martins (à esq.) e Shogher Margossian (à dir.)

Multimédia


Documentação


Periódicos


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa

Conjunto de documentos referentes à exposição. Contém materiais gráficos, fotográficos, multimédia, entre outros. 2024


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