Edgar Martins. A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito

Exposição individual de Edgar Martins (1977), que dá a conhecer a série fotográfica A Impossibilidade Poética de Conter o Infinito, um projeto que ocupou o artista ao longo de dois anos, entre 2012 e 2014. A mostra que nasce do interesse em aprofundar a relação do homem com a tecnologia foi comissariada por Leonor Nazaré.
Solo exhibition on Edgar Martins (1977), showcasing the series of photographs “The Poetic Impossibility of Containing Infinity”, a project carried out by the artist over two years, between 2012 and 2014. The show, curated by Leonor Nazaré, stemmed from the artist’s interest in exploring the relationship between man and technology.

Exposição individual do artista português Edgar Martins (1977), apresentada na Galeria de Exposições Temporárias da Sede da Fundação Calouste Gulbenkian (piso 01). Comissariada por Leonor Nazaré, esta mostra centra-se na série fotográfica A impossibilidade poética de conter o infinito, um projeto que ocupou o artista ao longo de dois anos, entre 2012 e 2014.

Realizada na Agência Espacial Europeia (ESA), esta série nasce do interesse de Edgar Martins, na sequência do trabalho anteriormente desenvolvido com The Time Machine (2011), em aprofundar a relação do homem com a tecnologia, e o impacto desta nas noções de tempo e espaço.

Num texto publicado na Contemporânea, o artista justifica a escolha da ESA em detrimento da National Aeronautics and Space Administration (NASA) e da European Organization for Nuclear Research (CERN) com o facto de a ESA nunca ter sido objeto de reflexão fora do campo científico, enquanto as outras duas organizações já possuíam programas de residência artística. Segundo Edgar Martins, «este território nunca pisado por um artista merecia uma análise profunda que desencadeasse uma reflexão sobre as novas políticas de exploração do espaço» (Martins, Contemporânea, 2014).

A proposta apresentada era bastante ambiciosa, como o próprio reconhece. Consistia em «produzir a mais completa descrição de sempre» da ESA e seus programas, defendendo que «o futuro da exploração espacial exigia um contínuo diálogo social e cultural, no qual as artes e, em particular, a fotografia podiam desempenhar um papel dinâmico e vital» (Ibid.). Várias foram as instituições que apoiaram este projeto, entre as quais a Fundação Calouste Gulbenkian.

A temática do universo ou as alusões a ele foram surgindo no trabalho de Edgar Martins, desde 2007, em séries como Dwarf Exoplanets & Other Sophisms (2007), The Accidental Theorist (2007), The Inequalities in the Motion of the Stars (2008), do mesmo modo que as noções de finitude e infinitude foram sendo trabalhadas de diferentes modos pelo artista. No entanto, se nos trabalhos anteriores, em termos visuais, há uma aproximação a imagens espaciais, neste caso estamos perante uma outra abordagem do espaço, enquanto lugar inacessível, e cuja vontade de exploração pelo homem tem levado a desenvolvimentos tecnológicos, que visam ultrapassar os limites naturais do ser humano. Estes lugares, onde se ensaia a vida no espaço, são apresentados pelo artista como lugares fora do tempo e do espaço, ou pelo menos do nosso tempo e do nosso espaço. Como refere Edgar Martins: «As instalações da ESA são locais inexoravelmente heterogéneos, espaços onde confluem uma multiplicidade de funções, sentidos e temporalidades. O trabalho adota uma abordagem descritiva e especulativa, documentando e desmontando as várias camadas de significação dos espaços e objectos fotografados.» (Ibid.)

As fotografias expostas variam entre o grande e o pequeno formato, vistas de salas ou equipamentos de grandes dimensões e imagens ampliadas de objetos, fotografados sobre fundos monocromáticos. Captadas em vinte instalações da ESA e seus parceiros, espalhadas por três continentes (Europa, Ásia e América do Sul), revelam os ambientes onde são desenvolvidos programas de microgravidade, navegação, telecomunicação, exploração lunar, de Marte e Mercúrio, entre muitos outros. Lugares aparentemente imaculados, enigmáticos, fortemente atraentes e, simultaneamente, perturbadores na sua frieza e racionalidade. O espaço expositivo foi, claramente, projetado de modo a não interferir nestas imagens com ambições hiper-realistas, como refere o artista.

De planta retangular, a Galeria de Exposições Temporárias (piso 01) foi pontuada por seis paredes, posicionadas paralelamente e de forma equidistante, deixando espaço para dois corredores laterais. A cor das paredes variava entre o branco-acinzentado e o preto. Sobre estas, as imagens fotográficas sobressaíam, transformando-se numa espécie de janelas para outros espaços, de acesso restrito, onde dominava a precisão e o rigor. As características da sala, sem aberturas para o exterior e, portanto, exclusivamente iluminada artificialmente, contribui para a criação de um ambiente silencioso, artificial, anti-humano, fora do tempo.

