Lourdes Castro. Todos os Livros

Exposição individual da artista Lourdes Castro (1930), com curadoria de Paulo Pires do Vale e Ana Barata. A mostra reuniu um conjunto de livros de artista de Lourdes Castro, com o intuito de dar a conhecer o seu pensamento plástico ao longo de vários anos da sua produção.
Solo exhibition of work by artist Lourdes Castro (1930) curated by Paulo Pires do Vale and Ana Barata. The show featured a selection of the artist’s books, showcasing Castro’s artistic thought process throughout her career.

«Lourdes Castro. Todos os Livros» surge como a primeira de várias exposições coorganizadas pela Biblioteca de Arte (BA) da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) para a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian – espaço situado em frente à entrada da Biblioteca de Arte.

A curadoria da exposição coube a Paulo Pires do Vale, com Ana Barata, bibliotecária da BA, a encarregar-se da coordenação executiva. A mostra inaugurou a 8 de julho de 2015, ficando patente entre os dias 9 de julho e 26 de outubro do mesmo ano.

Reunindo cerca de 50 livros, o conjunto exposto remonta ao início do percurso autoral de Lourdes Castro, na segunda metade da década de 1950. Salientou como o pensamento plástico em torno do livro foi acompanhando – e por vezes impulsionando – as fases mais definidoras do trabalho da artista.

As peças mais antigas expostas datam de 1956, quando a autora ainda se encontrava em Lisboa. Obras como Um Livro de Modas, daquele ano, ou Um Livro, de 1957, afirmam a colagem de imagens e objetos apropriados como terreno preferencial da poética do quotidiano que a sua obra futura desenvolveria. É também nesta fase inicial que realiza transcrições caligráficas de textos de Rilke, Apollinaire, Rimbaud, Éluard, Herberto Helder, cruzando-os com a colagem e o desenho. Dedica pequenos livros a excertos de cada um destes escritores, e esta exposição incluía vários. Este «copismo» criativo (via de interiorização e aprofundamento daquelas obras literárias) coincide com a passagem da artista por Munique, em 1957, e com o seu estabelecimento em Paris, em 1958.

É na capital francesa que funda, com René Bertholo (1935-2005), a revista e editora KWY (1958-1968). O projeto agrega rapidamente Gonçalo Duarte (1935-1986), José Escada (1934-1980), João Vieira (1934-2009) e Costa Pinheiro (1932-2015), artistas portugueses que, tal como Lourdes Castro e René Bertholo, usufruíram das primeiras bolsas de estudo atribuídas pela FCG. Juntam-se-lhes o alemão Jan Voss (1936) e o búlgaro Christo (1935-2020), entre outras participações mais pontuais.

Esta exposição integrou vários livros de Lourdes Castro com o timbre KWY. Entre eles, o exemplar único de Espèce de Catalogue, de 1961, que confirma confluências com a toada de neodadaísmo preconizada pelo Nouveau Réalisme. No ano seguinte, as silhuetas de Prints Lourdes Castro and Comments Benjamin Patterson, também publicadas pela KWY (setembro/outubro de 1962), lançam caminhos à sombra projetada, universo central da obra de Lourdes Castro e que se afirmará totalmente a partir de 1963. Ombres Transparentes, já de 1967, transfere para formato bibliográfico exercícios de sombras recortadas em materiais translúcidos coloridos (neste caso, o rhodoïd), na sequência dos trabalhos com plexiglas que ocupam a autora a partir de meados da década de 1960.

De 1970, foi apresentado o livro P.P. "O-E" (extrait) 1958 Bernard Heidsieck, todo ele em plexiglas, que se atualiza com correntes da poesia concreta e do conceptualismo linguístico. Na obra da autora, este início dos anos 70 reafirma novas concretizações da atenção atribuída pela artista à palavra. Um exemplo são os Avessos Encadeados – obras entre as mais destacadas a propósito desta mostra de 2015. Trata-se de livros que apresentam páginas bordadas. Começam por enunciar um signo verbal (como «Sombra»; «09-12-1930»), um caráter japonês que, para aparecer decifrável na frente da folha, produz linhas ilegíveis no verso – um «avesso das letras», como lhe chama a artista (Lourdes Castro. Todos os Livros, 2015, p. 131). Este padrão abstrato é depois bordado novamente na frente da folha seguinte, gerando uma nova derivação no verso – e assim sucessivamente. A folha que fecha esta metamorfose de ritmos lineares apresenta o pontilhado resultante das perfurações da agulha ao bordar o signo inicial. Na maior parte dos casos, contém igualmente o «avesso» da assinatura da artista e da datação da peça – elementos que se revelam legíveis no verso desta folha final.

Também nos anos 70 foi exposto, pela primeira vez, Un Autre Livre Rouge (I e II) – um dos muitos trabalhos que a artista realiza com Manuel Zimbro (1944-2003) a partir dessa década. O catálogo de exposição esclarece que foi «pensado e começado em 1973», numa altura em que os dois artistas se mudam de Paris para Berlim. A referência irónica ao Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e à revolução cultural chinesa (na ordem do dia nas décadas 1960 e 1970) é revertida para um imenso caudal de imagens e objetos apropriados que têm na cor vermelha uma referência. Vão do plano mais íntimo ao mais social, da arte à cultura de massas e à sociedade de consumo. A obra foi montada numa sala própria, desdobrando-se como instalação museológica. As páginas do volume I ocupavam as paredes, ao passo que uma vitrina, ao centro da sala, apresentava o volume II rodeado de uma miríade de objetos que participavam neste jogo de ephemera e memorabilia.

No contexto da exposição, foi lançado um livro com fac-símile dos dois volumes – publicação coeditada pela FCG e pela Sistema Solar (Documenta). A mesma colaboração editorial se verificou para o catálogo de exposição, ao qual Lourdes Castro decidiu chamar «catálogo comprovado», jogando com o caráter raisonné que o título da própria mostra indicia (Ibid., p. 127). O catálogo inclui ensaios de Paulo Pires do Vale, Johanna Drucker e José Luís Porfírio.

No seu texto, Pires do Vale cita Paul Claudel para caracterizar o livro como «laboratório da imaginação» – ideia que se materializa decididamente naquilo que o curador designa como a «bibliopraxis» de Lourdes Castro e a sua assunção do «livro como atelier» (Ibid., p. 125). Em suma, reitera que um livro de artista não é um objeto que contém ou refere um exercício artístico. É sim, ele próprio, uma obra de arte, confirmada em toda a praxis que lhe subjaz.

Pires do Vale reforça que esse valor de «unidade» é válido quer para os exemplares únicos, quer para as séries replicadas manualmente, quer para as edições mais mecanizadas e de tiragens mais vastas (Ibid., p. 127). Esta afirmação do livro de artista como obra autónoma é obviamente determinante para as categorias que a crítica e a história da arte delineiam para este campo específico de criação. Sem preocupação de responder perante a História, é face a esses discursos que os livros de Lourdes Castro surgem hoje como precursores do livro de artista contemporâneo.

Naturalmente que muitas das peças expostas têm no manuseamento um fator substancial, algo que, por compreensíveis imperativos de conservação, não foi possível no espaço expositivo (espécie de «prejuízo museológico» que se verifica quando os valores da História se sobrepõem à natureza dos objetos). Para lidar com esse condicionamento, era apresentado um vídeo, realizado por Márcia Lessa, que funcionava como uma sessão de consulta. Esse registo foi disponibilizado online no canal de Youtube da Fundação.

A exposição contou também com obras que, embora extravasando o livro de artista e o livro-objeto, estabelecem relações evidentes com esse âmbito. É o caso da assemblagem Letras e Duas Casas, de 1962 (Inv. 10P1622) (uma das várias composições prateadas que integram letras coladas), bem como obras em que figuram leitores. Uma delas é o óleo sobre madeira que abria a mostra – Que lês Maria Alice? (1956) –, dos tempos da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Foram também expostos dois lençóis bordados com sombras projetadas (entre os muitos realizados no final da década de 1960), neste caso de amigos que leem, e que foram montados junto dos livros bordados já referidos. Incluiu-se também uma sombra recortada em plexiglas, mostrando igualmente uma pessoa a ler.

À data desta exposição, três dos livros expostos integravam o acervo da Biblioteca de Arte da FCG: o já citado A Praia Formosa..., de 2008, Par suite, de 1966 e Herberto Helder, de 1958. Este último mereceu uma breve recensão de Ana Barata, publicada na Newsletter da Fundação Calouste Gulbenkian (Newsletter. Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 168, set. 2015, pp. 38-39).

Segundo o Relatório Balanço e Contas da FCG para o ano de 2015, a exposição «foi vista por 7610 pessoas, tendo sido realizadas 18 visitas de estudo» (Relatório e Contas. FCG, 2015, 2016, p. 65).

Na imprensa, refira-se o artigo de Alexandra Prado Coelho, citando comentários do curador e da artista (Coelho, Público. Ípsilon, 10 jul. 2015). Nele é referido um aspeto merecedor de reflexão: esta mostra de 2015 não incluiu nenhum dos Álbuns de Família de Lourdes Castro – trabalho de continuidade, iniciado em 1963. Tal ter-se-á devido «em parte [,] porque ainda [eram] uma obra aberta, em construção» (Ibid.). No ano seguinte a «Todos os Livros», 36 Álbuns de Família mereceriam uma exposição específica na CulturgestLourdes Castro. Os Meus Álbuns de Família Um a Um», 2016).

O Grande Herbário de Sombras (objeto de uma exposição na FCG em 2002-2003) foi outra obra que, apesar de se aproximar de um formato bibliográfico, não teve enquadramento nem na exposição nem no catálogo que a artista «comprovou» com «todos os livros».

Vários motivos poderiam justificar estas ausências. Entre eles poderá contar-se o facto de ambas as peças não serem assumidas como «livros». Num dos casos, trata-se de «álbuns»; noutro, de algo que se enquadrará mais sob a designação de «portfólio». Naturalmente que estas divergências terminológicas encerram diferenças conceptuais. Contudo, a exposição de 2015 incluiu de facto uma peça de 1962 chamada somente Album, além de um calendário e do próprio Un Autre Livre Rouge, que, como adianta o curador, «foi incluído, ainda que formalmente esteja mais próximo do portfólio, devido à sua unidade temática e à designação de livro que o seu título indica» (Lourdes Castro. Todos os Livros, 2015, p. 127). Importa realçar que a flexibilização do conceito de livro, a sua «desformatação», é um elemento central na história dos livros de artista e do livro-objeto, na qual o trabalho de Lourdes Castro se inscreve.

«Lourdes Castro. Todos os Livros» foi referida como a primeira grande exposição antológica dedicada ao trabalho de um autor no campo do livro de artista e livro-objeto. Consiste num dos marcos mais destacados da já longa história que vai ligando Lourdes Castro à FCG. Como já foi referido, essa relação inicia-se com a atribuição de uma das primeiras bolsas de estudo da Fundação, em 1958. Dois anos depois, em 1960, a Gulbenkian articula a organização de uma exposição coletiva dos principais artistas associados à KWY, na Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa.

Desde então, a obra da artista tem vindo a compor um dos núcleos autorais elementares da atual coleção do Centro de Arte Moderna. Tem sido profusamente apresentada em iniciativas da FCG, das quais se destacam a exposição antológica «Além da Sombra», de 1992.

Daniel Peres, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Eventos Paralelos

Exibição audiovisual

Lourdes Castro. Pelas Sombras

9 jul 2015
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede – Auditório 3
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

[Lourdes Castro. Todos os livros]

11 jul 2015
Fundação Calouste Gulbenkian / Museu Calouste Gulbenkian – Galeria de Exposições Temporárias
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Paulo Pires do Vale, Isabel Carlos, Marina Bairrão Ruivo e Teresa Gouveia
Marina Bairrão Ruivo
Paulo Pires do Vale (à esq.) e Eduardo Lourenço (à dir.)
Lourdes Castro (ao centro)
Lourdes Castro (ao centro)
Isabel Carlos e Lourdes Castro

Multimédia


Documentação


Imprensa


Fontes Arquivísticas

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 94207

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG, Lisboa) 2015

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 3957

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 2015

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 95129

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 2015


Exposições Relacionadas

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2016 / Fondation Calouste Gulbenkian – Delégation en France, Paris