Imbuídos de secretismo e mitos, os lugares fotografados surgem sem qualquer presença humana. A explicação dada pelo artista para esta situação é mais técnica/operacional do que conceptual: «Não foi uma decisão consciente como em projetos anteriores. Por outro lado, isto deveu-se a questões operacionais, pois era mais fácil fotografar os espaços quando estavam vazios. Por outro lado, havia as longas exposições. As pessoas estão nas imagens (tal como eu), mas simplesmente não são registadas pela máquina.» (Ponto final, 7 mar. 2014, p. 9)

As imagens dos espaços vazios eram intercaladas com imagens de objetos isolados, instrumentos científicos, complexos componentes eletrónicos, de difícil identificação, seguindo a linha experimentada na série Time Machine (2011). Estas imagens ampliadas reforçam a noção do manancial tecnológico necessário para contrariar a natureza, para alcançar o inalcançável.

Deste ambicioso projeto resultou igualmente uma monografia – The Rehearsal of Space and The Poetic Impossibility to Manage the Infinite –, editada por La Fábrica, que acompanha a exposição. Nesta, além das 90 fotografias reproduzidas, destacam-se as diferentes abordagens, sob o ponto de vista artístico, filosófico e científico, ao trabalho de Edgar Martins, apresentadas por Leonor Nazaré (curadora da exposição), Sérgio Mah, John Gribbin e João Seixas.

No seguimento da mostra, foi incorporada na coleção do CAM a obra fotográfica Cabling used during testing of ESA's BepiColombo spacecraft (ESA-ESTEC, Noordwijk, The Netherlands) (Inv. 15FP583).

Esta exposição atraiu a atenção da imprensa nacional e internacional, contando com artigos publicados na The Sunday Times Magazine, The Independent on Sunday, BBC Sky at Night Magazine, New Scientist, entre outras publicações periódicas. Sobre esta série, Sérgio B. Gomes considera que «Edgar Martins usa todos os recursos à disposição para, em certa medida, nos lançar no vazio, na confusão» (Gomes, Público, 27 jun. 2014, p. 31), enquanto Celso Martins vê nela «outra maneira de o design, essa forma de reconfiguração do mundo, enviar mensagens para o futuro» (Martins, Expresso, 26 jul. 2014, p. 32).

Esta exposição foi posteriormente apresentada na Sala da Cidade, em Coimbra, e na The Wolverhampton Art Gallery.

Mariana Roquette Teixeira, 2019


Ficha Técnica


Artistas / Participantes


Coleção Gulbenkian

Cablagem utilizada durante os testes da cápsula espacial da ESA BepiColombo (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holanda)

Edgar Martins (1977-)

Cablagem utilizada durante os testes da cápsula espacial da ESA BepiColombo (ESA-ESTEC, Noordwijk, Holanda), 2013-2015 / Inv. 15FP583


Eventos Paralelos

Visita(s) guiada(s)

À conversa com o Artista e Curador. Edgar Martins e Leonor Nazaré

jun 2014
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Domingos com Arte

jun 2014 – set 2014
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede
Lisboa, Portugal
Visita(s) guiada(s)

Uma Obra de Arte à Hora do Almoço

set 2014
Fundação Calouste Gulbenkian / Edifício Sede
Lisboa, Portugal

Publicações


Material Gráfico


Fotografias

Isabel Carlos (à esq.), Edgar Martins (à dir.)
Edgar Martins (à esq.), Isabel Carlos (à esq.) e Leonor Nazaré (à dir.)
Edgar Martins e Isabel Carlos (à dir.)
Edgar Martins e Isabel Carlos
Artur Silva Santos (à esq.) e Edgar Martins (à dir.)

Multimédia


Documentação


Imprensa


Páginas Web


Fontes Arquivísticas

Arquivos Gulbenkian (Centro de Arte Moderna), Lisboa / CAM 00695

Pasta com documentação referente à produção da exposição. Contém ficha de conceção da exposição, maqueta do caderno da exposição, desenho do espaço expositivo, correspondência, lista de obras para efeitos de seguro, formulários de empréstimo, relatórios do estado de conservação das obras, convite e relatório final da exposição. 2009 – 2014

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 4400

Coleção fotográfica, cor: aspetos (FCG, Lisboa) 2014

Arquivo Digital Gulbenkian, Lisboa / ID: 4369

Coleção fotográfica, cor: inauguração (FCG, Lisboa) 2014


Exposições Relacionadas

Definição de Cookies

Definição de Cookies

A Fundação Calouste Gulbenkian usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras.